Crítica | La La Land

Otavio Almeida 19 de janeiro de 2017 0
Crítica | La La Land

DAMIEN CHAZELLE SE CONSOLIDA COMO O CINEASTA AMERICANO MAIS TALENTOSO QUE SURGIU NESTE SÉCULO

Por Otávio Almeida

Eu poderia dizer que La La Land (2016) é o musical deste século que faz a melhor reconstituição do estilo e o espírito que marcaram o gênero na era de ouro de Hollywood. Felizmente, sem se deixar dominar pelo clima irresistível da nostalgia, porque se mantém firme com o objetivo de ser relevante para a nossa época. Sabe que o público de hoje não está acostumado com esse tipo de filme e, por isso, equilibra com perfeição o velho e o novo, principalmente, com o roteiro moderninho, que brinca com a estrutura da narrativa convencional, que ilude, maltrata e engana sua plateia ao misturar pontos de vista, sonhos e realidade. Mas não é exatamente o que entendemos como cinema? Eu diria tudo isso. Porém, acredito e aceito que você não acreditará em mim.

Eu poderia dizer que Damien Chazelle, de apenas 32 anos, com Whiplash e La La Land no currículo, é o diretor mais talentoso que surgiu no cinema americano neste século. Ou, pelo menos, nesta década. Mas você não vai acreditar em mim. Nem mesmo se eu usar como referência o que disse William Friedkin, ninguém menos que o lendário cineasta de O Exorcista e Operação França, sobre depositar em Chazelle a esperança de um futuro promissor para Hollywood. Também não acreditarás em mim se eu citar como prova, no mínimo, a primeira cena, que Chazelle filmou sem cortes, registrando um infernal engarrafamento em Los Angeles, com as pessoas saindo de seus carros, dançando e cantando sobre mais um dia de sol, só que numa manhã de inverno. Ou os monumentais últimos minutos, que estão virando marca registrada de Chazelle e o habilitam como um diretor preocupado em encontrar novas maneiras de se contar uma história, mas sem sair do trilho; confiante e no controle absoluto de seu ofício. Eu poderia dizer que somente essas duas sequências seriam capazes de entregar qualquer prêmio de direção a ele. Mas você não vai acreditar.

Assim como duvidarás se eu disser aqui que Emma Stone e Ryan Gosling – ou Mia e Sebastian – formam o casal romântico da década (ou, por enquanto, do século). Como na vida real, Chazelle não vem com aquela fantasia de amor à primeira vista. O envolvimento acontece aos poucos, dando a entender que, inicialmente, até mesmo a dupla de atores não tem a química que o filme exige. Só que, como em qualquer relacionamento, simplesmente acontece, e a paixão explode. O mesmo serve para os atores, afinal não demora muito para não restar a menor dúvida que nasceram para atuar um lado do outro. É a cuidadosa construção do romance, assim como o fato de Emma e Ryan não serem cantores ou dançarinos, que geram uma identificação instantânea e aproxima La La Land do coração do espectador. Mais ainda que a homenagem ao jazz e o cinema. Eu diria tudo isso, assim como defenderia que eles honram Fred Astaire e Ginger Rogers ou Gene Kelly e Debbie Reynolds. Mas, provavelmente, você não acreditará em mim.

Eu disse que La La Land homenageia o cinema e o jazz. Mas e se eu disser que nenhum outro filme dos anos 2000 homenageou o cinema, com uma linguagem simples, sem a necessidade de intérpretes, como La La Land ousou fazer? Gente, o que é aquela cena com Emma Stone bloqueando a projeção de Juventude Transviada? Chazelle, seu gênio! E para embarcar na proposta, diferente de outros belos filmes, não é preciso entender de cinema, ou ter assistido ao clássico estrelado por James Dean, ou capturar com os olhos diversas referências. Aceito contrapropostas (você lembrará de grandes exemplos como O Artista, O Aviador, A Invenção de Hugo Cabret, entre outros), mas aposto que não conseguirá citar comparações no que diz respeito ao jazz. Mesmo assim, você não vai acreditar no que estou dizendo sobre La La Land.

Poderia dizer que Tom Cross é o profissional capaz de fazer a melhor montagem desde Thelma Schoonmaker, a habitual colaboradora de Martin Scorsese, e Sally Menke, que editou os filmes de Quentin Tarantino até falecer em 2010. Ou que a trilha de Justin Hurwitz gruda como chiclete e é a melhor composição do ano. Diria o mesmo sobre as canções, todas ótimas e originais, combinação que é um verdadeiro milagre na atualidade. Por que não elogiar os cenários, a fotografia, o figurino e as cores de tudo isso, ainda por cima, abusando ao afirmar que os ensinamentos dos musicais franceses de Jacques Demy, orquestrados por Michel Legrand, como Os Guarda-Chuvas do Amor e Duas Garotas Românticas, nunca foram tão bem aplicados na prática. Eu diria que também não há um excesso de cantoria em La La Land, e que somos surpreendidos positivamente quando as canções entram em cena. Eu diria, mas… você sabe.

Porém, sei que concordará comigo que La La Land é um filme que desperta esse tipo de euforia. Que é sobre sonhos; os que se realizam e aqueles que não se concretizam. É sobre os caminhos possíveis que um sonho pode nos levar e, apesar de toda a sua magia, La La Land mostra que o único destino é construído após uma escolha. Não é o fim que importa para Damien Chazelle, mas a jornada do sonhador que nunca desiste. Para mim, isso reflete as diferentes sensações, uma montanha-russa de emoções, que queremos vivenciar numa sala de cinema. É um filme que ganha a atenção de todos, inclusive dos mais céticos, que podem não gostar no final (todos têm esse direito), mas convida para a festa até mesmo aqueles que odeiam musicais. Você concordará comigo que cinema é uma máquina de sonhos e que La La Land representa tal conceito com maestria. Terá a certeza de que, gostando ou não, seria tolice morrer sem experimentar essa viagem de Damien Chazelle. Resumindo, La La Land é a razão pela qual amamos filmes. A não ser que eu esteja falando com quem não gosta de cinema. Ou jazz. Eu diria isso e sei que você também.

VEJA O TRAILER:

La La Land (2016)
Direção e roteiro:
 Damien Chazelle
Elenco: Ryan Gosling, Emma Stone, Rosemarie DeWitt, John Legend, Terry Walters, J.K. Simmons e Jason Fuchs
Distribuição: Paris Filmes
Duração: 127 minutos

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