Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Otavio Almeida 8 de fevereiro de 2012 17
Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres

A HEROÍNA QUE SE EXPRESSA COM SEXO E VIOLÊNCIA

A jovem Lisbeth Salander (Rooney Mara) vive num universo de homens. Homens que não prestam. Ou, melhor, eles sempre a machucam de alguma forma. Psicologicamente ou fisicamente. Homens, que, de fato, não amam as suas mulheres. E Lisbeth não é a única representante do sexo feminino a sofrer neste filme de David Fincher. Mas é ela quem representa a plateia na tela.

Assim cresceu Lisbeth. Violentada, enganada, traída, sempre a vítima. Uma cyber punk, investigadora, inteligentíssima. Quem vê apenas cara, não vê coração. E é bom olhar a atuação de Rooney Mara com muita atenção. Ela deixa pouco para a plateia. Seus olhos, no entanto, dizem mais. Há uma menina ali dentro, em algum lugar. Por sua história sofrida e consequente visão de mundo, ela tem no sexo e na violência as suas principais formas de expressão.

Quando ela conhece Mikael Blomkvist (Daniel Craig), o jornalista investigativo que está com a corda no pescoço, sua vida ganha um novo horizonte. Lentamente, passa a se abrir mais com o parceiro. Começa (ou recomeça) a se tornar mais humana e, naturalmente, a expressar seus sentimentos com, quem diria, palavras. E não apenas com sexo e sangue. Mas a dedicação de Lisbeth, à investigação – que serve como pano de fundo para o fascinante estudo que David Fincher faz de sua personagem – é também a sua ruína. Lembre-se: em Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl With The Dragon Tattoo, 2011), os representantes do sexo masculino são desprezíveis. Exceto um: o personagem de Christopher Plummer. Ao menos, nesta fase final de sua vida. Ainda respira por ter a esperança de entender o que aconteceu com a sua sobrinha, desaparecida sem deixar rastros há muito, muito tempo. O canto do cisne deste personagem masculino é, de certa forma, se reconciliar com a mulher da sua vida.

Mas é fácil se perder na velocidade da investigação de Mikael Blomkvist/Lisbeth Salander. Não que seja um erro do filme, afinal o foco é a construção desse mundo em que vive Lisbeth. E como seu caminho se cruza com o de Mikael. Como eles se complementam. E para onde vai a relação entre eles.

O roteiro de Steven Zaillian, adaptado do primeiro livro da trilogia de Stieg Larsson, podia render ao mistério uma atenção maior nas mãos de outro diretor. Mas o filme é de David Fincher, que olha primeiro para Lisbeth. E está aí o seu maior acerto para fugir da versão sueca, que tem Noomi Rapace no papel principal. Noomi é ótima, mas Rooney é ainda mais espetacular, ousada e intrigante. Concordo que talvez seja mais fácil para a menina reconstruir uma personagem já existente. Mas sua Lisbeth é humanizada. O máximo possível. Até onde os homens de seu universo permitem. Tornando assim a missão de desvendar a menina frágil por trás do “monstro” uma tarefa muito mais interessante.

O que dizer mais sobre Fincher? Grande Fincher. Gostam de dizer que ele é um dos melhores diretores americanos da atualidade. E é. Mas prefiro dizer que é bom tê-lo de volta à escuridão, às trevas, onde reina como poucos antes dele. O cineasta de Seven, Clube da Luta e Zodíaco deu um tempo em sua fase Mr. Nice Guy para voltar a dar porrada em quem parou de mente e espírito no século passado. Suas aberturas visualmente provocantes estão de volta, com um filme não menos explosivo. Nada contra se o diretor quiser se arriscar em outros territórios de tempos em tempos. Ele tem esse direito, o que faz bem para a sua evolução como cineasta. Mas é explorando o lado negro do ser humano que ele se sai melhor. Como Scorsese nas ruas.

Uma prova está na cena do estupro, que Fincher filma como um voyeur. Sua solução é doentia. O fato do agressor parar pra pensar em colocar camisinha num ato tão violento, nojento, repugnante, é um atestado da “maldade” do diretor. Só torna a cena mais perturbadora – e a torcida pela vingança justificada de Lisbeth ainda maior. Mas a maldade mais intensa feita pelo diretor não é física nem moral. Está na última cena, aquela que despedaça o coração de Lisbeth em vários pedaços. Grande Fincher.

Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl With The Dragon Tattoo, 2011)
Direção: David Fincher
Roteiro: Steven Zaillian
Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgård, Robin Wright, Steven Berkoff e Joely Richardson

17 Comentários »

  1. João Paulo Rodrigues 6 de fevereiro de 2012 às 2:11 PM -

    Manda isso pro Alex para ele dizer algo … Sinceramente, na revisão conseguiu ser melhor que o original por um detalhe fundamental … Os olhos de Mara em muitas cenas, na construção do fato e principalmente …

    VOCÊ SE IMPORTA COM A HISTÓRIA EM SI e não somente com a personagem de Salander, coisa que é latente no primeiro filme e que é a chave da ruina do segundo filme.

    Fincher, você é joinha!

  2. Otavio Almeida 6 de fevereiro de 2012 às 2:13 PM -

    JOÃO PAULO
    Sim, a “pegada” está na personagem. Ela é o centro do filme. Não o mistério e sua resolução. Abs!

  3. João Paulo Rodrigues 6 de fevereiro de 2012 às 2:18 PM -

    Agora sim, um comentário lá vai ser joinha … e … e … CADE RENZOR SER INDICADO AO OSCAR CHAMPS???

  4. Otavio Almeida 6 de fevereiro de 2012 às 2:32 PM -

    JOÃO PAULO
    Quem mandou levar o Oscar por “A Rede Social”? Era melhor Hans Zimmer ter levado. Assim, Reznor disputaria o Oscar neste ano. Coisas da Academia. Abs!

  5. Robson Costa 6 de fevereiro de 2012 às 4:11 PM -

    Adorei, ainda achei que faltou algo mas algo muito pequeno rsrsrsrsrrs. Estou lendo o livro agora e depois lerei os outros dois da trilogia. É um filmaço e Lisbeth dá show, o filme é dela.

  6. Kadu Silva (Ccine10) 6 de fevereiro de 2012 às 4:12 PM -

    Ótimo texto Otavio, tb achei muito bom o filme de Fincher. Não assisti a versão sueca, mas adorei tudo que vi, um dos melhores até agora no ano.

  7. Lucas Nascimento 6 de fevereiro de 2012 às 6:06 PM -

    Ótimo filme e ótima análise. A cena de abertura é a melhor que o Fincher já fez hehe.

    Abrax!

  8. Paulo Ricardo 6 de fevereiro de 2012 às 6:14 PM -

    Achei que você gostava do Fincher nomeado ao Oscar por “O Curioso Caso de Benjamin Button” e “A Rede Social”.

  9. Vinícius 6 de fevereiro de 2012 às 8:07 PM -

    Seria uma história de mistério qualquer (talvez até uma história de amor), não fosse David Fincher, Otávio. Na verdade, seria mais uma história, não fosse o cinema (montagem, mise-en-scène e enquadramento).

    Grande Fincher.

  10. Cristiano Contreiras 6 de fevereiro de 2012 às 8:23 PM -

    É impressionante como David Fincher sabe interagir com o espectador apenas pelo modo denso que expõe a natureza mórbida humana. Não existe, talvez, cineasta melhor que ele para providenciar reflexões tão extremas diante de elementos habitualmente cruéis.

    Fincher é mestre em conceber exercícios cinematográficos que exploram o lado mais obscuro da manifestação psicótica. SEVEN, VIDAS EM JOGO, CLUBE DA LUTA e ZODÍACO são filmes que percorreram, cada um à sua maneira, o terror-consciente de indivíduos martirizados, psicopatas indispostos e toda teia lasciva deste universo macabro gótico tão providencial em sua carreira. Aqui temos o mesmo exercício psicológico de tensão auxiliado por um roteiro que adapta muito bem o livro de de Stieg Larsson, Otavio.

    É um filme dark, bem soturno mesmo, daqueles intimistas que exterioriza o caos do suspense, o drama conturbado e a presença de uma direção que privilegia personagens tridimensionais. E para aqueles que tinham dúvida, Fincher prova que sabe, ainda, ser surpreendente em uma temática já exercitada nos solos hollywoodianos. Aqui ganha-se forma o texto ardiloso de Larsson, mantendo-se, primordialmente, toda sua essência. E o atrativo maior vai da bela química física-interpretativa-emocional dos astros Daniel Craig e Rooney Mara — esta inova na composição, conferindo o mesmo porte introspectivo e visual exótico da personagem literária. A atriz mereceu a indicação ao Oscar por conta de uma composição, ainda que sutil, bem delineada. Há momentos onde Mara facilmente dialoga com o público, nos momentos onde Lisbeth Salander atua com personalidade ou emoção diante de atos cruéis que o roteiro insiste em expor.

    As pessoas só comentam sobre ela e traça comparações com a atriz do filme sueco. Noomi Rapace é uma bela atriz, ainda mais que sabe mesmo se concentrar e se dedicar aos seus trabalhos. Eu gosto dela no filme, mas verdade seja dita: ela não incorpora Lisbeth Salander como o livro o faz. A personagem era muito mais sombria, densa e introspectiva – era isso um dos pontos que mais me incomodavam no filme sueco. Mas não era culpa da atriz e sim da maneira como o filme foi concebido e tal, problema de roteiro, ao meu ver. E isso é muito mais solicionado no filme do Fincher, finalmente. Rooney Mara assombra, repare em cenas onde ela apenas dialoga com o público com seu olhar estranho e misterioso. Gosto muito da caracterização dela como Lisbeth, me pegou muito mais de jeito, na verdade o filme todo americano é muito mais visceral e instigante. Em diversos aspectos…

    Engana-se que, por ser um remake (termo nem correto, já que o filme americano é uma adaptação direta do livro, ainda que com personalidade própria), a fita não tenha própria força. A ultraviolência, a evidência do suspense gradual e o esqueleto narrativo são elementos do diretor. Há cenas muito densas e fortes aqui, difíceis de degustar, isso é bem típico do universo Fincher de “causar” e mexer com quem absorve suas tramas. Sentimos, totalmente, a mão do diretor em cada sequência, em certos momentos, na maneira como sua câmera torna-se perspicaz de seus personagens — estes sempre dúbios, um tanto misteriosos, assim como o ser humano muito bem é. Decerto, verdade seja dita, a trilha de Trent Reznor & Atticus Ross é capaz de dimensionar melhor momentos de sufoco, de malícia e torpor. O suspense é muito bem estruturado por conta de uma instrumentização inteligente, moderna e que atinge o espectador por conta da sonoridade que ocasiona sensações de medo, agonia e pânico. Filmaço! E parabéns pelo seu texto!

  11. Otavio Almeida 6 de fevereiro de 2012 às 9:52 PM -

    ROBSON
    Só não acho que um filme deve ser analisado pelo seu livro de origem. Abs!

    KADU
    Obrigado! Abs!

    LUCAS
    Obrigado. Mas sobre a abertura, hmm, muito boa. Mas talvez sua mais original seja a de “Clube da Luta”. A melhor talvez seja a desse novo filme. Com Craig nela, parece um abertura hardcore de 007. Hahaha… Abs!

    PAULO RICARDO
    Gostei de “A Rede Social”, mas já esqueci. Não acho essa cocada toda. Já sobre “Benjamin Button”, prefiro não comentar mais do que já coloquei na minha crítica. Apanhei pacas com ela, hehe… Abs!

    VINICIUS
    Concordo contigo. Abs!

    CRISTIANO
    Noto que você gosta de comparar filme e livro. Eu não concordo. Pela história em si, claro, filme e livro se complementam. Mas as linguagens são diferentes. Não acho que um precise do outro para alcançarmos a excelência da arte. Tivemos essa discussão antes em “Harry Potter e as Relíquias da Morte”, não? Abs, e obrigado!

  12. Fabio Rockenbach 7 de fevereiro de 2012 às 6:23 AM -

    Aquele final diz tudo sobre a maneira do Fincher encarar a construção da personagem,mais do que a trama – que, no fundo, não é um mistério intrincado nem de longe.

    Aliás, já viu isso aqui?
    http://www.youtube.com/watch?v=4FalCVnXbF0

  13. Otavio Almeida 7 de fevereiro de 2012 às 9:57 AM -

    FABIO
    Vi sim. Acho que vou queimar/morder a minha língua. Abs!

  14. Matheus Pannebecker 13 de fevereiro de 2012 às 9:03 PM -

    Sinceramente, não vi nada de grandioso em “Millennium” – muito menos para justificar a vontade de várias pessoas de ver o filme indicado nas categorias principais do Oscar (o que nunca aconteceria). Para mim, Fincher foi, de novo, frio e racional demais – algo que não faz o meu estilo.

  15. Gustavo 15 de fevereiro de 2012 às 12:16 AM -

    Fincher, como sempre, detona na direção!
    Mas concordo com o Matheus aqui em cima!
    Também não vi nada grandioso ou que seja digno de indicações…
    Nem mesmo a Mara, que está ótima, merecia sua indicação (Tilda Swinton seria bem mais apropriado)…

  16. Otavio Almeida 17 de fevereiro de 2012 às 6:04 PM -

    MATHEUS
    Acho que ele foi frio em “Benjamin Button” e “A Rede Social”. Se foi frio em “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, bem, acho que combina até com o clima sueco, não? Hehe… Abs!

    GUSTAVO
    Achei Rooney Mara sensacional neste filme. Ô garotinha! Abs!

  17. Júlio Pereira 20 de fevereiro de 2012 às 3:07 PM -

    Grande Fincher. Grande Otávio. Gostei muito do seu texto, um dos poucos que falam sobre o que verdadeiramente é Millenium: Lisbeth. Não é simplesmente um filme de investigação, mas um estudo de personagem como thriller de fundo. E nada melhor que o Fincher para fazer isso, criando um filme belíssimo, tecnicamente impecável, frio na medida certa, perverso e instigante. Como disse: Grande Fincher!

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