Crítica | Mulher-Maravilha

Otavio Almeida 19 de junho de 2017 0
Crítica | Mulher-Maravilha

Ela é o símbolo máximo da atual fase de Hollywood

Por Otávio Almeida

Após desastres como Batman vs Superman e Esquadrão Suicida, a DC finalmente entrega um filme de verdade. A estreia antes tarde do que nunca da Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017) no cinema é uma aventura completa, com jeitão dos deliciosos e envolventes blockbusters das décadas de 70 e 80, que faziam você rir, chorar, vibrar e torcer pelos heróis na tela, mas com uma certa maturidade praticamente esquecida nos dias de hoje.

Eu disse “heróis”? Basta, porque chegou a era das mulheres à frente dos grandes filmes. E ninguém melhor que a Mulher-Maravilha para simbolizar esse movimento em Hollywood. Demorou 75 anos, o que é uma vergonha, mas ela ganhou um filme (muito bom). Só que antes de falar da incrível presença em cena de Gal Gadot, vamos começar por Patty Jenkins (Monster), a primeira diretora a comandar um filme de super-heróis e um blockbuster de orçamento e retorno milionários.

Quem pensou que a DC copiaria a eficiente, porém desgastada fórmula da Marvel será surpreendido por uma história livre de vícios (exceto pelo final, mas chegaremos lá) e que só poderia ser contada nos dias de hoje, em que Hollywood abriu espaço para uma justa inversão de valores, abraçando como nunca antes o empoderamento feminino.

Patty se aproveita disso para mostrar (e você vai acreditar) como somente uma mulher consegue compreender o amor prevalecendo ao ódio. Isso sem caracterizar Diana Prince (ou a Mulher-Maravilha) como mãe, filha, esposa, namorada, amante e outros rótulos para justificar a importância da mulher no roteiro. Diana vai lá e faz, naturalmente. Suas ações falam por si e, uma delas, resulta numa cena espetacular que fica para a história do cinema, com a heroína se erguendo e caminhando sem medo pela No Man’s Land, afinal Diana cresceu vendo mulheres fortes e suas atitudes não poderiam mesmo se basear em homem nenhum. E apenas uma diretora seria capaz de imprimir tudo isso com tamanha sensibilidade num filme dessa magnitude – algo que não encontramos nas produções da Marvel, com exceção do cinema “fora da caixa” exercido por James Gunn com seus dois Guardiões da Galáxia. Nada disso, porém, daria certo em Mulher-Maravilha se Patty Jenkins não mandasse muito bem nas cenas de ação. E, pode ficar tranquilo, ela manda. No entanto, não espere muitas delas.

O tom lento para esse tipo de filme é uma surpresa, mas utilizado com inteligência por Patty para focar no que mais interessa: a construção da história e seus personagens. Claro que o destaque é Gal Gadot, a Mulher-Maravilha definitiva do cinema. Assim como Christopher Reeve é Superman e Hugh Jackman é Wolverine, não aceitem mais ninguém no papel da amazona daqui para frente. Alguns acusarão a atriz de poucos recursos dramáticos, mas seu carisma é tão forte que não dá para cobrar Gal de qualquer outra coisa. O mesmo serve para Arnold Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro, Sylvester Stallone em Rocky, Matthew Broderick em Curtindo a Vida Adoidado, entre outros casos que não importam se o ator é bom ou está bem. O importante é se ele combina com o papel. Outro destaque do elenco é Chris Pine, como Steve Trevor, o espião que acompanha Diana. Em poucos minutos, aposto que você nem lembrará que é o mesmo ator que faz o jovem Capitão Kirk em Star Trek.

Mas a superprodução pertence, de fato, a Gal Gadot e Patty Jenkins, que conduzem o espetáculo com perfeição até os minutos finais, quando acontece uma luta que faz questão de lembrar a todos que estamos vendo um filme de super-heróis. Parece até imposição de estúdio. A sensação é que Patty Jenkins deixa a direção para o produtor Zack Snyder poluir toda a tela num exagero de som e imagem. Precisava? É só pensar um pouco e ver que o clímax não combina em absolutamente nada com o restante do filme.

Tudo bem, vamos dar um desconto, o saldo é positivo e 90% do filme abre um sorriso de orelha a orelha no espectador que espera por blockbusters, no mínimo, decentes. Se não há o frescor da novidade, pelo menos Patty Jenkins consegue transportar um pouco da inocência e a diversão de um Superman de 1978 para seu filme – gosto como Diana sofre um choque de realidade, mas Patty jamais esquece que estamos dentro do gênero da fantasia. E quando o show terminar, ninguém duvidará que a Mulher-Maravilha é uma deusa. Sério, você vai pedir mais Gal Gadot quando rolarem os créditos finais ao som do empolgante tema criado por Hans Zimmer (aqui interpretado por Rupert Gregson-Williams).

VEJA O TRAILER:


Mulher-Maravilha
(Wonder Woman, 2017)
Direção: Patty Jenkins
Roteiro: Allan Heinberg
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Danny Huston, Connie Nielsen, Robin Wright, Saïd Taghmaoui, Ewen Bremner, Eugene Brave Rock, Lucy Davis, David Thewlis e Lilly Aspell
Duração: 141 minutos
Distribuição: Warner

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