Crítica | Estrelas Além do Tempo

Otavio Almeida 8 de fevereiro de 2017 0
Crítica | Estrelas Além do Tempo

QUANDO A HISTÓRIA E O ELENCO SÃO MELHORES QUE O FILME E ISSO NÃO IMPORTA

Por Otávio Almeida

Nos anos 60, os EUA ainda tinham banheiros para negros e banheiros para brancos. Embora estivesse ao lado de um toilette feminino, Katherine (Taraji P. Henson), que é negra, precisava sair do prédio onde trabalhava, e correr alguns blocos para chegar ao tal banheiro. Afinal, quando se tem vontade é preciso ir. Em Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, 2016), o diretor Theodore Melfi repete essa cena diversas vezes ao som de uma música, digamos, engraçadinha. E, vejam só, tem gente na plateia que ri. Não sei se acharam realmente divertido ou se foi puro constrangimento. O ápice dessa sequência envolve uma discussão entre Katherine e seu chefe interpretado por Kevin Costner. Se você riu antes, não vai rir nessa cena em que Taraji P. Henson brilha de forma monumental. Que atriz! É a melhor parte do filme.

Por que é a melhor? Porque é uma síntese de Estrelas Além do Tempo e sua passagem mais complexa. Podemos pensar, inicialmente, que a intenção do diretor foi fazer graça com o racismo, mas ao culminar a humilhação de Katherine com a cena do desabafo, Estrelas Além do Tempo revela seu verdadeiro objetivo, que é expor o problema, induzir o espectador (a maioria branca) a rir da situação, porque foi o que sempre fizemos ou, então, teríamos tomado alguma atitude para impedir ou mudar tanto sofrimento e discriminação. Enfim, Theodore Melfi prepara o terreno para, depois, deixar uma imensa, justa e irreparável sensação de culpa em grande parte do público. Além disso, o filme, somente em toda essa sequência, que termina com uma atitude louvável do personagem de Kevin Costner, faz acelerar o coração e demonstra o quanto Katherine Gordon (depois Katherine Johnson) é uma mulher forte, talentosa e insubstituível. Não só ela, mas também suas amigas, Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), que merecem ter suas histórias contadas, vistas e compartilhadas. Gente, não sei se falei, mas elas trabalharam na NASA e foram essenciais para transformar em realidade as primeiras viagens dos norte-americanos ao espaço, incluindo a do lendário astronauta John Glenn. Toda a sequência descrita acima vale pelo filme inteiro.

Agora podemos dizer que, no geral, Estrelas Além do Tempo se contenta em ser um filme correto, nada original, acadêmico e simpático até demais. Só que a história desse trio é tão importante, envolvente e muito bem narrada, que não ligamos para esses pontos. Mesmo que ela seja melhor que o filme. Mas se Estrelas Além do Tempo tivesse a pegada da sequência descrita nos primeiros parágrafos desse texto em, praticamente, todo o filme, cara, estaríamos diante de uma obra irretocável e merecedora de todos os prêmios, além de qualquer estatueta dada às meninas do elenco. Mas, tudo bem.

É compreensível que Estrelas Além do Tempo tenha todo o cuidado para contar essa história. O que deve ser elogiado é o foco no lado profissional e a capacidade do trio para fazer o melhor pela NASA. Em outras palavras, elas se destacam independente da cor da pele e, talvez por isso, o filme não se prenda a vitimismos. O ponto principal é exaltar Katherine, Dorothy e Mary, guerreiras de verdade. E, não esqueça, mulheres conquistando seus espaços em um mundo dominado por homens. Sem elas, paramos no tempo.

Além de Taraji, destaque para Octavia Spencer, indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, Janelle Monáe, uma ótima revelação, e, quem diria, Kevin Costner – não somente pelo retorno a um filme importante, mas pela atuação imponente.

Daria para fazer um paralelo ou, melhor, uma sessão dupla de Estrelas Além do Tempo e Os Eleitos, obra-prima de 1983 dirigida por Philip Kaufman. Em seu épico sobre o início da corrida espacial, Kaufman não menciona Katherine, Dorothy e Mary, mas poderia. Ok, o foco estava nos astronautas e entendo que Os Eleitos seja fruto de uma época mais atrasada que a atual. Mas recomendo o filme de Theodore Melfi como complemento. Não pela qualidade do cinema, que não dá para comparar, mas em termos de História.

VEJA O TRAILER:

Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, 2016)
Direção: Theodore Melfi
Roteiro: Allison Schroeder e Theodore Melfi
Elenco: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Jim Parsons, Mahershala Ali, Aldis Hodge, Glen Powell, Kimberly Quinn, Olek Krupa, Kurt Krause e Ken Strunk
Distribuição: Fox Film do Brasil
Duração: 127 minutos

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