Crítica | Rogue One: Uma História Star Wars

Otavio Almeida 16 de dezembro de 2016 2
Crítica | Rogue One: Uma História Star Wars

“Star Wars” se rende a uma era em que o fan service é mais importante que o bom cinema

Por Otávio Almeida

Em 1977, Guerra nas Estrelas (ou Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança) avisa logo na abertura que a Rebelião conseguiu sua primeira vitória contra o Império, ao roubar os planos da Estrela da Morte, o que tornou possível o ataque da frota liderada por Luke Skywalker à poderosa arma capaz de destruir planetas inteiros. Clássico. Ou acha que foi spoiler? Porque o “como isso aconteceu” é o filme que você vai ver em Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story, 2016), o primeiro derivado oficial da saga da Lucasfilm.

Temos dois tipos de espectadores no cenário atual: o que entra gostando mesmo antes de assistir vs o que quer ver uma trama envolvente que justifique a realização de um filme que todo mundo sabe onde vai dar. Os dois perfis são fãs de Star Wars, mas o primeiro é tão devoto da religião que se recusa a enxergar eventuais falhas. Eu, por exemplo, amo a série, mas antes de qualquer coisa, amo o cinema.

E Rogue One tinha dois caminhos possíveis para encantar o cinéfilo: o filme de assalto e o filme de guerra. Tanto um quanto outro disfarçados de Star Wars, vertentes enriquecedoras para a série não ficar sempre na mesma. Aliás, a franquia não vive só de mitologia; George Lucas também pensou em ditaduras, Guerra do Vietnã, faroeste, entre outras influências, condensando todas elas em um universo que milagrosamente não ficou preso a referência alguma – pelo contrário, não paramos para pensar nelas devido ao total engajamento com o que acontece na tela –, pavimentando, assim, sua própria estrada e se sustentando sozinho com muita personalidade. Você sabe, Lucas é humano, comete erros como qualquer um de nós, mas é um visionário.

Agora, a pergunta: quem é Gareth Edwards? Um fanboy que privilegia o fan service, resultado de uma equação problemática desenvolvida por Hollywood, que deixou o cinema do século 21 nas mãos desses caras. Trata-se de uma geração que propõe a banalização não intencional da referência pela referência, que pretende ser o ponto alto de filmes sem um pingo de criatividade no roteiro. A cópia da cópia tira a essência da fonte de qualquer inspiração e diretores como Gareth Edwards acham que tudo é pose, imagem e citação, mas pouco se importam com a história que estão contando. É como se fossem crianças brincando em seu playground favorito e imitando seus ídolos. Para eles, basta enfiar o Darth Vader uma hora ou outra em cena que está tudo certo para considerar o ingresso pago. Enfim, os nerds educados pelo próprio Lucas cresceram, mas não estudaram com afinco o que foi dado em sala de aula; foram à escola apenas para tirar selfies e vivem assim até hoje. Salvo raríssimas exceções.

Mas Rogue One não enriquece a saga. Foi vendido como filme de guerra, dizem pelos cantos que é violento, tenso, adulto demais para Star Wars, mas não é nada disso. Como em Godzilla (pois é, o mesmo diretor daquilo), Gareth Edwards não sabe que filme quer fazer nem que tom deseja imprimir à narrativa. É como o Coringa de Heath Ledger diz em Batman: O Cavaleiro das Trevas, “Eu sou um cachorro perseguindo carros; não saberia o que fazer se pegasse um”. Começa fazendo pose de diferentão, tira a abertura clássica, busca ângulos incomuns com a ajuda do diretor de fotografia Greig Fraser, mas acaba no lugar comum, porque tudo que Edwards tenta, George Lucas tentou antes. Resumindo é Star Wars e ponto. Um pouco mais sério, admito, mas o problema não é esse. A grande contribuição de Gareth Edwards é fazer o mais frio, chato e arrastado Star Wars de todos os tempos. De novo: é o diretor de Godzilla. Ele até acelera o ritmo no último ato, mas nada que não tenha sido mostrado em outros filmes (e melhor). Diferentes são os episódios I, II e III, doa a quem doer. Lucas errou, mas errou tentando fazer o certo. Rogue One não vai além da premissa e você sabe como isso termina. A boa notícia é que não ousa alterar os fatos na timeline dos filmes, mas ao mesmo tempo, assisti-lo não é obrigatório. Talvez a falta de foco em relação ao tom esteja ligada às refilmagens que Gareth Edwards foi obrigado a realizar meses antes da estreia, após a entrada emergencial de Tony Gilroy para fazer ajustes no roteiro. E isso nunca é bom. De positivo, a ênfase cada vez mais forte numa Rebelião comandada por mulheres, que une gêneros, raças e nacionalidades, enquanto o Império é a ditadura composta por uma supremacia branca e masculina.

Acredito, porém, que muitos discordam sobre não ser um filme obrigatório, mas os fãs deveriam ser os primeiros a reclamar, por exemplo, dos atores, que estão péssimos, principalmente Forest Whitaker, que merece indicação ao Framboesa de Ouro, embora atuação não seja o forte da franquia. Mas, tudo bem, pior que isso é apresentar personagens vazios, desinteressantes, que não fedem nem cheiram em termos de preocupação sobre quem vai morrer ou não, exceto o dróide K-2SO (voz de Alan Tudyk), ironicamente o mais humano do elenco. E não há surpresas, somente fan service. Sim, são os pontos altos do filme – incluindo uma cena de cair o queixo com Darth Vader e a impressionante reconstrução digital do rosto de um personagem clássico, que também não deixa de ser questionável do ponto de vista ético –, mas não resta nada ao tirar isso. Assim como Batman vs Superman, que deu novo combustível a essa discussão que tomou conta do cinemão em 2016, mas convenhamos que Rogue One não é ruim como o filme de Zack Snyder.

Para finalizar o assunto “serviço de entrega gratuita para fãs”, vamos voltar a Star Wars: O Despertar da Força. J.J. Abrams retomou o estilo e o período que os fãs mais gostam e se equilibrou entre o novo e o velho. Mas fez uma sequência disfarçada de remake e merece todas as críticas. E elogios, porque é muito mais cineasta – e um ótimo contador de histórias –, abriu portas para um futuro da série que queremos fazer parte, arrancou ótimas atuações de uma nova geração de atores e aplicou o tal fan service sem jamais sair do contexto. Lembra do “Chewie, we’re home”?

A nova esperança é Rian Johnson, o diretor do Episódio VIII. Tomara que o cineasta segure a onda do fã que existe dentro dele, entenda que a fase de transição passou, e faça os novos filmes seguirem em frente, com respeito pelo que aconteceu, mas sem olhar para trás.

VEJA O TRAILER:

Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story, 2016)
Direção:
 Gareth Edwards
Roteiro: Chris Weitz e Tony Gilroy
Elenco: Felicity Jones, Diego Luna, Alan Tudyk, Donnie Yen, Wen Jiang, Ben Mendelsohn, Forest Whitaker, Riz Ahmed, Mads Mikkelsen,  Jimmy Smits, Alistair Petrie, Genevieve O’Reilly
Duração: 134 minutos

2 Comentários »

  1. Vinícius 19 de dezembro de 2016 às 5:26 PM -

    Eu até achei, relativamente, bem dirigido, Otávio – principalmente nas cenas de ação. Tem uma pança ali pelo meio e no fim tudo acaba em batalha, de forma que não sei se o filme se sustenta numa revisão. Provavelmente, não. De qualquer forma, hoje, daria três estrelas. Abs!

  2. Otávio Almeida 20 de dezembro de 2016 às 8:46 AM -

    Vi duas vezes, Vinicius, e não mudei de opinião. Tem coisas interessantes, claro, como Oppenheimer e a bomba atômica, a batalha final, embora não traga novidades, as participações do Vader (principalmente a segunda), e é “Star Wars”, né? Mas, cara, para ver sempre a mesma coisa – e, obviamente, a parte mais importante da história criada por George Lucas -, eu tenho a trilogia original em VHS, DVD e Blu-ray. Entende? Abs

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