Frances Ha

Otavio Almeida 4 de setembro de 2013 7
Frances Ha

CRÔNICAS DE UMA JOVEM ADULTA EM NOVA YORK

Frances (Greta Gerwig) é uma mulher que tenta ganhar a vida em Nova York com muito otimismo. Apesar de seus 27 anos, ainda não desistiu de ser bailarina. Sua condição financeira também não ajuda a levar seus sonhos adiante, mas Frances não desiste. Conta com bons amigos, boa vontade, uma presença cativante e nunca se desespera.

Você começa a ver Frances Ha (2013) e já imagina que se trata da velha história que levará a protagonista a realizar seus sonhos, encontrando um príncipe encantado e tornando-se, enfim, uma bailarina de sucesso. Mas não é bem assim. Isso não quer dizer que o filme seja pessimista ou injusto na hora de desenhar o destino de uma protagonista tão especial.

O diretor Noah Baumbach, em seu melhor filme desde A Lula e a Baleia, está interessado em analisar uma geração de “jovens adultos” e como a sociedade exige que você se enquadre nas normas por ela estabelecida. Frances só quer se levantar da cama e, simplesmente, viver. Só isso. Se tudo der certo, ótimo. Se não der, amanhã é outro dia e o importante é continuar lutando. O que gera diversas perguntas: Quando começa a vida adulta? Há algo de estranho em Frances? Por que ela deve ser considerada velha demais para se tornar bailarina? Por que alguém deve sacramentar que ela precisa de um namorado ou um marido? Por que Frances deve fazer isso ou aquilo só porque outras pessoas fazem?

Frances tem paixões e segredos como qualquer ser humano, mas ela é uma figura única por não se submeter às regras. Ou por ser espontânea, decidindo correr pelas ruas de Nova York como se não houvesse amanhã, ou passar um fim de semana em Paris mesmo sem dinheiro para pagar a viagem. Ou talvez não seja nada disso. Por que devo definir o perfil de Frances se não sou dono da verdade? Eu estaria me colocando ao lado das pessoas que gostam sempre de julgar os outros e, assim, cairia na armadilha de Noah Baumbach, que não fez um filme tão simples quanto parece. Afinal, pode ser que Frances não se encaixe nesse mundo porque precisa amadurecer – mas o que significa, de fato, amadurecer? É possível também fazer a leitura pós-filme de que o mundo seja um lugar tão cínico e ingrato que não mereça uma pessoa como Frances.


A execução minimalista também faz parte da confusão. Inclusive no que diz respeito à originalidade. Baumbach aborda um pedaço da vida de uma mulher independente e à frente (ou não) de seu tempo, o que remete a memória dos cinéfilos à obra de Woody Allen quando temos Nova York como cenário ideal para desventuras relacionadas a amor e amizade com suas consequentes alegrias e frustrações. A fotografia em preto e branco pode facilmente levar à lembrança de Manhattan, clássico de Allen, embora Frances Ha conte uma história completamente diferente e não caia na tentação de reverenciar a cidade que nunca dorme. Baumbach fecha a câmera nos personagens e não delira com sua arquitetura privilegiada – é como se Nova York fosse menos grandiosa; porém mais sufocante e difícil. Lembra, mas não é Woody Allen. Não é preciso também compará-lo a François Truffaut, apesar de Frances ser uma incompreendida e Baumbach utilizar fragmentos da trilha de Os Incompreendidos. Frances Ha tem vontade própria. A falta de cores, o minimalismo, as tomadas fechadas, a montagem que diminui o volume da trilha ao fundo demonstram a claustrofobia da prisão que fazemos de nós mesmos. Ninguém pode fugir daquilo que realmente é.

Contribui muito para a magia do filme a presença de Greta Gerwig no roteiro cheio de diálogos sensacionais (feito a quatro mãos com Noah Baumbach) e na composição carismática, graciosa e desengonçada da personagem. Frances é um encanto de mulher. E, embora tenha feito alguns filmes até aqui, Greta Gerwig é um achado. Assim como Mickey Sumner, a filha de Sting que interpreta Sophie, a melhor amiga de Frances, cujas escolhas dão uma ideia do que poderia vir a ser o destino de Frances se ela fosse como a maioria das pessoas.

A química entre Greta e Mickey é tão fascinante que o filme já começa soltando faíscas. Ou você não pensou nos minutos iniciais que Frances e Sophie formavam um casal? É parte da beleza desse roteiro surpreender a plateia a cada cena.

Porque Frances vive num mundo em preto e branco. Só que, um dia, ela finalmente acordará num cenário colorido ao som de David Bowie cantando Modern Love. Mesmo que somente ela seja capaz de enxergar cores, e ouvir trilha sonora na vida real.

Frances Ha (Frances Ha, 2013)
Direção: Noah Baumbach
Roteiro: Noah Baumbach e Greta Gerwig
Elenco: Greta Gerwig, Mickey Sumner, Adam Driver, Michael Esper, Josh Hamilton, Michael Zegen, Grace Gummer, Lindsay Burdge

7 Comentários »

  1. Kamila 4 de setembro de 2013 às 9:32 PM -

    Tenho lido excelentes críticas sobre esse filme e um destaque especial para a Greta Gerwig. Será que ela chega ao Oscar ou você acha que a Academia vai deixar passar “Frances Ha” despercebido? Me parece um filme com cara de que vai ter um ótimo desempenho nos prêmios da crítica. Espero ter chance de conferir. Parabéns pelo texto, Otavio!

  2. Paulo Ricardo 4 de setembro de 2013 às 11:03 PM -

    É muito bom acompanhar a evolução de um cineasta.O cinema de Noah Baumbach me lembra o de Alexander Payne(histórias humanas de pessoas comuns) e gosto muito de “A Lula e a Baleia”. Não gostei muito de “Margot e o Casamento” e “Greeberg” é muito bom,com uma grande atuação de Ben Stiller.E concordo com a Kamila:Esse filme tem cara de vai ter um bom desempenho nas premiações.

  3. Otávio Almeida 5 de setembro de 2013 às 10:41 AM -

    KAMILA: Obrigado! E eu acho que a Greta Gerwig será indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz (Comédia/Musical). Mas enfrentará um peso-pesado: Cate Blanchett (Blue Jasmine). Ao Oscar, eu não estou tão certo de sua indicação. Mas é uma possibilidade sim. Assim como o roteiro (original). Mas acho que o filme tem mais chance de aparecer na festa do Globo de Ouro. Bjs!

    PAULO RICARDO: O cinema de Noah Baumbach lembra o tom empregado por Alexander Payne. Mas acho que Payne é mais americano, enquanto Noah tem um olhar mais europeu. Não acha? Abs!

  4. Paulo Ricardo 5 de setembro de 2013 às 11:11 AM -

    Concordo.E assim como Baumbach,Alexander Payne filmou “Nebraska” em preto e branco.Acho que veremos ambos no Oscar”.Frances Ha”indicado a roteiro e “Nebraska” a melhor ator(Bruce Dern).

  5. Otavio Almeida 5 de setembro de 2013 às 11:23 AM -

    PAULO RICARDO: Um amigo viu “Nebraska” em Cannes e disse que foi um dos TOP 5 do Festival.

  6. Ariel Lucca 5 de setembro de 2013 às 8:58 PM -

    Acho que é uma boa aposta de indicação ao Oscar de melhor roteiro original.E Otávio obrigado pelas suas críticas que me fazem querer ver filmes que talvez eu nunca me interessaria :)

  7. Otavio Almeida 6 de setembro de 2013 às 11:16 AM -

    ARIEL: Eu que te agradeço, rapaz! Abs!

Deixe seu comentário »