Crítica | Kong: A Ilha da Caveira

Otavio Almeida 13 de março de 2017 0
Crítica | Kong: A Ilha da Caveira

Clássico é adaptado para a era dos filmes baseados em histórias em quadrinhos

Por Otávio Almeida

Clássico de 1933, King Kong ganhou “atualizações” de acordo com a evolução da tecnologia no cinema: na segunda metade dos 70 – quando os efeitos visuais passaram pelo primeiro grande salto considerável de evolução –, o diretor John Guillermin colocou o gorila para escalar o World Trade Center. Em 2005, aproveitando outra virada de página – a revolução digital iniciada com O Segredo do Abismo (1989), O Exterminador do Futuro 2 (1991) e Jurassic Park (1993) até sua consolidação com O Senhor dos Anéis (2001/2002/2003) –, Peter Jackson devolveu o monstro sagrado de volta a 1933 com o épico definitivo sobre a verdadeira alma dessa história, que é a relação entre a bela (Ann Darrow) e a fera (Kong).

Chegamos a 2017 para entender que, ao apagar a parte romântica – ok, ela está no novo filme, mas de forma bem discreta, com sua essência reduzida a praticamente zero – sobra uma espécie de O Mundo Perdido com dinos tocando o terror numa correria desenfreada. Enfim, pode ter sua dose de adrenalina, embora ela emane da estupidez de um exemplar de “Domingo Maior”, mas isso é Kong: A Ilha da Caveira (Kong: Skull Island, 2017), que curiosamente não precisou esperar algumas boas décadas para ousar uma releitura.

Ruim? Longe disso. Vão falar em Apocalypse Now para você, acredite se quiser, mas é o Kong da era das adaptações de histórias em quadrinhos e games de última geração, com muitas cores, cortes rápidos, poses para Instagram e quase nenhuma emoção real ou original para compartilhar. Repare na quantidade de posições que Tom Hiddleston e Brie Larson fazem para fotos, assim como as milhares de cenas em que Samuel L. Jackson faz cara de mau. Gente, estamos falando de três grandes atores entregues a caricaturas de seus talentos.

Mas, bom, vamos ao que interessa: o novo Kong, a criatura, é a grande atração do filme, claro, e não faz feio. Em 2005, Peter Jackson fez com que ele se movimentasse, pela primeira vez, como um gorila. Compreensível que, até então, o monstro parecesse um homem fantasiado, mas quando o cinema rompeu as barreiras da era digital, bastou contar com os efeitos da Weta e chamar o Andy Serkis para usar e abusar de suas expressões faciais e corporais para entregar o Kong perfeito. Com mais de uma década à frente da tecnologia utilizada por Peter Jackson, o novo Kong surpreende ao devolver à criatura uma postura mais… humana (!). Não em sentimentos, como no filme de 2005, mas em postura mesmo. Estranho, não? Mas isso não representa um problema, apenas uma observação de nerd chato, porque os efeitos visuais podem não encantar pela originalidade, porém permanecem competentes. Pena que A Ilha da Caveira dê muito mais espaço para personagens humanos sem graça, sem coisa alguma a acrescentar, transformando o pobre Kong em coadjuvante.

Ei, pelo menos, não fomos obrigados a ver um remake tão cedo. Kong: A Ilha da Caveira aposta em diferentes monstrengos e capricha em mortes inéditas – viu como é estúpido? –, mas, ainda que satisfaça a criança imatura dentro de todos nós, trata-se de um filme descartável. Explico: se a história de Kong tivesse surgido em 2017 com esse A Ilha da Caveira, você realmente acha que ela seria tão famosa e conquistaria gerações através dos séculos? Seria apenas mais um espetáculo rápido e esquecível para consumir somente na hora, com pipoca e refrigerante. Até porque sabemos que o filme foi feito somente como trampolim para Godzilla vs Kong, que deve sair em 2020. Até aumentaram o tamanho do rei da Ilha da Caveira com esse propósito.

Bagunça? De jeito nenhum, pois é assim que a cultura pop funciona no cinema atual. E confesso que o diretor Jordan Vogt-Roberts tem boas ideias e belas soluções visuais para contar uma história. Talvez não a de Kong, mas quem sabe a de Metal Gear Solid. Sim, uma das melhores franquias de games está na mira do jovem cineasta e tomara que ele consiga realizar o primeiro grande filme saído do universo dos videogames. Quem conhece Metal Gear Solid, sabe que a energia e as loucuras visuais colocadas em Kong: A Ilha da Caveira podem funcionar. Até lá, fique com o original ou o filme de Peter Jackson.

O que nos leva a descer a lenha nos reboots mais uma vez. Por mais legal que seja, eles sempre terão cara de segunda-feira, afinal é quando tudo começa de novo e ninguém parece ser muito fã disso. Há exceções para todas as regras e posso incluir Star Trek, de J.J. Abrams, e Batman Begins, de Christopher Nolan. Mas, geralmente, fica o gosto de pizza requentada. Boa, mas nunca tão saborosa e fresquinha quanto aquela que chega cheirosa em sua mesa na pizzaria.

VEJA O TRAILER:

Kong: A Ilha da Caveira (Kong: Skull Island,  2017)
Direção: Jordan Vogt-Roberts
Roteiro: Dan Gilroy, Max Borenstein, Derek Connolly, John Gatins
Elenco: Tom Hiddleston, Brie Larson, John Goodman, Samuel L. Jackson, John C. Reilly, Corey Hawkins, Toby Kebbell, John Ortiz, Tian Jing
Distribuição: Warner
Duração: 118 minutos

Deixe seu comentário »