Crítica | Logan

Otavio Almeida 23 de fevereiro de 2017 4
Crítica | Logan

Os brutos também amam: Hugh Jackman se despede de Wolverine em um filmaço corajoso e emocionante

Por Otávio Almeida

Comprometido com o papel de vilão em Missão: Impossível 2, Dougray Scott não teve agenda para fazer X-Men. Como plano B, a Fox e o diretor Bryan Singer optaram pelo, até então, desconhecido australiano Hugh Jackman para ser Wolverine na adaptação que fez Hollywood e o público respeitarem filmes baseados em histórias em quadrinhos (cinco anos antes de Christopher Nolan dirigir Batman Begins). O primeiro X-Men até que foi legal, mas Jackman roubou a cena e valeu muito mais que o filme inteiro. Não demorou e veio X-Men 2, esse sim, um grande filme, e outras sete participações do ator como Wolverine. Só que 17 anos depois, ainda faltava aquela pitada de coragem para entregarem um filme que representasse o furioso mutante do jeito que os fãs queriam – de forma brutal, descarregando sua raiva nos inimigos e com muito sangue espirrando na plateia. E prestígio na indústria é isso aí: perto de completar 50 anos, Jackman disse que faria o personagem apenas mais uma vez, porém exigindo que o filme saísse como descrevi acima. Enfim, carta branca e o projeto entregue a um de seus diretores de confiança, James Mangold. O resultado é Logan (2017), o filme do Wolverine que você sempre pediu.

Um dos maiores elogios que posso fazer é que não parece uma adaptação de histórias em quadrinhos – e é muito importante incluir isso – do modo como Hollywood nos acostumou. O maior dos elogios é que se trata de um filme completo, dramático quando exigido, e raivoso quando a história pede. Sem acrobacias, cenas de ação a la 007, como a sequência do trem em Wolverine: Imortal, curiosamente dirigido pelo mesmo James Mangold (que diferença faz a liberdade para tocar um filme), mas com muita porrada, membros decepados, palavrões (a primeira fala do filme é “FUCK”), sangue jorrando de uma maneira intensa, violentíssima, porém compreensível, aceitável quando entendemos Wolverine após quase duas décadas. Ainda mais porque, desta vez, ele está velho, cansado e com seu poder de regeneração bastante debilitado.

Mas não se apegue tanto à violência, tensão e adrenalina, porque o segredo do sucesso de Logan está no título. Apesar de tudo, não é um filme sobre o animal, mas sobre um homem em busca de sua humanidade perdida em um passado doloroso e que não volta mais. É o filme mais humano e centrado em personagens de toda a franquia – incluindo nessa comparação os ótimos X-Men 2 e X-Men: Primeira Classe –, com diálogos reflexivos, pausas silenciosas e atuações definitivas de Hugh Jackman e Sir Patrick Stewart, que não precisam de muita coisa para cortar o coração do espectador em simples conversas entre Logan e Xavier sobre amor, a aceitação da morte, família, culpa, esperança, liderança e a relação pai e filho + pai e filha.

É onde entra a grande surpresa do filme, a pequena Dafne Keen, que rouba a cena como Laura não somente em cenas impressionantes de ação, mas também pelo seu potencial como atriz, apontando a série para um futuro promissor que, assim espero, Hollywood tem a urgência de compreender.

Não falo da qualidade do filme bem acima da média, sua seriedade e tom adulto (na medida do possível) se o compararmos com produções como Batman vs Superman, Esquadrão Suicida, Capitão América: Guerra Civil ou Homem-Formiga. Uma qualidade comparável apenas a Batman: O Cavaleiro das Trevas (sim, Logan é o melhor filme do gênero desde então), embora seja completamente diferente da obra-prima de Christopher Nolan.

Falo da direção tomada por Logan em compreender o novo mundo em que vivemos, onde velhos conceitos e ideologias ficam para trás e lendas do passado reconhecem o objetivo primordial de dar o exemplo e passar o bastão para uma nova geração, mais unida, com integrantes de diferentes cores de pele e nacionalidades distintas que não julgam por gênero ou opção sexual. É esse mundo que Logan abraça com suas garras; uma pegada que deveria ser seu principal legado. E quando temos um blockbuster protagonizado por Hugh Jackman, não há meio mais eficiente para se transmitir a mensagem.

Aliás, Sr. Jackman, você não foi apenas o Wolverine do cinema. Hoje, não dá para falar do personagem em qualquer mídia sem citar a sua contribuição. Isso é sair por cima, e com a certeza de um trabalho bem feito. Outros atores interpretarão Wolverine, claro, mas nenhum será o Logan de Hugh Jackman, como Harrison Ford é Indiana Jones e Han Solo, e Sean Connery é James Bond.

Para o cinéfilo, Logan ainda é um prato cheio de referências. Em diversos momentos, pode parecer um filhote que veio de algum lugar entre os anos 50 e 70, devido à ousadia de querer ser fora dos padrões, mas seu espírito verdadeiro pertence aos faroestes e road movies, como o bom e velho filme de travessia com seus heróis enfrentando percalços pela longa jornada. Falo do western moderno, aquele com arrependimentos corroendo protagonistas que carregam hábitos e memórias de uma época que passou, seguindo a tendência de filmes como Onde os Fracos Não Têm Vez e A Qualquer Custo. Logan também tem influências de Os Imperdoáveis, o game The Last of Us e a HQ Velho Logan, mas nada é tão grandioso quanto o amor de James Mangold pelo clássico Os Brutos Também Amam.

Para o Wolverine, esse é o filme dos sonhos. Mas seu nome é Logan. Você vai vibrar com a intensidade da ação, mas o que acontece ao redor não supera o que se passa nas cabeças e corações dos personagens. A maior emoção de Logan é intimista e, acredite, ajuda muito levar uma caixa de lenços para o cinema.

VEJA O TRAILER:

Logan (2017)
Direção:
 James Mangold
Roteiro: James Mangold, Michael Green e Scott Frank
Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Boyd Holbrook, Stephan Merchant, Dafne Keen, Elizabeth Rodriguez, Richard E. Grant
Distribuição: 20th Century Fox
Duração: 135 minutos

4 Comentários »

  1. Paulo Ricardo 23 de fevereiro de 2017 às 11:14 PM -

    Afirmaria que essa é a melhor atuação da carreira de Hugh Jackman?(superando o desempenho em “Os Miseráveis” e “Os Suspeitos” por exemplo)

  2. Otávio Almeida 24 de fevereiro de 2017 às 10:10 AM -

    Não tenho a menor dúvida, meu amigo. E que momento também de Patrick Stewart…

  3. Vinícius 15 de março de 2017 às 7:44 PM -

    Há caras que sabem dirigir estes filmes de estúdio com uma qualidade narrativa que impressiona, Otávio. James Mangold é, sem dúvidas, um desses. Baita filme.

  4. Otavio Almeida 17 de março de 2017 às 2:21 PM -

    Sem dúvida, Vinicius. Mangold sabe como poucos transitar entre gêneros e sair ileso. Quando não faz algo realmente marcante, como esse tal de “Logan”. Abs

Deixe seu comentário »