Crítica | Silêncio

Otavio Almeida 16 de março de 2017 2
Crítica | Silêncio

O filme definitivo sobre fé, cristianismo e seus temas interligados. Mas quem disse que Deus é perfeito?

Por Otávio Almeida

Silêncio (Silence, 2017) é o tipo de filme que precisa ser assimilado com muito tempo e reflexão. Um paralelo digno ao que passou Martin Scorsese para compreender a obra de 1966 do escritor japonês Shusaku Endo e levá-la às telas com devida justiça, após décadas de problemas de agenda e desavenças com estúdios que não queriam bancar um projeto tão lento para as plateias de hoje quanto raro no mercado atual, sem a mínima esperança de retorno financeiro. É cinema na raça, um trabalho de puro amor de um dos maiores cineastas de todos os tempos, que dialoga com sua criação católica, seus anjos e demônios internos, visando exorcizar dúvidas e conflitos que residem no choque constante entre a fé e a realidade.

No século 17, acompanhamos dois padres jesuítas, Sebastião e Garupe (Andrew Garfield e Adam Driver), indo ao Japão feudal para encontrar seu mentor, Ferreira (Liam Neeson), que desapareceu e, segundo uma carta, renunciou ao cristianismo. Com uma curiosa dualidade logo de cara, seus pupilos precisam ver para crer. E mesmo que os japoneses proíbam a imagem e o culto à Cristo, os padres acreditam levar a “verdade absoluta” ao país, mas, ironicamente, deixam de lado a missão principal de localizar Ferreira quando resolvem ajudar (ou abençoar) um povoado paupérrimo, geralmente os mais necessitados que entregam tudo às mãos de Deus. Ou seja, sem se darem conta (como, muitas vezes, todos nós fazemos), os padres pecam por colocarem o benefício próprio à frente de qualquer coisa. Silêncio é, assim, construído em torno de dualidades.

Mas quando se deparam com o inquisidor (o ótimo Issei Ogata), e sua voz propositalmente cômica para zombar da seriedade com que o personagem de Garfield fala e narra o filme, os padres se separam, e é neste ponto que entendemos de uma vez por todas que Scorsese quer contar essa história do ponto de vista de Sebastião, alguém que representa os olhos e a alma do diretor. É quando, diante dos horrores que presencia, ele questiona sua própria fé, como cada um de nós na estrada da vida: Por que o opressor sai ileso e suas vítimas sofrem? Por que tanta violência física, mental e espiritual? Por que? Sebastião não ouve Deus em suas orações, que acabam destinadas ao silêncio do título. Será que o padre está surdo ou Deus que se cala? Ou melhor, será que Ele existe? Aliás, que ator Andrew Garfield se tornou, e no ano em que também atuou no grande Até o Último Homem, de Mel Gibson, outro filme sobre fé.

Sem deixar nada explícito, Scorsese olha para dentro como contraponto às lindas imagens que vemos na tela (o mar, a vegetação, as árvores, as montanhas, o céu, a areia, a terra, as casas, os vilarejos, um rastro de sangue) e o que escutamos dos sons que predominam como a verdadeira trilha sonora do filme (o vento, os pássaros, as moscas, portas abrindo e fechando, o efeito sonoro de uma espada afiada cortando uma cabeça, as vozes, incluindo as internas, e o próprio silêncio ensurdecedor). Entre momentos de beleza acentuados pelas lentes do diretor de fotografia Rodrigo Prieto – auxiliadas em certas partes pelo mínimo de CGI e a simples reprodução de cenários reais, como se estivéssemos num filme feito na marra por Werner Herzog ou, claro, Akira Kurosawa –, Silêncio nunca se entrega à tentação de se deslumbrar com a riqueza de detalhes, como O Regresso, por exemplo, e vive sempre na linha tênue, colocando no pacote as tradicionais indagações do que significam o certo e o errado. É o caso da função do protagonista, que pensa ser a voz da salvação, mas não respeita as outras crenças e tem dificuldade para compreender que sua presença, e não a dos japoneses, pode envenenar o solo, como ele mesmo reflete de forma egoísta. Para alcançar um status superior, Sebastião precisará se despir da vaidade e a pretensão de se ver indiretamente como Jesus, como Scorsese demonstra na excepcional cena do reflexo na água. Ele tem até seu próprio Judas nessa história, bem como crucificação pelo caminho, mas como forma de evolução no sentido de entender que ninguém é igual a ninguém, e religiões podem ser diferentes, assim como todos merecem ser aceitos pelo que são, inclusive Sebastião. Basta ficar na sua, sem abdicar de seu verdadeiro eu para conviver em paz com o próximo, retrato exposto pela linda cena final. São mensagens poderosas que têm muito a dizer para quem vive no século 21 e impõe mudanças e processos de lavagem cerebral aos outros. Mas, como Scorsese revela, Deus está vendo como não aprendemos hoje a ser intolerantes.

Porém, ainda que busque diversas dualidades, Marty deveria ter ousado em apenas mais uma: a de mostrar a crueldade da Igreja Católica. Talvez no início do filme, quem sabe. Mas seria uma maneira de rivalizar com tudo de irracional que vimos posteriormente na trama situada no Japão. Entendo que Scorsese focou no filme que ele queria ter realizado 20 ou 30 anos atrás, porém ignorar esse lado da história não me parece uma decisão correta para os dias de hoje. Enfim, faltou pouco para chegar a uma obra-prima, embora o diretor tenha feito o filme definitivo sobre os temas descritos acima. Mas quem disse que Deus é perfeito?

VEJA O TRAILER:

Silêncio (Silence, 2016)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Martin Scorsese e Jay Cocks
Elenco: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Issei Ogata, Ciarán Hinds, Tadanobu Asano, Yoshi Oida, Yosuke Kubozuka e Nana Komatsu
Distribuição: Imagem Filmes
Duração: 161 minutos

2 Comentários »

  1. Paulo Ricardo 19 de março de 2017 às 7:45 PM -

    Asssiti “Silêncio” na quinta e não consigo parar de pensar no filme.Todo o o tema da filmografia de Marty está presente nessa obra.Você fez uma observação oportuna-”…Silêncio é o tipo de filme que precisa ser assimilado com muito tempo e reflexão.”.Muito boa essa análise.Sinto que com o passar dos anos esse filme deve estar entre os grande do diretor.Aquele final com muito fogo e cristo nas mãos do protagonista é dificil de tirar da memória.Pretende rever em breve.

  2. Vinícius 24 de março de 2017 às 8:30 PM -

    Filme de cinéfilo, Otávio, como todos os últimos trabalhos do Scorsese. Aqui, especificamente, é muito claro que ele sabe o que quer, ainda que pareça inexecutável. Precisa mesmo de uma assimilação do tempo: “Silence” crescerá ainda mais.

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