Crítica | A Bela e a Fera

Otavio Almeida 17 de março de 2017 2
Crítica | A Bela e a Fera

Disney dá um presente aos fãs, não mexe em time que está ganhando, mas ignora o intervalo de 26 anos entre a animação e o filme

Por Otávio Almeida

Sua reação ao assistir à adaptação live action de A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, 2017) depende do quanto você é fã de uma das animações mais amadas da Disney. Quem ama o desenho de 1991, sabe cantar as músicas e chora em diversos momentos, incluindo a famosa cena da dança (e ela está lá), vai sair do cinema achando que o filme foi feito sob encomenda. Quem nunca viu (e é uma pessoa muito estranha por isso) ou não gosta (você apenas será classificado como estranho se pagar para ver o filme e, pior, confrontar os fãs) é melhor passar longe.

É preciso entender – com seus prós e contras – que estamos na era do fan service e da pura nostalgia em Hollywood. Sabendo disso, e do quanto A Bela e a Fera é um de seus principais produtos, a Disney compreensivelmente não ousou mexer em time que estava ganhando, afinal uma nova versão recriado do zero (ou com mudanças consideráveis na estrutura do roteiro) representaria um risco e tanto capaz de atrapalhar o apelo certeiro junto ao público fiel e o óbvio potencial da produção para esmagar a concorrência nas bilheterias. Pessoal, estamos falando da única animação indicada ao Oscar de Melhor Filme quando essa categoria tinha somente cinco vagas. E ela mora nos corações de qualquer um que tem algo batendo no peito. Então, sorry, haters, porque você vai ao cinema para gostar do filme.

É um prazer ver A Bela e a Fera de novo (e como filme)? Sem dúvida. É um caso que justifica o propósito da nostalgia reinando absoluta. Mas, vamos lá, é bom saber que o filme traz algumas cenas inéditas que, é verdade, não acrescentam muito à magia, mas, por outro lado, não atrapalham (gente, a animação tinha cerca de 1h20 de duração e não dá para entregar um filme desses tão curto hoje em dia). Imagine também que a Disney poderia inventar uma outra cena de dança entre a Bela e a Fera ou qualquer momento que soaria gratuito para agradar aos fanáticos. Mas não, isso não acontece. Pior seria uma continuação disfarçada de remake, como virou mania nos últimos anos graças a J.J. Abrams. Só que tudo que eu disse acima também não garante uma adaptação perfeita.

Quando digo que A Bela e a Fera “é para os fãs”, voltemos a Zack Snyder, um dos sparrings deste site. Se o diretor está longe de ser um gênio, vale a pena reproduzir quase que frame by frame uma obra original, como Snyder fez com duas graphic novels, 300 e Watchmen. É bem melhor que se achar um visionário e apenas se inspirar na fonte original, como ele fez desastrosamente em Batman vs Superman.

A Bela e a Fera é o 300 e o Watchmen do diretor Bill Condon, que enganou todo mundo quando filmou o ótimo Deuses e Monstros e seguiu carreira com o insuportável Dreamgirls e Amanhecer – Partes I e II, que dispensam comentários. Embora seja tão medíocre e brega quanto Snyder, Condon não tem o olhar apurado para detalhes, como precisamos reconhecer no cineasta citado como comparação.

Sob total controle da Disney, a direção de Bill Condon não atrapalha, mas também não se encarrega de polir “acabamentos” que mereciam atenção maior. Você pode argumentar que a trama remete a um filme de época, com seus valores antiquados e cheirando a mofo, porém alguns conceitos, que poucos tinham coragem para reclamar em 1991, envelheceram muito após longos 26 anos. Como uma Bella sem função, que pelo fato de ser mulher, permanece 100% reativa ao universo masculino – seu pai (Kevin Kline), o vilão Gaston (Luke Evans) e a Fera (Dan Stevens). Não é possível fazer um filme assim atualmente, ainda mais a Disney, que se mostrou evoluída recentemente com Valente, Frozen, Zootopia e Moana. Como Snyder, Condon ainda se deixa levar pelo excesso de efeitos digitais e compromete o filme muitas vezes com uma incômoda poluição visual – talvez não pudesse ser feito diferente, entendo perfeitamente, mas tem coisa que funciona numa animação, outras não ficam tão bem em um live action, onde menos poderia ser mais, inclusive nas atuações. Não é legal ver os atores, com exceção do casal principal, exagerando como se estivessem em filme antigo ou desenho animado – e isso pode ser colocado na conta da direção, afinal são atores competentes. Emma Watson, por exemplo, pode não atuar assim, mas também não tem aquele brilho nos olhos que o papel exige nem fará qualquer espectador se apaixonar pela personagem. E é quase impossível não pensar em Hermione de vez em quando, o que gera mais desconexões da plateia.

Mas, como disse, a matéria-prima é garantia de sucesso, o fã de carteirinha recebe o que pagou e não ligará para qualquer atualização ou “acabamento” que a obra merecia para fluir melhor em 2017. Ele vai chorar, cantar e assistir do início ao fim com um sorriso largo no rosto. Sem ironias neste comentário, ok, porque eu também senti tudo isso.

VEJA O TRAILER:

A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, 2017)
Direção: Bill Condon
Roteiro: Steven Chbosky e Evan Spiliotopoulos
Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Hattie Morahan, Haydn Gwynne, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Stanley Tucci, Audra McDonald, Nathan Mack
Distribuição: Disney
Duração: 129 minutos

2 Comentários »

  1. Nizo 18 de março de 2017 às 10:44 PM -

    Achei o filme lindo. Por conta do meu filho, vi a animação umas 30 vezes em VHS. Foi emocionante rever uma versão tão fiel. Só achei um pouco longo, afinal é um filme pra criança. E, aqui entre nós, detestei o Lumiere. Fora o bom trabalho do McGregor, achei o boneco completamente sem carisma.

  2. Vinícius 23 de abril de 2017 às 1:07 AM -

    Falta punch ao filme, e Emma Watson não me convenceu como Bela, mas é suficientemente divertido para garantir o sorriso no rosto, Otávio. Também daria três estrelas.

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