Missão: Impossível – Nação Secreta

Otavio Almeida 17 de agosto de 2015 4
Missão: Impossível – Nação Secreta

Com “Nação Secreta”, “Missão: Impossível” prova que uma franquia pode e deve se superar a cada filme

Missão: Impossível III, de JJ Abrams, definiu um padrão para uma franquia que mudava de estilo a cada filme, mas a confirmação da tendência veio em Protocolo Fantasma, de Brad Bird, que tem cara de início de uma nova série dentro da série. Missão: Impossível – Nação Secreta (Mission: Impossible – Rogue Nation, 2015) dá sequência ao que vimos no filme anterior, deixando tudo muito bem amarrado. Acabou o exercício de estilo em episódios isolados, como parecem os dois primeiros da série comandados por Brian De Palma e John Woo respectivamente. E eu diria que Nação Secreta mantém o nível de qualidade de Protocolo Fantasma, mas o diretor e roteirista Christopher McQuarrie surpreende ao dar um passo à frente graças a três elementos.

Antes, quero bater de novo na tecla sobre a entrada de JJ Abrams – como diretor em Missão: Impossível III e produtor nas duas produções seguintes – ter colocado tom, ritmo, visual; tudo em seus devidos lugares. Entretanto, isso não quer dizer que um filme não possa ser melhor que o outro sem repetir a estrutura de roteiro do seu antecessor, e felizmente a série evolui a cada episódio. E por que Nação Secreta dá um passo à frente? Vamos aos três pontos:

1)     O vilão é muito bom e Protocolo Fantasma não tinha necessariamente uma personificação do mal em cena. Em Nação Secreta, Sean Harris faz esse trabalho muito bem no papel de Solomon Lane, o líder do Sindicato, a tal “Nação Secreta” do título, que o agente Ethan Hunt (Tom Cruise) e seus colegas William Brandt (Jeremy Renner), Benji (Simon Pegg) e Luther (Ving Rhames) tentam desmantelar. Vamos admitir que, tirando Philip Seymour Hoffman perguntando sobre o Pé de Coelho, em M:I III, a série nunca teve vilões decentes. Mas Sean Harris é, com todo o respeito, asqueroso. Fala baixinho com sua esquisita e ameaçadora voz rouca e (o melhor de tudo) nunca antecipa qualquer chance de adivinhação da plateia antes de sua jogada final.

2)     Com exceção do primeiro longa, de 1996, Missão: Impossível nunca caprichou no suspense. Está certo que não se brinca de Brian De Palma, mas a série original de TV não tinha reviravoltas apenas com base em correrias, tiros e explosões. É verdade que De Palma não esteve tão à vontade na direção, e a ação que surge repentinamente no final não combina em nada com o restante do filme. Em Nação Secreta, McQuarrie trouxe o suspense de volta; elegante e paciente na medida certa para fisgar a plateia e conduzi-la por uma tensão que beira o insuportável em alguns momentos. Um exemplo está na sequência da ópera, que homenageia Alfred Hitchcock e seu O Homem que Sabia Demais, mas também é inevitável não lembrar do clímax de O Poderoso Chefão (o massacre paralelo ao batizado) e, claro, O Poderoso Chefão: Parte III (o massacre na ópera). E o que torna Nação Secreta superior é o equilíbrio da dose necessária de suspense e a ação mais inacreditável que você encontrará numa sala de cinema. Numa espécie de montanha-russa de sensações, uma alivia a adrenalina adquirida pela outra. E todas as sequências de suspense e ação são extraordinárias e imprevisíveis. Por incrível que pareça a mais “fraquinha” é a inicial – você viu nos trailers a cena com Ethan Hunt pendurado do lado de fora de um avião. É incrível, mas tem ação melhor neste filme.

3)     O ponto principal também é certamente o coração do filme. Na crítica de Protocolo Fantasma, eu disse que a equipe de Ethan Hunt estava formada e que não se mexe em time que está ganhando. Mas ousaram mudar a única peça que poderia ser mexida: saiu Paula Patton, entrou a atriz sueca Rebecca Ferguson, que merece decolar em Hollywood após viver a misteriosa Ilsa Faust. Dona de beleza, charme e postura dos tempos de ouro do cinema, ela dá um show e rouba todas as cenas. Sua presença hipnotiza homens e mulheres na plateia. E olha que ela geralmente se apresenta propositalmente com uma expressão minimalista, mas que sempre se faz entender em cada cena; seja para demonstrar suas verdadeiras intenções ou para enganar nossa percepção, porque é parte importante do jogo ser enganado. Mas não adianta resistir, porque você vai acreditar em Rebecca. E pode ser exagero, mas quando a história nos leva a Casablanca, pensei em algo estranho: não sei se foi intenção do diretor evocar Ingrid Bergman através de Rebecca Ferguson ao longo do filme, porém tive essa impressão. Mas garanto que não é exagero dizer que, desta vez, Tom Cruise não é o grande astro do filme.

Destaco também os novos arranjos de Joe Kraemer para a clássica trilha de Lalo Schifrin, o melhor trabalho de adaptação desde o primeiro filme, quando Larry Mullen e Adam Clayton, do U2, fizeram miséria com o tema. Vale elogiar ainda a surpreendente direção segura de Christopher McQuarrie, que jamais havia feito algo digno de nota neste ofício. Exceto como roteirista, afinal ganhou um merecido Oscar por Os Suspeitos, de Bryan Singer. McQuarrie, inclusive, foi muito esperto ao dar mais tempo em cena para o divertidíssimo Simon Pegg, porque percebeu que o humor age como outra peça essencial na construção do quebra-cabeça que faz Missão: Impossível dar tão certo.

O astro e produtor Tom Cruise disse que já tem uma ideia para o próximo Missão: Impossível. Após cinco filmes – principalmente os dois últimos –, não há o mínimo sinal de cansaço. Ao contrário de diversas ex-franquias em atividade, do jeito que está no momento, Missão: Impossível ainda pode render bastante. Não duvide: você vai querer mais quando as luzes do cinema acenderem.

VEJA O TRAILER:

Missão: Impossível – Nação Secreta (Mission: Impossible – Rogue Nation, 2015)
Direção e roteiro: Christopher McQuarrie
Elenco: Tom Cruise, Simon Pegg, Rebecca Ferguson, Jeremy Renner, Ving Rhames, Sean Harris, Alec Baldwin, Simon McBurney e Tom Hollander
Duração: 2h11

4 Comentários »

  1. Ariel Lucca 20 de agosto de 2015 às 3:18 PM -

    Ainda não assisti os outros filmes da franquia, mas “Nação Secreta” me surpreendeu. E apesar de não poder comparar com os outros filmes, concordo com tudo o que disse, Otávio. E a Rebecca Ferguson está maravilhosa no filme! Vale o ingresso. Abs!

  2. Otávio Almeida 21 de agosto de 2015 às 7:28 PM -

    Valeu, Ariel. Veja os outros filmes. Você vai gostar. Abs!

  3. Vinícius 23 de agosto de 2015 às 4:45 PM -

    Achei bem dinâmico e até surpreendente, Otavio. McQuarrie entendeu direito e fez algo meio velha guarda, meio anos sessenta. Mas como cinema, ainda prefiro o do De Palma, melhor e muito mais bem filmado. Mas é bem bacana esse também.

  4. Otávio Almeida 24 de agosto de 2015 às 12:42 PM -

    Gosto do filme do Brian De Palma, Vinicius, mas acho que aquela ação com o helicóptero dentro do túnel não combina com o estilo dele.

    E é isso mesmo. McQuarrie se ancorou à velha guarda. O resultado é até elegante em diversos momentos.
    Abs!

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