Crítica | Okja

Otavio Almeida 30 de junho de 2017 0
Crítica | Okja

Bong Joon Ho ensina como se faz cinema de entretenimento atual e necessário em um dos melhores filmes do ano

Por Otávio Almeida

Somente um diretor fora do esquema de Hollywood, e com liberdade total para contar sua história como bem entender, seria capaz de fazer um filme como Okja (2017). O nome do craque é Bong Joon Ho, um dos cineastas mais criativos, brilhantes e corajosos do século. Quando você pensa que seu filme caminha por um gênero ou uma fórmula, ele distorce expectativas e entrega inúmeras reviravoltas de emoções distintas. Ainda bem.

Okja seria uma fábula infantil? Bom, conemça com a extraordinária Tilda Swinton pronunciando a palavra FUCK. Não, Okja até pode e deve ser visto por crianças sob a supervisão dos responsáveis, mas é um filme para todos e, principalmente, para o nosso tempo, em que um dos assuntos mais discutidos gira em torno de carnívoros, vegetarianos, veganos, os maus tratos aos animais e a inexplicável loucura humana de selecionar o bichinho que nasceu para ser amigo e o que nasceu para ser comida; disfunções psicológicas que, geralmente, escondemos debaixo dos tapetes.

Para contar a saga de Okja – uma “super porca” cuidada por uma menina nas belíssimas montanhas sul-coreanas, que vira alvo de uma grande corporação perversa, como a JBS, mas comandada por Tilda Swinton –, o diretor Bong Joon Ho, esse gênio do entretenimento moderno, mistura com equilíbrio perfeito o cinema infantil e o tom de sátira, passando por cenas de ação, momentos de tensão, críticas ao capitalismo e o mais puro horror em algumas partes pesadas demais (como devem ser) em um matadouro. Ou seja, provavelmente estúdio algum em Hollywood deixaria Bong fazer o filme de um jeito que você nunca viu antes e não tem a mínima ideia onde vai dar no final. O próprio diretor admitiu em entrevistas que sabichões de grandes estúdios queriam mudanças no roteiro para amenizar a aventura e deixá-la com uma pegada mais Disney. Com a Netflix, no entanto, ele pôde fazer o filme que sonhou.

É curioso tocar no nome de Walt, porque Bong joga mais para o lado de outro artista visionário da animação, o japonês Hayao Miyazaki, para unir com uma maestria poucas vezes alcançada pelos filmes em relação a tradições e linguagens ocidentais e orientais; tanto no tom da história quanto na direção de seu elenco global (como deve ser) e no desenvolvimento dos personagens, respeitando suas origens, e deixando-os falar devidamente seus idiomas (como deve ser). “Tradução é sagrado”, diz um dos personagens, mas essa é a voz de Bong Joon Ho quebrando diferenças e estereótipos com vilões coloridos e excêntricos – embora Jake Gyllenhaal exagere mais que deveria -, um contraponto a heróis vestindo preto. Em outras palavras é Bong Joon Ho traduzindo um cinema para todos. E original. De certo modo, temos Babe para fazer uma leve comparação. Mas o filme indicado ao Oscar em 1995 é apenas um primo distante de Okja, uma produção muito mais complexa e contundente, que passa longe da inocência proposital do porquinho atrapalhado do título nacional, até porque a história segue seu ponto de vista. Em Okja, o único ponto de vista possível é o do diretor, que aproveita os recursos da tecnologia e cria um animal inédito para demonstrar o quanto alguns deles sofrem nas mãos dos homens. Foi a saída ideal para não expor os olhos desacostumados da plateia a torturas contra bichinhos reais, o que seria complicado mesmo se eles fossem gerados digitalmente.

Bong Joon Ho costuma apresentar uma consciência social e ambiental em sua obra, com O Hospedeiro contando com um monstro que nasce graças a um rio poluído, e Expresso do Amanhã acompanhando sobreviventes de uma catástrofe climática. A luta pelos direitos dos animais é o caso de Okja, mas Bong está interessado em imagens, não em discursos políticos e radicais. De novo, um cinema para todos. Depois de trabalhar no filme, o diretor ficou dois meses sem comer carne, mas cedeu à tentação e voltou à ativa. Talvez ninguém se torne ex-carnívoro quando rolarem os créditos finais. Só que Okja, um dos melhores filmes de 2017, fará você vibrar, rir e chorar, mas, sobretudo, pensar.

VEJA O TRAILER:

Okja (2017)
Direção:
  Bong Joon Ho
Roteiro: Bong Joon Ho, Jon Ronson
Elenco: Tilda Swinton, Paul Dano, Seo-Hyun Ahn, Giancarlo Esposito, Jake Gyllenhaal, Je-mun Yun, Shirley Henderson, Steven Yeun, Daniel Henshall, Lily Collins, Devon Bostick
Duração: 118 minutos
Distribuição: Netflix

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