O Lobo de Wall Street

Otavio Almeida 22 de janeiro de 2014 11
O Lobo de Wall Street

A HUMANIDADE NÃO DEU CERTO

Martin Scorsese vai à forra em O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, 2013), a síntese máxima do capitalismo de acordo com o cinema. É o filme que resume o que há de bom e ruim no ápice e na decadência de um sistema político-econômico que está há tempo demais nas entranhas da sociedade ocidental.

E esse aqui é o Marty de Os Bons Companheiros e Cassino, aplicando nos corretores de Wall Street a fúria e o caráter dos mafiosos e a cumplicidade dos mesmos com a plateia. A violência que chocava há 40 anos em Taxi Driver é substituída ou, melhor, modernizada pela agressão ao politicamente correto; porque o sangue já não incomoda mais. O que causa polêmica no novo século é dizer o que se pensa custe o que custar; é falar sem o mínimo cuidado sobre minorias; é nudez, sexo, drogas, machismo; é o rico zombando dos trabalhadores e humildes que realmente precisam de emprego; é o poderoso exaltando sua total ausência de moral.

Mas o que assusta de verdade no filme não é esse cenário ou a vida gananciosa, sem escrúpulos ou a irresponsabilidade de Jordan Belfort (um Leonardo DiCaprio insano e fabuloso), que ficou rico graças ao talento para enganar, lavar dinheiro e gastá-lo na mesma velocidade em que ganha (muito) mais. O que assusta é O Lobo de Wall Street ter a audácia de mostrar que ser e ter mais que os outros são objetivos enraizados em quase todos os indivíduos do planeta. Se ainda não desabrochou é porque a sensação vai estourar mais cedo ou mais tarde em cada um de nós.

Marty não julga Jordan Belfort. O que o diretor faz é uma análise do espectador – a minha e a sua culpa no sistema; uma atitude de quem tem algo a dizer no cinema. Sabemos que Marty nunca foi um contador de histórias passivo e a opção em deixar o julgamento do protagonista para o espectador é totalmente proposital e acertada, porque sua intenção é mexer num vespeiro, apontando o dedo para o público, tornando-o cúmplice do “vilão” de um modo como poucos filmes conseguiram.

Acha que o diálogo de O Lobo de Wall Street não é com você? Por que, então, Leonardo DiCaprio fala com a plateia de vez em quando e arranca risadas? Por que ele está sempre no controle da situação, inclusive parando o filme quando bem entende para recontá-lo à sua maneira? E por que a admiração da plateia por ele cresce a cada cena?

Marty conta uma história de três horas de duração a mil por hora e não dá o tempo necessário para a plateia parar e refletir sobre o que está vendo. A veloz e precisa montagem de Thelma Schoonmaker, a profissional mais talentosa em seu ofício, não deixa o espectador esperando pelo momento em que Jordan Belfort vai se dar mal. Não. Você quer apenas ver mais e mais de suas falcatruas e ouvir cada nova fala agressiva que certamente se tornará bordão do cinema.

E a armadilha está pronta, porque ao se divertir com O Lobo de Wall Street, você endossa a ideia de que qualquer um pode se transformar em Jordan Belfort quando vivemos num sistema em que quanto maior o dinheiro e o poder, menor o respeito por leis, limites e o próximo, que é reduzido a mero objeto. É uma troca de culpas, alertando que todos nós somos facilmente enganados e capazes de enganar. E, em muitos casos, admiramos e torcemos pelo bandido – não fizemos isso em muitos filmes antes de O Lobo de Wall Street? A diferença é que Marty não dirige uma aventura de James Bond ou Batman, o que torna essa admiração um tanto doentia de nossa parte. É um prazer quase que obsceno gostar do protagonista de O Lobo de Wall Street, porque Belfort representa todos os perfis, sem esquecer aqueles que sonham com muito dinheiro e têm certeza absoluta que jamais serão corrompidos.

Note como no início do filme, ao conhecer seu mentor (uma divertidíssima participação de Matthew McConaughey), Belfort ainda fala baixinho, para dentro e de cabeça baixa; longe do monstro inconsequente, indecente e bilionário que toma conta de seu corpo após construir sua própria empresa, a Stratton Oakmont. Note também como nem Scarface cheira tanta cocaína quanto Belfort e seus amigos, e que ninguém morre de overdose. Há tanto sexo neste filme, incluindo um bacanal num avião, mas ninguém morre de AIDS. É como aquele político que enriquece às nossas custas, mas ganha o nosso voto na eleição seguinte mesmo assim, permanecendo no topo impunemente por muito tempo.

Mas não fique tão ofendido com Marty, porque existem exceções, como o agente do FBI interpretado por Kyle Chandler, a única pessoa honesta do filme para representar uma pequena parcela da população. Minto: os filhos de Jordan Belfort e sua esposa, Naomi (guarde bem o nome e o rosto da bela Margot Robbie) obviamente ainda não conheceram o mundo. Mas no Brasil, país do benefício próprio, que tem medo de “rolezinho” e faz “vaquinha” para político condenado, os crimes do colarinho branco talvez não impressionem muito.

Se Marty e o roteirista Terence Winter (The Sopranos) tivessem adaptado O Lobo de Wall Street como série de TV, e com a mesma intensidade, os detratores do filme estariam dizendo maravilhas, elogiando o humor ácido, a ousadia de suas cenas mais quentes e a coragem de um autor de 71 anos em criticar o modo de vida capitalista, que, um dia pode ter sido bom na teoria antes de sua prática. Talvez. Mas o problema, de acordo com o filme, é que nós exageramos, estragamos tudo. E como qualquer reino, império ou tipo de governo, tudo tem sua ascensão e a inevitável queda.

A TV conquistou com toda justiça esse status e uma consequente admiração. Mas o que O Lobo de Wall Street mostra e diz que não tenha sido visto e escutado em Breaking Bad, Mad Men e Game of Thrones? Ainda bem que existem artistas como Martin Scorsese e Terence Winter, que se arriscam para não deixar o cinema comendo poeira da televisão. Não por acaso, eles são os responsáveis por outra série bacana, Boardwalk Empire.

Para finalizar, cito o lendário cineasta Howard Hawks. Ele disse que um grande filme tem, no mínimo, três cenas boas e nenhuma ruim. Imagino quantas cenas magníficas ele tiraria de O Lobo de Wall Street. Uma delas, a minha favorita, é antológica e acompanha Belfort tentando voltar para casa após sentir o efeito de uma droga pesadíssima. Se você duvidava do talento de Leonardo DiCaprio, a birra acaba nessa cena que também comprova que Jonah Hill tem  desde já um “antes e depois” em sua carreira. Destaco ainda a última tomada que resume O Lobo de Wall Street para mim. As pessoas olhando para a câmera somos todos nós – algumas serão trouxas para o resto da vida, enquanto outras sairão dali como o Jordan Belfort de amanhã.

VEJA O TRAILER:

O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, 2013)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Terence Winter
Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Kyle Chandler, Rob Reiner, Jean Dujardin, Jon Favreau, Cristin Milioti, Matthew McConaughey e Joanna Lumley

11 Comments »

  1. Ariel Lucca 22 de janeiro de 2014 às 8:10 PM -

    Scorsese mostra mais uma vez ser um gênio do cinema. O Lobo de Wall Street é um dos melhores filmes de sua carreira e um dos melhores filmes da década. O Leonardo DiCaprio faz uma das suas melhores atuações com cenas de grande comédia (Atenção! Spoilers!) e talvez até de grande dor hehehe (Atenção! Fim do Spoiler!). Esse filme é uma grande obra-prima que define o mundo atual. E parabéns pela excelente crítica Otávio, it’s fuking awesome!

  2. Otávio Almeida 22 de janeiro de 2014 às 9:17 PM -

    ARIEL: Muito obrigado! E não posso concordar mais com você sobre esse filmaço! Abs!

  3. Kamila 22 de janeiro de 2014 às 10:38 PM -

    Excelente crítica, Otavio. Ainda não tive a chance de conferir “O Lobo de Wall Street”, mas todos são unânimes em dizer que se trata de um dos melhores filmes recentes do Martin Scorsese. E isso já é suficiente para me convencer a conferir o longa.

  4. Joao Paulo Rodrigues 23 de janeiro de 2014 às 6:04 AM -

    Essempro de vidah!

    EU TE DISSE QUE O FILME ERA PIPOCO!

    Tirando isso, acredito que talvez possa até dizer que a humanidade não deu certo … Prefiro acreditar que a humanidade é uma das maiores falacias do mundo já que quando acredita que se vai para “frente” baseado em uma ideologia bondosa … nos esbarramos com um Jordan da vida que nos pergunta … “me venda essa caneta” …

    Lindo, lindo lindo!

  5. Otávio Almeida 23 de janeiro de 2014 às 9:09 AM -

    KAMILA: Obrigado! E certamente é o melhor filme da parceria Scorsese/DiCaprio. Bjs!

    JOÃO PAULO: Champs, eu quase sempre tenho uma visão otimista. Porque quero acreditar. Mas quando coloco os dois pés no chão para enfrentar o dia a dia, eu me deparo com esse pensamento de que a humanidade não deu certo. Abs!

  6. Robson Costa 23 de janeiro de 2014 às 11:03 AM -

    Filmaço.
    Chamo atenção para uma das cenas que parece simplória em meio a tanta “correria”, mas que foi uma das que mais me marcou: quando o agente do FBI (interpretado pelo Kyle Chandler que adoro desde os tempos da série Edição de Amanhã e acho que merece mais espaço no cinema) está voltado para casa no metrô e olha para as pessoas “normais”, cansadas de um dia de trabalho e uma vida “sem graça”. O olhar dele naquele momento remete a muitas interpretações, talvez ele lembre da “cueca suada” que o Jordan fala pra ele no Iate e, por um momento, não acha que ele está certo.
    Otávio e sobre sua análise chamo a atenção para quando saindo do cinema uma senhora falava que ele “não era bem um ladrão poxa, trabalhou para ter aquilo”. Por essa miopia social, nosso país é assim.

  7. Otávio Almeida 23 de janeiro de 2014 às 11:34 AM -

    ROBSON: Exatamente, cara. Exemplos como esse da senhora saindo do cinema me levaram a essa conclusão. E a cena que você descreveu é o cenário da simplicidade que ainda existe em algumas pessoas. (SPOILER) Lembre-se da cena em que a primeira mulher do Jordan discute com ele na rua. Ele esperava apanhar da mulher, ouvir vários palavrões etc. E o que ela fez? Perguntou: “Você ainda me ama?” POW! Ele não esperava isso. Nem eu. Todos se calaram. Cena linda. A simplicidade da moça traída; que não se encaixava naquele mundo, mantendo sua dignidade acima de tudo. São pessoas assim que nos dão esperança. Abs!

  8. Robson Costa 23 de janeiro de 2014 às 4:06 PM -

    Concordo 100% com você Otávio. Resumindo: um filmaço com dezenas de cenas para serem discutidas. Essa que você citou é outra ótima.

  9. Fabio 24 de janeiro de 2014 às 12:53 AM -

    Comentei sobre o filme com você Otavio, sobre as similaridades narrativas e audiovisuais com os outros dois, e sobre o que o Robson comentou, um adendo: (SPOILER) logo após a cena do agente do FBI olhar ao redor e se ver “voltando de metro”, como o próprio Belfort disse a ele no iate, a ironia: a cena seguinte, logo após o corte, mostra uma mesma construção visual, com o mesmo enquadramento, mas quem aparece é Belfort, sentado no ônibus gradeado, indo para a prisão. Uma cena segue a outra…

    E no rastejamento no clube, a escadaria tem apenas 6 ou 7 degraus, mas quando vista por ele, e quando ele rola, ela passa a ter mais de 20…

    Pequenos detalhes que Scorsese não tenta explicar, ele deixa o espectador fazer isso. Por isso ele não pertence ao mundo atual do cinema, está em outro nível

  10. Otávio Almeida 24 de janeiro de 2014 às 8:42 AM -

    FABIO: Putz! Não reparei!!!!! Como a escada de “Interlúdio”, do Hitchcock! Genial!!!!!!

  11. Robson Costa 24 de janeiro de 2014 às 8:55 AM -

    Ótimas as observações do Fábio. Cada vez o filme se mostra ainda melhor com o que vão comentando aqui.

Deixe seu comentário »