Crítica | Spotlight

Otavio Almeida 11 de janeiro de 2016 2
Crítica | Spotlight

O verdadeiro jornalismo está morto, mas não tem lugar no Céu

Um roteiro sobre pedofilia cometida por padres da Igreja Católica provavelmente viraria um filme focado nas vítimas ou nos sobreviventes. Mas Spotlight: Segredos Revelados (Spotlight, 2015) usa o polêmico tema para falar nas entrelinhas sobre o fim da era do jornalismo investigativo. Isso faz com que, não a polêmica, mas o dramalhão fique em segundo plano para dar lugar à urgência de um tom mais tenso, que geralmente era empregado nos filmes policiais dos anos 70. Com bons tiras substituídos por outros profissionais em extinção, movidos por uma coceira que jamais para até que a verdade seja encontrada e divulgada.

Baseado em fatos reais, o filme dirigido pelo ator Tom McCarthy, que também divide o roteiro com Josh Singer, bebe na fonte das melhores produções sobre jornalismo, sendo a principal delas o clássico Todos os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula, em que Dustin Hoffman e Robert Redford revivem a investigação dos jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, do Washington Post, que levou à renúncia do Presidente Richard Nixon. O tom de Spotlight é esse. É o herdeiro direto do filme de Pakula, mas a diferença é que Todos os Homens do Presidente foi feito no auge do jornalismo investigativo e cerca de apenas quatro ou cinco anos após o Caso Watergate. Spotlight foi lançado numa época em que a profissão privilegia o factual e não grandes reportagens, mais de uma década depois do escândalo retratado no longa.

Aqui, os olhos de Tom McCarthy estão direcionados para as ações do Boston Globe num mundo prestes a ser dominado pela internet. Mais precisamente em uma divisão (a Spotlight) coordenada por quatro jornalistas – Walter Robinson (Michael Keaton), Mike Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian d’Arcy James), observados de perto pelo editor Ben Bradlee Jr. (John Slattery), que curiosamente é filho de Ben Bradlee, editor do Washington Post durante o Watergate. Eles agem como a S.W.A.T. do jornal, sempre responsáveis pelas investigações mais parrudas. Com a entrada de um novo editor-chefe, Marty Baron (Liev Schreiber), eles são “convidados a aceitar” um caso que o próprio jornal ignorou anos atrás – partir para cima da Arquidiocese de Boston, que teria jogado para debaixo do tapete crimes de abuso sexual cometidos por padres.

Agindo como se não houvesse amanhã, cientes ou não – pouco importa – de que essa vertente da profissão estava com os dias contados, o quarteto vai atrás de suas fontes e o ritmo de thriller predomina até o fim. Talvez a gente esteja acostumado com uma direção em que o cineasta “participa” mais da história, tentando em alguns momentos criar uma tensão mais forte. Acontece que nem todo mundo tem a energia de um Martin Scorsese ou mesmo Michael Mann, como em outro filme estupendo sobre jornalismo, O Informante. Nem Alan J. Pakula é assim. Mas fique tranquilo, porque o trabalho de McCarthy é excelente. Com uma direção da Escola Clint Eastwood, que apenas observa e conduz a história com segurança ao apoiar a excelência de três fatores – roteiro, elenco e montagem –, Tom McCarthy parece um cineasta com o espírito da Hollywood dos anos 70 exercendo seu ofício em plena década de 2010.

O elenco está impecável. Difícil escolher um nome que se destaque mais. É um trabalho em conjunto, seguindo o que os personagens fizeram na vida real. De repente, podemos preferir Mark Ruffalo, o jornalista obstinado, de postura torta, talvez corcunda, sem tempo para vida social. Mas, então, lembramos que McCarthy praticamente não mostra os repórteres da Spotlight se relacionando com parentes ou amigos – com exceção da personagem de Rachel McAdams, que mesmo assim fica ao redor deles reagindo ao trabalho.

Falamos muito em Todos os Homens do Presidente e sempre citamos outros filmes sobre jornalismo quando Hollywood decide voltar ao tema. Mas Spotlight não abraça a nostalgia. É um filme que se sustenta sozinho pela força de seu roteiro e o resgate de significados perdidos no tempo, relembrando que existiram profissionais de verdade, que agiam por motivações além do dinheiro e os likes a qualquer custo. Spotlight exalta o espírito de lutador, a necessidade de fazer aquilo que é certo. Dói lembrar que o jornalismo está morto, mas é reconfortante saber que não comprou um lugar cativo no Céu. O filme não quer revelar que existem padres pedófilos – isso pode ser redundante –, mas quer que você entenda que não foram casos isolados. A Igreja protegeu e praticamente financiou a safadeza toda. Mais que isso: as pessoas precisavam saber. Assim como todos precisam ver este filme para compreender que a fé que traz a paz é aquela que busca o tempo todo o caminho da verdade.

VEJA O TRAILER:

Spotlight: Segredos Revelados (Spotlight, 2015)
Direção: Tom McCarthy
Roteiro: Josh Singer e Tom McCarthy
Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, John Slattery, Liev Schreiber, Stanley Tucci, Brian d’Arcy James, Jamey Sheridan, Billy Crudup e Brian Chamberlain
Duração: 128 minutos

2 Comentários »

  1. Paulo Ricardo 12 de janeiro de 2016 às 11:07 AM -

    Tem todos os ingredientes de um grande filme:um roteiro bem escrito e interpretado por grandes atores,uma direção que valoriza as atuações e uma história relevante que denuncia um crime acobertado pela igreja católica.Do Tom McCarthy eu gostei de “O Visitante”(um filme humano que retratava a convivência de um americano com um imigrante que invadiu seu apartamento) e “Ganhar ou Ganhar-A Vida é um Jogo” com o sempre ótimo Paul Giamatti e a bela canção “Think You Can Wait”.Não dúvido que “Spotlight” se torne um dos favoritos ao Oscar de Melhor Filme.

  2. Otávio Almeida 12 de janeiro de 2016 às 4:31 PM -

    Valeu, flamenguista! Na verdade, esse foi o primeiro filme que vi do Tom McCarthy como diretor. Vou correr atrás do prejuízo. Abs

Deixe seu comentário »