35 anos de “Blade Runner”

Otavio Almeida 26 de junho de 2017 0
35 anos de “Blade Runner”

O MAIOR CLÁSSICO DA FICÇÃO CIENTÍFICA DESDE “2001”

Por Otávio Almeida

Em 2019, o mundo sofrerá com a desigualdade social. As pessoas não terão muito espaço para caminhar nas ruas lotadas de todos os tipos. Os animais estarão extintos, o ar será pesado e a chuva cairá ininterruptamente queimando a superpopulação. Todas as invenções tecnológicas do homem foram criadas para satisfazê-lo. A informação estará em todos os cantos do planeta, seremos escravos de nossos próprios trabalhos e o tempo disponível será reservado para saciar o apetite sexual.

Algumas dessas previsões descritas em Blade Runner: O Caçador de Andróides (Blade Runner, 1982) já deixaram a ficção científica de lado e entraram para a nossa realidade. É claro que arranha-céus gigantescos capazes de abrigar cidades inteiras ainda existem no sentido metafórico, assim como carros voadores. Mas esses automóveis devem voar em Blade Runner porque é quase impossível dirigir no chão. Um dia, isso pode vir a ser solução. O melhor filme de Ridley Scott, no entanto, utiliza esse cenário de caos urbano para refletir sobre uma questão eterna: o que significa ser, sobretudo, humano?

Para isso, o diretor (inspirado pelo conto de Philip K. Dick) nos apresenta aos “replicantes” ou andróides criados a imagem e semelhança do homem. Blade Runner mostra a fase Nexus 6 deste projeto. Os replicantes dessa safra são cada vez mais humanos e conseguem assimilar emoções baseadas em suas experiências próprias de vida. Infelizmente, eles são incapazes de controlar emoções. Os replicantes foram criados pela Tyrell Corporation para servir ao homem. Eles trabalham como escravos em colônias espaciais (jamais mostradas durante o filme), onde vive a classe de alto padrão. Na Terra, só ficam os pobres e a escória. Ridley Scott situa o espectador neste universo, mas sua história começa com a rebelião de quatro replicantes, que vêm ao nosso planeta atrás de respostas.

De início, o que eles querem é um mistério. Mas descobrimos que eles têm apenas quatro anos de vida e querem durar mais. As respostas para as perguntas existenciais de Roy Batty (Rutger Hauer), o líder deste quarteto está com o Dr. Eldon Tyrell (Joe Turkel), pai do projeto. No rastro dos replicantes, o policial Rick Deckard (Harrison Ford) é enviado para eliminar os invasores.

O impressionante é constatar como Deckard não carrega emoções e os replicantes parecem expressá-las com muito mais facilidade. Deckard não questiona suas ordens e é capaz de atirar em seus alvos desarmados pelas costas. Por que ele faz isso? Quem é o verdadeiro escravo nesta história? E quem é humano? São perguntas que se tornam ainda mais complexas nos detalhes, afinal muitos fãs cogitam que Deckard seja um replicante. Ainda mais quando ele conhece a evolução do projeto na figura da bela Rachael (Sean Young). Se ela não sabe que é uma replicante, quem pode ter conhecimento de sua real origem? Rachael se diferencia dos demais, porque ela carrega memórias implantadas da sobrinha de Tyrell. O mesmo pode acontecer com Deckard, afinal como alguém pode se apaixonar por uma replicante?

Durante o filme, vemos que os animais também são artificiais e seus olhos (e assim como os olhos dos replicantes) brilham. Certa hora, numa cena rapidíssima, é possível flagrar o mesmo brilho nos olhos de Deckard. Aliás, o próprio Tyrell pode ser um replicante. Sei que no roteiro original, ele está morto e a corporação criou um andróide semelhante ao dono da Tyrell Corporation para honrar sua imagem. E o replicante ainda tem as memórias dele. Então, o que torna uma pessoa humana? Memórias? Em Blade Runner, os replicantes mais avançados também possuem lembranças.

No fim, o “vilão” Roy Batty só quer mais tempo de vida. Como a maioria da Humanidade. Essas questões existenciais e a presença do Deus ex machina (uma expressão que significa “Deus surgido da máquina”) também foram abordadas em filhotes de Blade Runner como Matrix. Seria o mundo povoado por máquinas? Onde estão os verdadeiros humanos? A mesma coisa foi indagada nas seqüências de Matrix. Lembra do papo “Matrix dentro da Matrix”?

Blade Runner é um triunfo do cinema narrado por imagem, som e música. A influência deste filme na ficção científica e no cinema em geral é inegável. É um clássico moderno que marcou época, mas que não ficou marcado nela. O reconhecimento veio anos depois. Ridley Scott fez uma das obras mais influentes e idolatradas dos anos 80. Sua ideia não foi entregar um policial futurista noir, mas realizar uma ficção científica pessimista em relação ao futuro da Humanidade. A última (e aparentemente definitiva) versão ressalta essa teoria. Ainda mais agora, porque jamais amanhece em Blade Runner.

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