Crítica | X-Men: Apocalipse

Otavio Almeida 20 de maio de 2016 0
Crítica | X-Men: Apocalipse

Bryan Singer exagera na dose e abandona a humanidade de sua série para se adaptar a um vilão poderoso, mas feio, estúpido e patético

Não foi Christopher Nolan, com a trilogia do Cavaleiro das Trevas, que levou a sério um filme de super-herói pela primeira vez. Foi Bryan Singer no X-Men original de 2000, abrindo as portas para um novo universo, com os dois pés na realidade, não somente para esta série, mas também para heróis da concorrência. Só que, desta vez, o cineasta que praticamente definiu um gênero, perdeu o rumo ao abraçar o irreal com todas as forças em X-Men: Apocalipse (X-Men: Apocalypse, 2016), seu trabalho mais fraco à frente da série e o pior dos filmes estrelados pela nova geração, como fala Jean Grey numa cena em que a brincadeirinha com O Retorno de Jedi saiu pela culatra: “Well, at least we can all agree, the third one is always the worst”.

Estaria tudo certo se Bryan Singer partisse para a fantasia assumida seguindo o que ele mesmo ensinou: os mutantes são tão ou mais humanos que nós, homo sapiens. Seus poderes extraordinários sempre ficaram em segundo plano. Mas não neste filme, que exige dos X-Men um esforço para a utilização máxima de suas habilidades para deter um vilão poderosíssimo, o primeiro mutante a andar na Terra, vindo da era de Imhotep e Anck Su Namun, colecionando os atributos de outros mutantes e se vendendo como uma divindade, mas é apenas um fanfarrão que quer mandar tudo pelos ares. E ele acorda na década de 80, dez anos após os eventos de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, graças a uma solução vergonhosa do roteirista Simon Kinberg, que Singer jamais deveria ter aprovado.

Vamos concentrar fogo no vilão ignorante, o Apocalipse do título. Se você não conseguiu enxergar (e não é culpa sua), pode acreditar que Oscar Isaac (Inside Llewyn Davis, Ex Machina, Star Wars: O Despertar da Força) é o ator por trás de tanta maquiagem e uma “cospobre” que daria orgulho aos profissionais que trabalharam em Power Rangers, Jaspion e Spectreman, heroicos artistas que fizeram milagres com um orçamento muito, muito inferior ao filme de Bryan Singer. E o vilão patético com voz de megafone e mais imobilizado, sem expressões ou personalidade que Darth Vader e RoboCop, obviamente obriga a trama e os X-Men a reagirem à sua presença. Então, meu amigo, é hora de dar porrada e descarregar os poderes em cima da criatura estúpida. Pior que a série sempre se concentrou em vilões humanos como contraponto aos mutantes. E agora… isso.

Desta vez, infelizmente, qualquer traço de humanidade valorizado por Singer nos filmes anteriores foi deixado de lado, apesar do início intrigante. Especialmente a boa parte dramática envolvendo Magneto (Michael Fassbender). Mas é um filme cheio de repetecos, como os dilemas de Jean Grey (agora a talentosa Sophie Turner, de Game of Thrones) e Mercúrio (o excelente Evan Peters) fazendo exatamente o mesmo que em Dias de um Futuro Esquecido, mas numa versão estendida em cenário diferente. E, claro, você verá Mística (Jennifer Lawrence), pela milésima vez, tentando nos enganar ao se passar por outra pessoa. Não esqueça do showzinho básico do Magneto voador arremessando metais para todos os lados.

Mas tirando Oscar Isaac, embora seja injusto colocar qualquer mico em sua conta, o elenco garante a diversão com sua competência indiscutível. Destaque, de novo, para James McAvoy (Charles Xavier), e os já citados Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Evan Peters e Sophie Turner. Vale ainda apontar o jovem Tye Sheridan, que se sai muito melhor que o ex-Ciclope, o insosso James Marsden. Singer só esqueceu de dar um pouco de voz aos “seguranças” do vilão, os quatro modernos cavaleiros do apocalipse. Bom, três, porque Magneto é o único que não entra mudo e sai calado.

Também não espere discussões profundas sobre a origem de Apocalipse e consequentes interpretações bíblicas, embora houvesse material de sobra para agitar um debate interessante sobre o assunto, mas talvez tenha faltado coragem para jogar lenha na fogueira. Fora isso, não há muito o que dizer nessa história, que está lá para servir de apoio para o clímax apoteótico, dominado por uma avalanche de efeitos visuais que fazem o filme de 2000 parecer uma produção rodada no quintal da casa de Bryan Singer, mas com um roteiro bem melhor e personagens ricos em humanidade. Aqui, o exagero toma conta da tela e fica a impressão de que a solução final para a batalha poderia ter vindo a qualquer momento, mas isso transformaria o filme num curta.

Apesar de pouco inspirado, Bryan Singer tem crédito, ainda consegue prender a atenção e divertir na medida do possível – não tem como ficar indiferente, por exemplo a uma participação especial lá pela metade do filme. Os fãs piram. E temos uma competente reconstrução dos coloridos e exagerados anos 80; talvez seja uma desculpa para o filme ir pelo mesmo caminho. O fato é que X-Men: Apocalipse tem problemas, mas (desculpe-me por isso) não chega a ser o fim do mundo. Isso atende pelos nomes de X-Men: O Confronto Final e X-Men: Origens: Wolverine.

VEJA O TRAILER: 

X-Men: Apocalipse (X-Men: Apocalypse, 2016)
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Simon Kinberg
Elenco: Jennifer Lawrence, James McAvoy, Michael Fassbender, Oscar Isaac, Nicholas Hoult, Rose Byrne, Evan Peters, Sophie Turner, Tye Sheridan, Olivia Munn
Duração: 2h24

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