Godzilla

Otavio Almeida 21 de maio de 2014 6
Godzilla

GRANDE E BARULHENTO, MAS NINGUÉM CONSEGUE VER

O diretor Gareth Edwards idealizou uma versão de Godzilla (2014) para adultos. É compreensível e admirável que ele se esforce para entregar algo que passe bem longe da imbecilidade. A intenção enche os olhos da indústria, até porque desde a consagração da pegada séria para o “filme bobo” – cortesia de Christopher Nolan –, muitos sabichões em Hollywood acreditam que essa é a fórmula para todas as obras voltadas para o entretenimento no século 21.

Não é. Porque cada caso é um caso. Se Steven Spielberg fazia isso tão bem desde os anos 70, ciente de que uma dose equilibrada de senso de humor era necessária, por que a sobrevivência do blockbuster cerca de quatro décadas depois exige uma leitura tão agarrada ao mundo real? Pelo amor de Deus, estamos falando de um filme catástrofe com monstros gigantes.

É bom tentar algo diferente e Gareth Edwards realmente não imita Guillermo Del Toro em Círculo de Fogo, que acertou no alvo ao propor diversão desenfreada. Ele até começa bem, porque os primeiros 30 minutos buscam o desenvolvimento dos personagens e a construção sem pressa da história até chegar à esperada revelação dos monstros. Isso porque, na hora do desespero, precisamos nos importar com ao menos um bendito ser humano numa trama escapista. É fundamental contar com alguém que se coloque no lugar do espectador na tela.

Mas após 30 minutos, notamos que o roteiro de Max Borenstein não sabe em qual personagem mirar. Primeiro porque tem gente demais neste filme. São tantas vozes e situações que duvido que você se lembre do nome de ao menos dois personagens (não vale checar na internet). A verdade é que se um filme de monstros exigisse um elenco desse tamanho, Robert Altman já teria feito Godzilla ou algo do gênero.

Segundo: o roteiro não demora a riscar da história o único personagem que a plateia tentava se apegar. E coloca à frente da trama um ator que está longe de ser ruim, mas que, assim como todos os outros que permanecem vivos, não tem muito a fazer. Vamos pegar o exemplo de Alien: O Oitavo Passageiro para explicar. Quando você mata um protagonista como o Dallas de Tom Skerritt, você precisa de uma Ellen Ripley interpretada por Sigourney Weaver.

Terceiro: a entrada dos militares na metade do filme quebra completamente as pretensões do primeiro ato. O que estava sendo construído como um exercício interessante de suspense dá lugar de vez ao filme catástrofe tradicional – com a insistente presença militar que virou referência graças às colaborações de Roland Emmerich e Michael Bay ao cinema. E é por isso que o filme não pode ser tão sério até o ato final. É por isso que a opção do diretor em esconder sua principal fera durante cinco horas de projeção para exibi-la por inteiro somente nos últimos 20 minutos não pode ser comparada ao que Spielberg fez em Tubarão. Godzilla não é um suspense. Tem MOMENTOS de suspense. E para esconder sua maior atração por tanto tempo, o filme precisa ser sustentado por personagens envolventes. Em Tubarão, você navega junto com aqueles caras. Em Godzilla, não estamos nem aí para quem vai conseguir chegar vivo até o final.

Edwards se inspirou no “menos é mais” de Tubarão e Alien. Mas o desenvolvimento da ideia foi equivocado. É só admitir que Steven Spielberg e Ridley Scott alcançaram resultados bem superiores. O diretor sabe qual é o caminho certo, mas ainda não tem noção de como percorrê-lo de forma eficiente. Um exemplo é a primeira cena de luta, que frustra a plateia não pela decisão de mostrá-la por apenas alguns segundos na… TV. Edwards quer projetar um trailer do que está por vir. O erro é fazer isso quase na metade do filme.

Mas voltando ao personagem principal que sai de cena cedo demais, eu me pergunto: quer dizer que ele sofreu e morreu em vão? Bom, Godzilla é revelado como o herói do filme e precisa viver; o que torna o principal drama do primeiro ato irrelevante. Sobre o rei dos monstros ser um cara de boa índole, tudo bem, afinal quando o lagartão enfrenta outras criaturas nas versões japonesas, ele costuma ganhar pinta de mocinho. Mas quando a trilha menos impressionante da carreira de Alexandre Desplat fica sensível nas partes em que Godzilla é ferido pelos MUTOs, a sensação causada na plateia é confusa. Era para a gente se importar MESMO com Godzilla? Ah tá.

Coitado, ele é mais educado e faz menos estrago que O Homem de Aço de Zack Snyder, mas o roteiro é tão bagunçado que também não estamos preocupados se Godzilla vai morrer ou não.

Desperdiçar Bryan Cranston, Juliette Binoche, Godzilla, Sally Hawkins, Elizabeth Olsen, David Strathairn e Ken Watanabe – o diretor não notou que o ator passou 99% do filme sem conseguir fechar a boca – não é pra qualquer um. Alguma coisa deu errado.

Vamos fazer o seguinte para você pensar no assunto: tenho certeza que os espectadores, no mínimo, arregalaram os olhos na hora em que Godzilla acerta uma “rabada” em um MUTO. Ou quando ele vomita o bafo atômico em outra criatura. Isso quer dizer que Gareth Edwards deveria ter feito um legítimo filme de monstros.

VEJA O TRAILER:

Godzilla (Godzilla, 2014)
Direção: Gareth Edwards
Roteiro: Max Borenstein
Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Ken Watanabe, Bryan Cranston, Sally Hawkins, Elizabeth Olsen, David Strathairn e Juliette Binoche

6 Comentários »

  1. Kamila 21 de maio de 2014 às 9:20 PM -

    Não assisti e nem tenho vontade!

  2. Otávio Almeida 21 de maio de 2014 às 9:21 PM -

    Hahahahaha… Poxa, Kamila. Veja pra me dizer se estou exagerando ou não… Bjs

  3. Ricardo 22 de maio de 2014 às 11:31 AM -

    Prometeram o “filme do ano” nos trailers e entregaram a “decepção do ano”. :(

  4. Paulo Ricardo 22 de maio de 2014 às 1:41 PM -

    Eu me diverti,mas é um filme com uma trama bem fraquinha.E esse “Godzilla” esta mais para “Cloverfield” do que para “Gojira”.E concordo com a “influência” de Roland Emmerich e Michael Bay nessa obra.

  5. Ariel Lucca 22 de maio de 2014 às 7:56 PM -

    Aff, esse filme foi uma decepção total, nem o bafo atômico salva…

  6. Robson Costa 13 de junho de 2014 às 12:33 PM -

    Eu gostei bastante do filme.

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