Por mais mulheres em Hollywood

Otavio Almeida 11 de setembro de 2015 2
Por mais mulheres em Hollywood

O ano foi bom, mas a estrada é longa

2015 pode terminar como um ano importante para as atrizes de Hollywood. Vamos relembrar? Muito mais gratificante que ver Jennifer Lawrence encerrando sua participação como nada mais, nada menos que a protagonista de uma franquia popular, tivemos o prazer de testemunhar Charlize Theron brilhando em Mad Max: Estrada da Fúria. Ainda veremos Carey Mulligan e Meryl Streep lutando pelos direitos das mulheres em Suffragette, e tanto Cate Blanchett + Rooney Mara quanto Julianne Moore + Ellen Page apaixonadas e lutando contra o preconceito em Carol Freeheld respectivamente. Sem esquecer Sandra Bullock à frente de Our Brand is Crisis num papel que costuma ser tradicionalmente escrito para um ator.

Mas vamos com calma, porque o ano não será marcado pela solução; algo que ainda está bem longe de acontecer. Entretanto, talvez possa ser lembrado como um ponto de virada. Pelo menos neste século, nunca uma temporada do cinema americano abriu as portas para tantos papéis dignos de atrizes tão talentosas. A indústria também nunca esteve tão aberta a ouvir e a tentar compreender a misoginia. Nunca esteve tão forte o movimento em nome de uma situação melhor ou tão boa quanto à dos homens dentro e fora das telas entre profissionais que fazem cinema.

Tudo isso só valerá a pena se 2016 superar 2015 e assim por diante. Foi uma fagulha, mas precisamos de um incêndio de proporções épicas. Precisamos de mais mulheres, por favor. Não apenas como princesas, esposas, mães ou namoradinhas da América. Mas também como a Furiosa de Charlize Theron. Ou a Ripley de Sigourney Weaver, em Aliens: O Resgate, a Beatrix Kiddo de Uma Thurman, em Kill Bill, e a Dra. Ryan Stone de Sandra Bullock, em Gravidade. Ou interpretando personagens como os de Tom Cruise, em Questão de Honra, Al Pacino, em Perfume de Mulher, Richard Gere, em Uma Linda Mulher, Dustin Hoffman, em Rain Man, Tom Hanks, em Náufrago ou Filadélfia, Eddie Murphy, em Um Tira da Pesada, Jim Carrey, em O Show de Truman, Sean Penn, Tim Robbins e Kevin Bacon, em Sobre Meninos e Lobos. E o foco deve ser esse: papéis que passem longe da visão masculina sobre a mulher. É verdade que sempre haverá pelo caminho um Cinquenta Tons de Cinza para nos acorrentar à Idade da Pedra.

Mas é preciso que haja espaço para um número maior de atrizes com a oportunidade de ler bons roteiros, tendo assim a chance de analisar um papel que costuma cair nas mãos de um homem, ou de Meryl Streep. Nada contra, afinal ela merece. Só que temos tantas outras mulheres talentosas para brilhar em personagens imaginadas somente para Meryl. É fácil perder a conta.

Não pensem apenas em Cate Blanchett, Kate Winslet, Julianne Moore, Jennifer Lawrence, Anne Hathaway, Amy Adams, Rooney Mara, Rosamund Pike, Gwyneth Paltrow, Cameron Diaz, Emily Blunt, Julia Roberts, Emma Stone, Chloe Grace Moretz, Naomi Watts, Natalie Portman, Keira Knightley, Reese Witherspoon, Scarlett Johansson, Jessica Chastain, Hilary Swank, Kristen Stewart, Shailene Woodley, Bryce Dallas Howard, Claire Danes ou Nicole Kidman. Abram espaço também para Kerry Washington, Angela Bassett, Vivica A. Fox, Viola Davis, Gabourey Sidibe, Carmen Ejogo, Octavia Spencer, Lupita Nyong’o, Jennifer Hudson, Halle Berry, Rosario Dawson, Zoe Saldana, Taraji P. Henson.

Considerem Helen Mirren, Maggie Smith, Julie Christie, Sally Field, Glenn Close, Emma Thompson, Rosemary Harris, Judi Dench, Diane Lane, Jodie Foster (cadê?). Por que não Regina Casé? E mais Gong Li, Zhang Ziyi, Salma Hayek, Juliette Binoche, Penélope Cruz, Lucy Liu, Marion Cotillard, America Ferrera.

Mais trabalho para diretores como Paul Feig, um homem que privilegia atrizes e tem coragem suficiente para encarar estúdios e confirmar um quarteto feminino como as novas Caça-Fantasmas. Mais ofertas para diretorAs, como Ava DuVernay, Sofia Coppola, Laura Poitras, Sarah Polley, Sarah Gavron, Patty Jenkins, Jane Campion, Lynne Ramsay e não apenas Kathryn Bigelow, Angelina Jolie e Nancy Meyers. E tantas outras atrizes, roteiristas, diretoras, produtoras (onde estão as compositoras?) que não conhecemos e lutam todos os dias por uma chance de mostrar à indústria do que são capazes.

Só assim 2015 ficará marcado, embora ainda tenha muito chão pela frente.

2 Comentários »

  1. Paulo Ricardo 11 de setembro de 2015 às 11:36 AM -

    Texto perfeito e discussão importantíssima.Otávio,eu me lembrei de uma entrevista que eu li na “Preview” na época do lançamento de “O Brilho de Uma Paixão” na qual a diretora neozelandesa Jane Campion afirma que nas faculdades de cinema ela vê uma divisão entre homens e mulheres e quando saem da faculdade os homens conseguem mais espaço.Quantas grandes diretoras temos sem espaço no mercado.No Brasil mesmo temos Anna Muylaert,Lina Chamie,Laís Bodansky,Carolina Jabor(que com o documentário “O Mistério do Samba” e o filme “Boa Sorte” provou ter talento)enfim…a desigualdade é grande ainda.Veja a diretora americana Tamara Jenkins do excelente “A Familia Savage” que não roda um filme a 8 anos.Será que é porque ela não quer”?”

  2. Otávio Almeida 11 de setembro de 2015 às 3:29 PM -

    É complicado, PAULO. Acho que devemos voltar a essa discussão todos os dias. Não somente dentro do assunto “cinema”. Abs!

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