Crítica | Ao Cair da Noite

Otavio Almeida 29 de junho de 2017 0
Crítica | Ao Cair da Noite

Atmosfera 7 x 1 Conteúdo

Por Otávio Almeida

Toda regra tem sua exceção. Geralmente, o terror que dá certo é o que segue a máxima “menos é mais”, quando as insinuações, a tensão e a paranoia crescentes, os ruídos, aquilo que você não vê na tela; tudo isso pode ser mais assustador que a presença física do “monstro”. Temos inúmeros exemplos para comprovar a tese, com O Bebê de Rosemary entre eles. Mas existem exceções maravilhosas que preferem o horror explícito, como O Exorcista e A Morte do Demônio.

Escrito e dirigido por Trey Edward Schults (Krisha), Ao Cair da Noite (It Comes at Night, 2017) tenta se aproximar da regra quando deveria buscar um equilíbrio com a exceção. Melhor isso que exagerar no minimalismo, porque é climão demais para pouco conteúdo. A premissa é muito bem construída e, claramente, pega carona no terreno do horror pós-apocalíptico moderno pavimentado por A Estrada (mais o livro de Cormac McCarthy que o filme), The Walking Dead (mais a série que os quadrinhos) e o gameThe Last of Us. Em poucos minutos, somos apresentados a uma família confinada numa casa no meio de uma floresta, lidando com a morte de um de seus integrantes; ouvimos não informações, mas uma ou outra conversa jogada fora sobre uma doença que ferrou tudo e transformou as pessoas em… zumbis? Acho que sim, mas não temos certeza. Apenas presumo, porque não vemos absolutamente nada, ninguém conta, somos simplesmente arremessados na situação em andamento e nem estamos no tal filme com câmera na mão, e em primeira pessoa, conhecido como found footage (A Bruxa de Blair, Cloverfield), que tem mania disso.

Tudo bem que Shults não queira entregar respostas, afinal não é o que interessa. O que conta nesse jogo é a tensão e o estudo de personagens que fazem suas próprias regras em um lugar onde não existem mais regras. Eles tentam sobreviver mais a si mesmos que em relação aos possíveis monstros lá fora. Sim, possíveis. De repente, a doença não transforma ninguém em zumbi, apenas mata alguns e deixa outros loucos e imaginando coisas. Não sei. O filme não diz.

O título original, It Comes at Night, pode se referir ao medo do desconhecido, mas Shults mostra que a escuridão não deve ser mais temida que aqueles que carregam as luzes. Só que desnudar o pior do ser humano em meio a uma situação de pânico, tragédia e destruição não é algo que o cinema faz aqui pela primeira vez, o que banaliza os esforços do diretor e roteirista, afinal até Guerra dos Mundos, de Steven Spielberg, que é ficção científica, explorou isso.

Para pegar um exemplo recente, A Bruxa faz uso dessa fórmula com muito mais eficiência dentro do gênero e não tem vergonha de se assumir como horror, além de se apresentar como um filme que propõe um mistério a ser desvendado, que convida seu público a participar de algo que é desenvolvido e encontrado no horizonte (goste você ou não da recompensa final). Diferente da proposta de Ao Cair da Noite.

Se soubesse para onde ir, o filme de Trey Edward Shults teria tudo para ser lembrado pela alusão ao modo como grande parte do planeta trata estrangeiros e refugiados. Mas, sobretudo, o Ao Cair da Noite quer falar sobre como todos os personagens não pertencem mais àquele mundo. Numa comparação, Shults leva para o terror a tendência de faroestes modernos como Onde os Fracos Não Têm Vez e A Qualquer Custo.

Porém, as ideias se perdem, pois não sei dizer se os personagens se dão conta dessa sensação de deslocamento. Nem respostas eles querem. O único propósito é sobreviver a algo que os espectadores não sabem exatamente o que é. Talvez nem eles saibam. E qualquer mistério que nossas mentes queiram criar além disso será fruto de nossas expectativas, porque a essência de Ao Cair da Noite faz pose de novidade, mas no fundo discute temas e executa suas intenções de uma forma que já vimos antes. E melhor.

VEJA O TRAILER:

Ao Cair da Noite (It Comes at Night, 2017)
Direção e roteiro: Trey Edward Shults
Elenco: Joel Edgerton, Christopher Abbott, Carmen Ejogo, Riley Keough,  Kelvin Harrison Jr., Griffin Robert Faulkner, David Pendleton
Duração: 91 minutos
Distribuição: Diamond Films

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