Crítica | Creed: Nascido Para Lutar

Otavio Almeida 19 de janeiro de 2016 2
Crítica | Creed: Nascido Para Lutar

Sylvester Stallone, Michael B. Jordan e Ryan Coogler reafirmam para quem esqueceu: homem de verdade chora no cinema

Após seis filmes (isso mesmo: SEIS!), a série Rocky não tinha mais nenhum canto do ringue para beijar a lona. Mas um dos diretores mais promissores dos últimos anos veio com uma ideia interessante nessa era de reboots que se confundem com continuações. Esse cineasta é Ryan Coogler, de Fruitvale Station (Não viu? Então corra!), que precisava da bênção de Sylvester Stallone (e a conseguiu) para contar a história do filho de Apollo Creed (Carl Weathers), o falecido ex-rival e, depois, amigo de Rocky Balboa (Stallone).

Apesar de uma direção estilosa e um protagonista interpretado com uma raiva prestes a explodir por Michael B. Jordan, que também esteve à frente de Fruitvale Station, Creed: Nascido Para Lutar (Creed, 2015) seria facilmente esquecido ou até mesmo não visto por muita gente se Stallone não retornasse ao papel que lhe deu tudo dentro e fora das telas. Mas, desta vez, Rocky Balboa é o treinador, assumindo o papel de Burgess Meredith no original. Quem conhece a série sabe muito bem que ele tentou treinar um jovem substituto no quinto longa, mas não deu certo. A tentativa e o próprio filme, assim como (vamos ser honestos) qualquer outro episódio, exceto o original de 1976. Mas a relação entre mestre e aprendiz agora é bem trabalhada – ganhando até mesmo ares de uma espécie de mitologia urbana – em duas vertentes: sendo essencial tanto para fechar bem uma das séries mais populares do cinema com um filme que fala a mesma língua do primeiro longa quanto iniciar uma nova franquia, embora não tenha a mínima obrigação.

Coogler não é saudosista no sentido ruim da palavra. Faz referência e reverência a cenas cruciais do Rocky escrito por Stallone e dirigido por John G. Avildsen, inclusive emulando com precisão a música extraordinária de Bill Conti em momentos decisivos para os personagens. No final, por exemplo, quando subir o volume da introdução de Gonna Fly Now, a única coisa impossível é não tremer na cadeira. Está rindo? Stallone, principalmente, com a ajuda de um competente diretor de atores, vai fazer você chorar. Com uma atuação surpreendente, ele vai lembrar a quem esqueceu que homem de verdade chora em filme. Assim como o jovem Adonis Creed (Michael B. Jordan), Rocky terá sua própria luta para aguentar de pé até o último round. O importante aqui, em paralelo ao filme de 76, não é vencer. Nem Creed nem Balboa. Mas entender que jamais estarão sozinhos daqui pra frente, completando um ao outro como uma verdadeira família (acrescente nessa mistura a ótima atriz Tessa Thompson).

Alguns acreditam que todo grande filme precisa ter, pelo menos, uma cena inesquecível. Creed não é indiscutivelmente um grande filme. É muito bom, mas quando falamos aqui em grande filme não precisamos subir ao patamar de Touro Indomável. Podemos citar Rocky, certo? Entre outras razões, podemos dizer que o clássico é chamado de clássico porque chegou primeiro, logo foi original. Ryan Coogler não quer competir com a estátua erguida para o personagem de Stallone. Quer honrar o mito e construir seu legado. E, pelo virtuosismo técnico, ele entrega sim uma cena inesquecível. Você viu dezenas de lutas de boxe no cinema. Scorsese foi o mais abusado ao propor algo que o mundo nunca tinha visto antes num filme assim. Mas Coogler pode ser o primeiro desde o diretor de Touro Indomável a buscar um olhar diferenciado para capturar toda a dor, o horror e a beleza do ringue. Não com uma montagem insana, como a do clássico de Scorsese, mas ao capturar a primeira luta de Creed treinado por Rocky em um só take. Será que foi o mesmo truque utilizado por Alejandro González Iñárritu através das lentes de Emmanuel Lubezki em Birdman? Porque os boxeadores trocam socos, andam para um lado; depois para o outro. E o mais impressionante: sangram e seus rostos ficam inchados. Como Ryan Coogler fez isso? Não quero saber. Por favor, não me conte. Prefiro ficar preso à magia que deve ficar para sempre como um trabalho fenomenal da diretora de fotografia Maryse Alberti, porque é nada mais, nada menos que a luta do ponto de vista de Rocky. Tem uma outra sequência perto do fim que também é feita sem cortes e a memória cinéfila remete à caminhada de Robert De Niro e Joe Pesci rumo ao ringue em Touro Indomável. Mas é a cena comentada acima que vale sua atenção.

De resto impera a nostalgia, inclusive na insólita luta que fecha o filme, com exageros que a deixam maior que a vida, remetendo a John Ford na briga que o lendário diretor filmou em Depois do Vendaval. Mas é assim também na série Rocky, que, dentro do ringue, estava tão preocupada com realidade quanto George Lucas nas batalhas sonoras entre naves no espaço em Star Wars. O lado bom é que Coogler apenas parte da nostalgia, mas não repete o roteiro original de Stallone. Segue em frente ao mesmo tempo em que contempla, na última cena, uma vida inteira passando diante dos olhos.

VEJA O TRAILER:

Creed: Nascido Para Lutar (Creed, 2015)
Direção: Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler e Aaron Convington
Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Phylicia Rashad, Graham McTavish, Ritchie Coster, Tony Bellew e Andre Ward
Duração: 133 minutos

2 Comentários »

  1. Paulo Ricardo 19 de janeiro de 2016 às 6:00 PM -

    Muito bom:sua critica e o filme.E homem que é home chora muito!!!

  2. Otávio Almeida 20 de janeiro de 2016 às 2:45 PM -

    Muito obrigado, Paulo! Abs

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