Ilha do Medo

Otavio Almeida 17 de março de 2010 59
Ilha do Medo

Ilha do Medo (Shutter Island, 2010) é um dos mais completos estudos cinematográficos já feitos sobre a mente humana. Se é sobre ser normal ou louco, pouco importa. Aliás, volta e meia a questão vem à tona: O que é ser normal? É uma pergunta difícil, afinal cada um tem suas diferenças para se estabelecer um padrão. E como é possível cobrar comportamento exemplar do cidadão quando o Estado lava as mãos?

A verdadeira ilha do medo está em nossas mentes. Quando o indivíduo não aceita ou compreende o mundo real e violento como ele é, onde cada um pensa em si próprio, a saída mais fácil é a imaginação. Ao se entregar aos sonhos que escondem os pesadelos, não há mais para onde fugir de uma prisão que coloca raciocínios, decisões e atitudes numa linha invisível que separa a sanidade da loucura. De acordo com os olhos do “louco”, só existe a realidade, que, por sua vez, não pode ser vista pelas pessoas consideradas normais pela sociedade.

O falso e o verdadeiro. A realidade e a ficção são temas de diversos filmes, incluindo muitos dos atuais. E o cinema de Martin Scorsese costuma analisar essa dualidade do ser humano, que inevitavelmente perde sua identidade. Foi assim com o Travis Bickle (Robert De Niro), de Taxi Driver, com o Jake LaMotta (De Niro), de Touro Indomável, o Howard Hughes (Leonardo DiCaprio), de O Aviador, o Frank Pierce (Nicolas Cage), de Vivendo no Limite, o Paul Hackett (Griffin Dunne), de Depois de Horas, o Jesus (Willem Dafoe), de A Última Tentação de Cristo, e com os protagonistas (DiCaprio e Matt Damon) de Os Infiltrados. Porém, Marty sempre observou de perto seus anti-heróis, com uma habilidade narrativa incrível para fazer a plateia simpatizar com esses sujeitos – só para, depois, em um golpe de mestre, trair a confiança de seu espectador.

O mesmo acontece em Ilha do Medo, com o Teddy Daniels de Leonardo DiCaprio. Com um detalhe que faz toda a diferença: Desta vez, Marty tenta olhar dentro da mente de seu protagonista. E nunca ele foi tão fundo nessa jornada ao inferno que é o cérebro humano.

Ilha do medo 2
A trama, sinceramente, é o que menos importa em Ilha do Medo. O desfecho, menos ainda. É a viagem que vale cada centavo do ingresso. Alguns tentarão diminuir a intenção de Martin Scorsese dizendo que adivinharam o final lá pela metade (ou até mesmo no trailer). Lembre-se da maldita tendência do final surpresa reinaugurada em O Sexto Sentido. Se ninguém descobrisse que Bruce Willis estava morto o tempo todo, o filme de M. Night Shyamalan ainda seria magnífico, porque tem uma história intrigante, densa, que reflete e joga na cara os medos de todos nós. É a viagem que importa. Depois disso, Hollywood pensou que era só filmar qualquer roteiro imbecil, com sustos a cada 10 minutos com a ajuda da trilha ou dos efeitos sonoros. Bastava apenas terminar o filme com um final surpresa para o público lembrar só disso. É o caso de O Amigo Oculto e outras bombas.

Mas não cometa o erro de confundir essa onda com Ilha do Medo, que seria sim ainda maior se ninguém tivesse explorado reviravoltas no final. Não que Ilha do Medo tenha uma reviravolta nos últimos minutos, que muda o filme inteiro. Martin Scorsese apenas faz o despertador tocar, acordando aquele que estava entregue ao mundo dos sonhos.

Ilha do Medo tem a ousadia de adotar uma estrutura inversa. Se fosse um filme qualquer, teríamos ao menos um fiapo de realidade, apresentado desde o início, como paradigma para definir os momentos em que ela termina e dá lugar ao delírio. Mas não. Quando Ilha do Medo acaba, não temos referência suficiente para julgar com certeza a sua conclusão, que pode ou não ser verdadeira. É desconcertante.

Mas nem é isso que torna o filme tão fascinante. Martin Scorsese é uma enciclopédia cinematográfica ambulante. E coloca todo seu conhecimento  a favor do filme. Ilha do Medo é ilusão. Cinema é ilusão. Marty torna a estrutura do sonho real, com sensações capazes de serem sentidas pela plateia, numa completa imersão na narrativa que o cineasta toma como questão. É um filme para os sentidos, já que a ambiguidade é evocada. Acompanhar Teddy Daniels em sua investigação noir, em Shutter Island, faz nossa memória resgatar momentos que confundem cinema e vida. O que é real? E o que queremos tornar real? Baseada em lembranças, nossa visão – e a do próprio protagonista – ganha uma representação pessoal e moral, que torna impossível julgar qualquer coisa que vemos na tela. Seja na trama em si ou nas ambições visuais cheias de referências cinematográficas do diretor. E é mais fácil Martin Scorsese estar certo do que eu ou você.

Ilha do medo
Saber o que é verdadeiro ou falso em Ilha do Medo é chover no molhado. Parece óbvio com as prováveis explicações do roteiro no final, mas não é. Acreditar na manipulação e no poder da imagem do cinema é como andar pelas ruas e perder detalhes da vida porque você olhou para o outro lado na hora H ou piscou e perdeu o que aconteceu ali bem diante de seus olhos. E você simplesmente aceita os fatos e segue em frente.

Depois de Ilha do Medo, não acordamos de um sonho ruim, regado a luzes, cores, enquadramentos clássicos, escuridão, fumaça, chuva, ventania, surrealismo, muros altos, corredores intermináveis, campos de concentração, trilhas assustadoras, como a Passacaglia que abre o filme. E imagens lindas de tão horrendas. Ou o contrário. Martin Scorsese mostra o terror da forma mais bela possível ou revela a beleza da maneira mais assustadora que existe. É como sonhar acordado em um exercício de horror psicológico, que permanece em nossa mente mesmo com as luzes acesas no fim da sessão. É como se ainda estivéssemos naquela ilha, presos com Teddy Daniels.

Ilha do Medo (Shutter Island, 2010)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Laeta Kalogridis (Baseado no livro de Dennis Lehane)
Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max von Sydow, Michelle Williams, Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Jackie Earle Haley, e Ted Levine

59 Comentários »

  1. Emanuelle 25 de novembro de 2012 às 2:01 AM -

    Olha so um filme com o drama bom,mas era para ter um final para que o telespectador pudesse dormir em paz e não pensando?- que noite perdida

  2. Hugo Gonzalez 25 de novembro de 2012 às 9:04 AM -

    Que parafernália intelectual o autor preparou para enganar e tomar o tempo dos espectadores! De 0 a 10, minha nota é 5.

  3. luis 25 de novembro de 2012 às 12:29 PM -

    eu assistir o filme, mais nao entende nada,até agora estou tentando entender mais nao consigo.ele era o policial ou só um maluco?

  4. Mauro Rosa 25 de novembro de 2012 às 2:02 PM -

    olha so eu repito a pergunta do luis…

  5. Mauro Rosa 25 de novembro de 2012 às 2:19 PM -

    quer dizer respondo a pergunta do luis…
    …Eleera um maluco matou a sua mulher, era o paciente 67, a terapia deu certo no final, só que ele se ligou e fingiu que ainda tinha alucinações pra poder morrer. Ele fala uma frase algo do tipo
    “melhor morrer como herói do que viver como um monstro” ele não queria viver com remorsos e o amigo dele que era o psiquiatra percebe e acena para os outros sabendo da sua cura mais autoriza a lobotomia percebendo a sua vontade …
    filme para pensar e ver varias vezes hehhheheeheh

  6. murilo 25 de novembro de 2012 às 5:21 PM -

    Nao entendi nada do filme e esse site so me confundiu mais ainda

  7. Keyla 3 de outubro de 2013 às 5:09 PM -

    Amei esse filme. Não me deixou dormir por dias ,ate que cheguei a conclusão de que ele era realmente doido.
    Mas ate hoje finjo para mim mesma que ele era uma pessoa normal . Triste você assistir um filme inteiro acreditando em uma coisa e perceber que no final não é nada daquilo!
    Ótimo filme , para pensar.

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