Vingadores: Era de Ultron

Otavio Almeida 6 de maio de 2015 9
Vingadores: Era de Ultron

NOT THIS TIME, AVENGERS!

Não adianta reclamar. Vingadores: Era de Ultron (Avengers: Age of Ultron, 2015) é do jeito que é por causa de todos nós. Se você gostou, good for you. Se não gostou é bom começar a assumir a responsabilidade, porque nós colocamos a Marvel no topo entre os estúdios de Hollywood e fizemos de seus filmes a maior franquia da atualidade. E é compreensível que, para se manter lá em cima, seus executivos se arrisquem de vez em quando, afinal ninguém fica na frente pra sempre sem ousar. Neste ponto, 2014 foi o ano. Capitão América: O Soldado Invernal tem um tom supreendentemente sério que nenhum outro filme do estúdio tem, e ninguém conhecia os Guardiões da Galáxia, mas a Marvel e o diretor James Gunn entregaram um blockbuster divertidíssimo, com personagens carismáticos, e uma aventura de encher os olhos que faz qualquer um querer mais. Ou seja, não faz mal entregar algo além do esperado, até porque o dinheiro vai entrar nas bilheterias do mesmo modo. Também é compreensível que, para se manter lá em cima, os executivos do estúdio tenham um cuidado enorme com o principal e mais caro filme da série, oferecendo mais do mesmo, deixando para arriscar em outras produções.

É o equilíbrio que joga no time da Marvel. E isso vem dando muito certo, porque eu e você, gostando ou não do resultado, pagamos o preço que for pelos ingressos. O plano continuará dando certo com Vingadores: Era de Ultron. Mas é bom mantermos os pés no chão. Se for difícil se distanciar da adrenalina ao final da sessão, pense um pouco uma ou duas semanas depois. Será que os efeitos causados inicialmente pelo filme ainda estarão tão fortes assim em você? Isso é normal; uma reunião de heróis tão populares costuma contribuir para que a razão dentro de qualquer nerd fique do lado de fora da sala de cinema. Assim, como é possível questionar com dez segundos de filme que parece estranho ver os Vingadores já reunidos para uma missão que é explicada no meio de tanta pirotecnia, explosão e pancadaria? Melhor deixar pra pensar nisso depois, porque ninguém quer perder a diversão. A solução imediata é embarcar na viagem e ser criança por duas horas e meia. Mas se você viu o filme semana passada, ou retrasada, e a empolgação esfriou, pense: será que valeu mesmo esperar pela superprodução? Vimos algo que realmente se destaque em relação a outros blockbusters? O vilão Ultron é isso tudo? Ou será que ele dá menos trabalho para os Vingadores que a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen)?

Para ficar no terreno nerd, basta lembrar que os Guardiões da Galáxia não fazem tanta piada quanto os Vingadores e conseguem ser mais engraçados. Enfim, esperamos diversão, mas também um mínimo de coerência no roteiro, que aliás é como se isso não existisse neste filme. Quem precisa de roteiro entre sequências épicas de ação, que devem ter sido imaginadas antes mesmo de uma história pronta? É só colocar Homem de Ferro, Hulk, Thor, Capitão América e cia. pra lá e pra cá, dando porrada em milhares de inimigos, que está valendo.

No primeiro Vingadores é aceitável, mas até quando isso vai tapear a maioria do público? No plano da Marvel, não tem problema. O importante é equilibrar a dose e manter o público fiel. Porque, como eu disse, basta ousar nos próximos filmes do Capitão América (Guerra Civil precisa pegar mais pesado, não?) e do Thor (Ragnarok não deve ser tão engraçadinho, estou certo?) para compensar a festa em Era de Ultron. As perguntas são: você tem consciência que é isso que está acontecendo? Está bom pra você? A Viúva Negra (Scarlett Johnasson) é legal, mas satisfaz como um simples objeto do elenco masculino?

A verdade é que o nível em Era de Ultron ficou perto um tantinho assim de se equiparar ao cinemão de Michael Bay na série Transformers, um pote de ouro que oferece sempre a mesma coisa episódio após episódio e os lucros só aumentam. Pode ser exagero meu. Mas, quando isso ainda não era mania em Hollywood, O Império Contra-Ataca e O Poderoso Chefão – Parte II me ensinaram que continuações precisam seguir adiante e não repetir o que deu certo.

Sei que Joss Whedon é um bom contador de histórias e sabe exatamente o que o público quer ver. É contraditório, eu sei, porque é aqui que está o problema. O diretor deveria ter ido além, mas não sei dizer se ele se concentrou demais na brincadeira e esqueceu-se de estruturar as emoções, os conflitos, as motivações que levam os personagens à cena seguinte, ou se foi a Marvel que mexeu em seu filme. Lembre-se que Whedon está fora dos próximos episódios da saga e demonstrou apoio ao cineasta Edgar Wright, que abandonou Homem-Formiga após diversas interferências do estúdio. Autor do “roteiro”, Whedon comete vacilos inacreditáveis. Ou (de novo) será que não foi 100% culpa dele? Entre outros problemas, Tony Stark (Robert Downey Jr.) não se arrepende da bobagem que fez. E os heróis agem como se tudo fosse uma mera diversão, e que resolverão a parada mais cedo ou mais tarde, custe o que custar. E o que é a cena do Thor sem camisa num laguinho? Os pequenos “intervalos” para uma conversa, um respiro ou uma organização do plano para deter Ultron são as melhores partes, mas, no fim, estão lá somente para levar à próxima cena de ação. Não espere profundidade. É como se a mente por trás do filme (Kevin Feige, o homem poderoso da Marvel?) estivesse parando a brincadeira com os amiguinhos para tomar um suco, comer biscoitos, e voltar correndo para brincar de novo. Essa sensação só não acontece (parcialmente) na melhor cena do filme, que mostra os heróis tentando erguer o martelo de Thor no fim de uma festa. Sem piadas exageradas, a diversão neste momento vem da situação, como em Guardiões da Galáxia. Mesmo assim há uma interrupção brusca para dar início à pancadaria.

Como o primeiro, Vingadores continua uma balada nerd sem precedentes. O filme é gigantesco e vale ser visto na melhor sala de cinema, com pipoca, refrigerante e na companhia da garotada. Não pense, apenas entre na brincadeira. Assim você vai achar bom mesmo se achar ruim. Mas até quando isso vai funcionar? Parece que não, mas assim como Joss Whedon, que já pulou fora, nós temos responsabilidade nisso. Afinal, as drogas – e qualquer outro produto à venda – estão aí porque existem consumidores.

VEJA O TRAILER:

Vingadores: Era de Ultron (Avengers: Age of Ultron, 2015)
Direção e roteiro: Joss Whedon
Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Chris Hemsworth, Scarlett Johnasson, Mark Ruffalo, Elizabeth Olsen, Aaron Taylor-Johnson, Samuel L. Jackson
Duração: 2h21

9 Comentários »

  1. Ariel Lucca Santana 4 de maio de 2015 às 10:41 PM -

    Foi decepcionante. Esperava que pelo menos fosse divertido, mas foi muito irritante. Foi um tanto Michael Bay mesmo, com cenas de ação exageradas e uma piada um tanto ofensiva, tratando as mulheres como objeto. E também tem o Visão, o Dr Manhattan no meio do carnaval que é Os Vingadores. Porém, no final a culpa tb é minha por criar expectativas…

  2. Kamila Azevedo 5 de maio de 2015 às 9:42 PM -

    FINALMENTE tirou a poeira daqui, hein??? Assisti “Vingadores; Era de Ultron” nesse final de semana. Achei o seguinte: cenas de ação grandiosas e mais bem elaboradas do que as do primeiro filme (e que, confesso, me deixaram tonta em vários momentos); o grande acerto continua sendo apostar na EQUIPE, e não na individualidade de cada um dos herois. Entretanto, de uma certa maneira, achei esse filme “pior” que o primeiro. Não gostei, principalmente, das tiradas de humor – muitas nos momentos totalmente errados!!!

  3. Otávio Almeida 6 de maio de 2015 às 3:05 PM -

    ARIEL: Até esqueci que o Visão estava no filme. Não acho que tenha combinado com a história. Mas, enfim, ele faz parte deste universo. Abs!

    KAMILA: Após um período conturbado, estou de volta :)
    Acho que, desta vez, o excesso de humor atrapalhou, não? Concordo contigo. As cenas de ação são legais, mas não consegui “entrar” no filme. Me diverti mais em “Para Sempre Alice”. Bjs!

  4. Robson Costa 11 de maio de 2015 às 6:56 PM -

    Vamos lá: eu gostei muito do filme, estou sendo sincero. Fico pensando que poderia ser melhor sim, mas o maior defeito pra mim nem é o Homem de Ferro se arrepender, são os outros heróis ficarem na boa com ele quando tudo termina.
    Mas gostei muito do filme, acho que é um filme tão “nerd” que os “furos” é para serem preenchidos pelas lembranças dos leitores (das antigas, principalmente) do que ocorreu nas HQs, as lacunas são preenchidas assim (era da transmídia, não é?). Não estou falando se isso é certo ou errado, estou só citando o fato.
    Achei ainda que o filme tem um subtexto texto político e social levemente forte sim, a discussão homem-tecnologia-modernidade; a questão da identidade humana; questões éticas, etc. Por isso não concordo com quem compara esse Vingadores com Velozes e Furiosos ou Transformers, esses sim não vi nada de subtexto. E os super-heróis estão aí desde 1938 por isso não é?
    E o ponto que juro que não estou mentindo rsrsrsr: o humor. Eu JURO que não consegui ver tantas piadas assim como todos estão falando. Achei a maioria delas dentro do contexto (mas pro final que tem umas que não deveriam existir). A do Ultron achei sensacional, quando ele fala que o ser-humano descobriu um metal como o Vibranium e o que ele faz é construir um frisbee, em referência ao escudo do Capitão. Além de ser uma boa piada é uma crítica à humanidade e seu uso da tecnologia (a modernidade falhou, não é?).
    Resumindo, o filme parece uma excelente HQ mensal (não uma graphic-novel, essa foi a trilogia do Batman do Nolan). E nas HQs mensais tem as piadas, as lutas, o subtexto político social. Não achei um filme vazio. Quero ver de novo, mas no geral confesso que gostei bastante, tirando o fator novidade, talvez tenha gostado mais do que o primeiro. E o Whedon diz que deve lançar a versão de três horas e pouco no Blu-ray, veremos.

    p.s.: Otávio, você leu que a cena da caverna foi imposição forte do estúdio?

  5. Robson Costa 11 de maio de 2015 às 6:57 PM -

    Ah, e só para completar: no fator coreografia de lutas e a equipe trabalhando junta nas cenas de ação achei as coreografias sensacionais, incluindo o plano sequência inicial.

  6. Otávio Almeida 14 de maio de 2015 às 11:11 AM -

    ROBSON: Boas observações. Quanto à discussão homem/tecnologia ou sobre o tempo da humanidade ter passado, acho que “Era de Ultron” perde feio e fica um tanto superficial quando comparamos com filmes como “Matrix”, “Blade Runner”, “O Exterminador do Futuro” e até “A.I. – Inteligência Artificial”. É por aí que vai minha opinião, entendeu? Sobre a cena da caverna, só pode ter sido imposição. É ridícula. Do jeito que está no filme, ficou perdida, sem conexão alguma. Abs!

  7. Paulo Ricardo 17 de maio de 2015 às 3:09 PM -

    Não assisti ainda.Pretendo conferir “Os Vingadores:Era de Ultron” semana que vem.

  8. Robson Costa 17 de maio de 2015 às 5:58 PM -

    Otávio, não estou comparado o nível de profundidade da discussão com filmes como Matrix ou, principalmente, Blade Runner (Exterminador do Futuro talvez sim na minha visão). Mas estou querendo dizer que o filme não é um filme “vazio” e há essa discussão sim, em toda a história. Mesmo que mais superficial.
    Sob a cena da caverna li em uma reportagem que o estúdio falou que ou tinha a cena da caverna ou eles tiravam a cena da casa da família do Gavião Arqueiro que o Joss Whedon tanto queria.

  9. Otávio Almeida 19 de maio de 2015 às 2:26 PM -

    ROBSON: Li isso. Ou seja, o filme é uma bagunça :)
    E o Joss Whedon fez bem em sair. Se saíram com Whedon, melhor para o diretor também. Abs!

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