“Jurassic World” | Crítica

Otavio Almeida 25 de junho de 2015 0
“Jurassic World” | Crítica

NOSTALGIA É TUDO DE BOM, MAS SEGUIR EM FRENTE É MUITO MELHOR!

Após duas continuações tão inferiores quanto decepcionantes, a franquia Jurassic Park muda de nome – agora é Jurassic World (2015) –, apresenta até mesmo um novo dinossauro para substituir o T-Rex e os velociraptors como os monstros mais temidos da saga (depois do Homem), e traz protagonistas inéditos, um deles estrelado por um dos maiores astros em ascensão, Chris Pratt.

Mas vamos ao que interessa: embora Jurassic World não tenha o impacto do original – e ser inferior era a menor das preocupações -, pelo menos não decepciona na diversão, sendo muito mais eficiente que O Mundo Perdido e Jurassic Park III neste ponto. Mas também não leva a série adiante.

O que é positivo: diferente das outras continuações, o novo filme não é só um “Deus nos acuda”, com um bando de pessoas correndo pra lá e pra cá dos dinossauros. Jurassic World é, digamos assim, sobre alguma coisa. Há uma discussão interessante a respeito da relação entre homem e tecnologia, e o quanto estamos desinteressados pelo mundo real e focados no digital. É sobre a nossa sede pelo poder ou novidades. Tudo vem se tornando obsoleto muito rápido, inclusive na indústria do entretenimento. Hollywood investe no 3D e, provavelmente, já pensa adiante numa forma de seduzir o público. Música, games e até parques buscam novas atrações para fazer dinheiro. E é aqui que vai o alerta de Jurassic World. Em tom de autocrítica, o terror é tocado pelo Indominus Rex, dinossauro híbrido de duas espécies – dou um brinde se você descobrir quem são os bichinhos. E não reclame do novo monstrengo, afinal tecnologias de manipulação do genoma já existem. Ok, ninguém conseguiu encontrar DNA de dinossauro, mas você comprou essa ideia desde 1993.

Agora o problema: a introdução funciona somente pela nostalgia, porque a base está no filme original, que é apenas atualizado. Tamanho e quantidade; tudo vem em maior número, mas a estrutura do roteiro é a mesma, tirando os diálogos toscos no novo filme. Mas se a ordem era repetir a dose, será que era realmente essencial ter quatro roteiristas para isso? O problema mais grave: a introdução – leia “antes de a correria começar” – é desnecessariamente longa. Sei que o original também tem um ato inicial de explicações, mas estamos falando do primeiro filme, que apresentou ao mundo algo que ainda não tínhamos visto. Mas quando o Indominus Rex fica à solta, a diversão é competente.

Quanto ao elenco, os personagens mais carismáticos da série sempre foram os dinossauros, incluindo o original nessa. Chris Pratt está sisudo demais, parecendo pouco vulnerável e esse perfil não se encaixa mais no cinema atual, enquanto Bryce Dallas Howard está se especializando em personagens chatas pra cacete e, desta vez, corre de salto alto (e notar isso é um problema, porque saímos do estado de imersão). Mas tudo bem, porque estamos aqui para ver os dinossauros. Ainda que essa ideia de domar velociraptors pareça um pouco esdrúxula, lá pelas tantas você entra na brincadeira. Mais pelo tipo de filme que você entra para gostar que pelo trabalho do ex-diretor de filmes independentes Colin Trevorrow, novo afilhado de Steven Spielberg, que assume aqui a função de produtor executivo. Óbvio que Trevorrow não é Spielberg, mas o que ele faz em Jurassic World qualquer diretor fã do diretor e do filme original faria. Tensão e aventura continuam bem equilibradas, mas Trevorrow não tem a mesma paixão pelo terror que Spielberg. Ou seja, o novo filme dá para o gasto e vale pela nostalgia – e isso tem de montão.

Sendo realista, a criatividade do livro de Michael Crichton traduzida para a linguagem cinematográfica pela mente ainda mais criativa de Steven Spielberg foi suficiente para apenas um filme, o de 1993. Além de a Industrial Light & Magic revolucionar os efeitos visuais ou, melhor, representar o marco zero do digital neste quesito, após testes em filmes como O Exterminador do Futuro 2, o primeiro Jurassic Park trouxe de volta os dinossauros ao cinema no calor do estágio inicial da discussão sobre clonagem fora da ficção científica. Tudo era novidade.

Qualquer coisa, culpem O Mundo Perdido e Jurassic Park III, porque Jurassic World não tinha mesmo como ser diferente; precisava ser nostálgico. Já uma continuação do novo filme, pode e deve ser mais ousada. E não vejo outra saída além da mudança de tom, algo como o caminho inverso que James Cameron tomou ao fazer de Aliens: O Resgate um filme de ação, enquanto Alien: O Oitavo Passageiro, de Ridley Scott, era um filme de terror.

Mas você já deve ter aprendido que Hollywood não gosta de assumir riscos. O Indominus Rex representa o mais do mesmo, só que coberto por um verniz de novidade. A vida imita a arte? Como acontece no parque do filme, o ser humano nunca aprende. Nem mesmo nós que estamos do lado de cá da tela, pois tenho certeza que Hollywood percebeu você vibrando no empolgante ato final de Jurassic World.

VEJA O TRAILER:

Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World, 2015)
Direção: Colin Trevorrow
Roteiro: Rick Jaffa, Amanda Silver, Colin Trevorrow e Derek Connolly
Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Nick Robinson, Vincent D’Onofrio, Ty Simpkins e Irrfan Khan
Duração: 2h04

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