Crítica | Manchester à Beira-Mar

Otavio Almeida 26 de janeiro de 2017 0
Crítica | Manchester à Beira-Mar

KENNETH LONERGAN E CASEY AFFLECK PEDEM PARA QUE VOCÊ NÃO JULGUE OS OUTROS SEM CONHECER SUAS HISTÓRIAS

Por Otávio Almeida

Assim como O Quarto de Jack no ano passado, Manchester à Beira-Mar (Manchester By The Sea, 2016) é o melhor tipo de filme dramático que se pode fazer hoje em dia. Sólido, adulto, confiante o bastante na força de seu roteiro para não cair na armadilha de clichês e emoções fáceis, e com o apoio essencial de um elenco pronto para explodir, mas que segura seus sentimentos nos locais mais obscuros ou distantes da mente humana. Ou seria do coração?

Mais humano que Manchester à Beira-Mar é impossível. Deve ser muito difícil criar histórias fantásticas sobre seres de outras galáxias, super-heróis e diversas variáveis de obras de fantasia. Mas deve ser ainda mais complicado escrever sobre pessoas normais sem destoar e esbarrar na caricatura do que faz de alguém humano, falível e imperfeito.

O diretor, roteirista e dramaturgo Kenneth Lonergan consegue. A beleza de seu texto está nos detalhes. Na verdade, não é exatamente um filme bonito, mas profundamente triste. Nos primeiros minutos, somos apresentados ao introvertido ao extremo Lee Chandler (Casey Affleck), que vive sozinho num apartamento apertadíssimo e trabalhando como um zelador faz-tudo nas redondezas (conserta chuveiros, desentope privadas etc). A primeira impressão é a de um homem sem ambições, sem companhia, antipático. Aos poucos, Kenneth Lonergan desfia cada camada da história desse personagem fascinante. Não demora muito e descobrimos que ele tem família. Mas por que ele vive longe dela? Enfim, Lee Chandler é obrigado a voltar a sua cidade natal quando o coração do irmão mais velho (Kyle Chandler) resolve parar de bater. Não é só isso: ele precisa cuidar dos amargos detalhes para o enterro e, o principal, de acordo com o testamento, Lee tem a missão de ser o tutor do sobrinho (a ótima revelação Lucas Hedges), que ainda é menor. Flashbacks que entram e saem sem aviso prévio da trama, porém muito bem costurados, insinuam que Lee se dava muito bem com o irmão e o sobrinho, quando este ainda era criança. Mas e agora que o protagonista não consegue se relacionar com mais ninguém?


Acredite: a morte do irmão de Lee não é a grande tragédia de Manchester à Beira-Mar. Nem o fato de um inverno que castiga cada canto da tela impedir o enterro por alguns longos meses devido à terra congelada. O coração do falecido pode ter parado, mas o de Lee virou pedra. Ou gelo. Ainda mais em um local frio, onde as dores são muito mais intensas.

O produtor Matt Damon, Casey Affleck, Kenneth Lonergan e seus habilidosos flashbacks revelam pouco a pouco um personagem trágico. A trilha por vezes com jeitão de ópera não é mera obra do acaso. Como gostam de dizer em inglês, Lee é a personificação ideal da expressão “dead man walking”. Inicialmente, gostaríamos de odiá-lo e culpá-lo por tanta frieza. Mas, tenha calma, você compreenderá a razão de tudo isso.

Não é um filme que vá fazer qualquer um chorar. Manchester à Beira-Mar é a cara de seu protagonista, que sufoca sentimentos, engole o choro e não ignora cicatrizes de uma forma como poucas vezes vimos de maneira tão convincente. Imagino que Casey Affleck, no melhor momento de sua carreira, tenha ido ao inferno e voltado para compor Lee Chandler. A parte que quase desmonta o personagem é talvez a melhor cena do filme, que envolve um diálogo de partir o coração entre o ator e Michelle Williams. Os dois pegam fogo nessa cena e quase derretem todo o gelo ao redor. É o ápice do objetivo de Kenneth Lonergan e a prova da genialidade de seu roteiro e direção: fazer o espectador conhecer e, mais que isso, aceitar Lee Chandler. Ou seja, pare com a mania de julgar os outros sem conhecer suas histórias, dores e sentimentos. Manchester à Beira-Mar é um filme que pode ensinar isso a todos nós e de uma vez por todas.

VEJA O TRAILER:

Manchester À Beira-Mar (Manchester by the Sea, 2016)
Direção e roteiro:
 Kenneth Lonergan
Elenco: Casey Affleck, Lucas Hedges, Michelle Williams, Kyle Chandler, Gretchen Mol, Matthew Broderick, Heather Burns, Kara Hayward
Distribuidora: Sony
Duração: 137 minutos

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