Diretor que participa do filme: é o que nós queremos

Otavio Almeida 16 de fevereiro de 2017 2
Diretor que participa do filme: é o que nós queremos
Por Otávio Almeida

Acho que a maioria aqui ama Clint Eastwood como diretor, certo? Para ele, um cineasta precisa ser muito ruim para estragar um filme quando a produção conta com um bom roteiro, um bom montador e bons atores. Clint não gosta muito de arriscar pirotecnias e voos desenfreados com a câmera de seu diretor de fotografia. Ele filma o roteiro. Ponto. Tudo bem, aceitamos, afinal como toda regra, Clint é uma exceção. Assim como Woody Allen, outro contador de histórias estupendo, mas que fica ali, quietinho, observando o caos, e confiando em seu próprio texto e nos atores enquadrados pela câmera. Problema nenhum quanto a isso, desde que esses caras continuem entregando histórias maiores que a vida. Ou, talvez, provando de vez em quando que a vida real é mais impressionante que qualquer obra de fantasia. No Hollywoodiano, não queremos fatos. Queremos acreditar. Resumindo, essa é a visão de cinema deste site.

Uma pequena pausa para esclarecer algumas coisas: a linguagem aqui busca a comunicação com todos os tipos de públicos, e de todas as idades, então raramente você vai ler algo que não esteja próximo do estilo que conversamos fora da internet ou longe do ambiente de trabalho onde somos cobrados para falar bonito (de preferência com palavras em inglês). Quero dizer que dificilmente falaremos aqui em termos como plano americano, travelling, plano/contraplano, plano sequência e por aí vai. No máximo zoom, ok? Close também, pode ser? Diabos, não sou professor de cinema. Mas gostaria de chamar a atenção para o que acredito, que é o olhar do diretor vivo e onipresente durante o filme. Falo da importância de mover a câmera e levar a plateia junto.

Uma nova geração vai ao cinema e assiste a quase tudo de forma superficial ou passiva. Sim, vibram também. Mas, geralmente, em cenas que estavam nos quadrinhos e saíram “iguaizinhas” na tela. Pagam para ver o que esperam, raramente admitem surpresas. Veja bem, a sensação de ser arrebatado por um filme hoje em dia precisa dialogar com o nível de expectativa de cada um. Não é natural quando esse nível se restringe à mera reprodução do que está num livro. Ou numa HQ. Então, falo com quem precisa sentir, absorver, interpretar imagens, e seus significados, não somente vê-las passando diante dos olhos. Aos que nunca sentiram ou àqueles que esqueceram e exigem (mais) realidade.

Martin Scorsese é um dos adeptos dessa religião que estou pregando. A que cultua artistas que usam a máquina da sétima arte para “enganar” com truques e levar o espectador através da magia numa viagem sem volta. No caso de Scorsese, quando seu filme é elogiadíssimo, os cinéfilos suspiram. Quando seu filme não está entre os candidatos a top 5, a chave vira e a opinião cai no “Scorsese quer aparecer mais que o filme e seus atores”. Muitos pensam que diretores não devem ser notados. Se eles “aparecem”, como gostam Scorsese, Tarantino, Spielberg, tem gente que pensa que isso atrapalha a imersão, mas acredito que ela está entrelaçada com a emoção do espectador. Somente diretores que sabem disso se arriscam. Não vejo como manipulação no sentido nocivo da palavra, mas é o olhar de quem está contando a história com seus ápices de diferentes sentimentos entregues na hora certa ao espectador. Gente, o filme é do diretor e o sucesso de sua visão é garantir que o cinéfilo sentiu exatamente o que ele queria. Ou, talvez, levando-o a uma emoção maior que ele esperava. Claro que não dá para chutar o pau, porque não quero um diretor com a ambição de ser maior que seu filme, como Baz Luhrmann e Zack Snyder fazem. O cineasta deve, sim, mostrar que está presente, mas sempre à serviço da história, que é a base de tudo. Ou, então, não teria defendido Clint Eastwood e Woody Allen.

Todo diretor sabe, ou precisa saber, onde posicionar a câmera para que a cena tenha o efeito desejado, e faça sentido para o restante do filme. Não discordamos que Spotlight e Manchester à Beira-Mar são ótimos filmes, mas o estilo sóbrio de diretores como Tom McCarthy e Kenneth Lonergan não me impressiona mais que a ferocidade de George Miller, em Mad Max: Estrada da Fúria, Alejandro González Iñárritu, em Birdman, Damien Chazelle, em Whiplash e La La Land, Peter Jackson, em O Senhor dos Anéis, Danny Boyle, em Trainspotting, Brian De Palma, Francis Ford Coppola, Stanley Kubrick, David Fincher, Paul Thomas Anderson, Darren Aronofsky, Christopher Nolan, Wes Anderson, Mel Gibson (sim); esses sujeitos loucos que sabem como poucos unir imagem, música e som. Não é teatro, é cinema. Não é documentário, é filme MESMO. Se o cinema é a arte em movimento, a expressão ganha uma dimensão muito maior com esses caras, que são estudados e sempre serão.

2 Comentários »

  1. Paulo Ricardo 17 de fevereiro de 2017 às 11:22 PM -

    Sim eu amo Clint Eastwood e quero diretores participando de seus próprios filmes.Sinto que tem faltando isso nos últimos autores(não que seja uma necessidade,mas Woody Allen,Tarantino,Ben Affleck e o próprio Clint sempre souberam fazer isso muito bem.Eu sempre valorizo o lado emocional dos filmes(ao ponto de chorar vergonhosamente na sessão de “Quatro Vidas de um Cachoro”.Admiro a parte técnica,mas eu tenho que “entrar na história” me senti parte do universo e querer ficar ao lado daqueles personagens.Tem alguns autores que conseguem fazer isso comigo(Alexander Payne,Clint,Scorsese,Fincher,Spielberg,Os Coen…) outros nem tanto(admiro a parte técnica dos filmes de Wes Anderson,Guillermo Del Toro e Christopher Nolan,mas eles não me envolvem emocionalmente tanto como os diretores citados.

  2. Otavio Almeida 20 de fevereiro de 2017 às 6:02 PM -

    Valeu, cara! Abs

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