Crítica | Baby Driver

Otavio Almeida 26 de julho de 2017 1
Crítica | Baby Driver

O CLÁSSICO INSTANTÂNEO DE EDGAR WRIGHT QUE ATUALIZA O CONCEITO DE FILME COOL

Por Otávio Almeida

Só um gênio como Edgar Wright seria capaz de fazer um filme de ação musical nos dias de hoje. Ou seria um musical de ação? Bom, o que importa é que Baby Driver (“Em Ritmo de Fuga” no Brasil) é um filmaço, um dos melhores e mais legais do ano. O tipo de produção que estaria atualmente num pedestal se tivesse sido lançada nos anos 80, como modelo de diversão que Hollywood, aparentemente, esqueceu como se faz.

Wright é um dos diretores mais originais e criativos do novo século e, convenhamos, o cinema de entretenimento (inteligente) precisa dele. Ótimo com atores, e em dar voz a diversos personagens, Wright tem energia e loucura necessárias para explorar olhares inéditos dentro de gêneros e clichês que outros diretores cansaram de desgastar. Entende de música e montagem como poucos no cinema atual. Agora, aliar uma coisa à outra com a perfeição alcançada em Baby Driver, cara, diria que dá para contar nos dedos os diretores de hoje que impressionam nesse ponto. Para você ter ideia do que se passa na cabeça de Edgar Wright na hora de rodar as cenas imaginadas em seu roteiro, basta somar duas equações: 1) Baby Driver foi concebido enquanto ele ouvia músicas como Bellbottoms, faixa que abre o longa. 2) Seu filme favorito é Arizona Nunca Mais, dos Irmãos Coen, uma aula de como montar e contar uma história acelerada a mil por hora com imagem, som e música.

Dito isso, não há filme igual a Baby Driver que aborde assaltos, carros em alta velocidade fugindo da polícia em perseguições de tirar o fôlego e outros clichês que vêm no pacote. Não com tanta criatividade na execução: em primeiro lugar, você nunca ouviu efeitos sonoros ora batendo no mesmo ritmo da trilha tocada em cena, ora compondo musicalidade própria (não no filme inteiro). Em segundo lugar, cenas de ação não estão acima de valores básicos que nos tornam humanos – dois pontos que me levam a destrinchar a percepção que tenho do protagonista.

HERÓI AUTISTA

Ansel Elgort pode ter feito A Culpa é das Estrelas, mas assinou contrato de astro com Hollywood a partir de Baby Driver. No filme, o rapaz é conhecido como Baby, que não dirige; ele pilota carros em fugas desesperadas de assaltos planejados por Doc (Kevin Spacey), um gênio moderno do crime que coloca até mesmo correios em sua rota, afinal ninguém mais liga para correios, como ele diz, o que tornaria o golpe menos complicado. Doc desenha personalidades como detalha seus planos num quadro negro e nunca repete a equipe no assalto seguinte, mas você ficará com Buddy (Jon Hamm), Darling (Eiza González) e Bats (Jamie Foxx) na memória. Jon Bernthal avisa que se não for visto é porque está morto e não aparece mais depois disso. Cool, Edgar!

Quanto a Baby, ele usa uma roupa Han Solo Style (nada me tira isso da cabeça), não pega em armas; apenas fica no carro, esperando os comparsas, pronto para dar a partida. A sequência inicial e todas as outras envolvendo quilometragem e pneus cantando podem ter sido inspiradas em cenas incríveis de perseguição em filmes como Operação França e Bullitt, mas o que impressiona na precisão das manobras calculadas pelo ás do volante é o fator humano, resultado da hipótese que defendo a respeito do personagem. Somos informados que Baby está o tempo todo ouvindo música (com ou sem fones) para abafar um zumbido em seus ouvidos. Mas o personagem de Ansel Elgort sabe onde e como acelerar o carro, além de entender o que Doc diz mesmo sem abaixar o volume do iPod, pelo simples fato de que Baby é autista. E boa parte do filme acontece em sua cabeça; uma interpretação livre, independente das reais intenções do diretor, afinal a ficção é mais interessante que a vida real.

Por que não? Li isso uma vez numa crítica de Luiz Carlos Merten e guardei para a vida: “Filmes pertencem ao diretor até a estreia. Depois disso, pertencem ao público”. E para mim, a forma pensada por Edgar Wright em casar som e música não é mero devaneio de sua mente. É por isso que Baby se move como se estivesse em um musical, afinal a vida com trilha sonora é muito melhor e menos sofrida. Tudo é mais intenso para ele, entre velocidade, sons e sentimentos, temos aqui um romântico inveterado. É por isso que Baby vê a luz no fim do túnel ao se apaixonar pela doce Debora (Lily James), a primeira pessoa que o enxerga como ser humano (e não uma máquina) desde que sua mãe morreu.

O OPOSTO DE “VELOZES E FURIOSOS”

Podemos ter o filme mais divertido do verão americano de 2017 e a playlist selecionada pelo cinema mais viciante desde o primeiro Guardiões da Galáxia, mas sem o cuidado com o desenvolvimento dos personagens com base nos aspectos humanos, seria um filhote de Velozes e Furiosos, que tem mil filmes e não consegue passar raspando de um Baby Driver. Mas, ok, não precisaríamos de um diretor tão talentoso como Edgar Wright, dono de um estilo particular, como nos acostumou em Todo Mundo Quase MortoChumbo GrossoHeróis de Ressaca e Scott Pilgrim Contra o Mundo, mas que é capaz de ignorar o próprio ego e canalizar sua insana criatividade em função do que o roteiro precisa. Como todos os cineastas deveriam saber – e não é bem assim que acontece –, o filme vem em primeiro lugar. E eu não diria que Edgar Wright está mais maduro, porém acredito que ele encontrou a melhor maneira para seu estilo e a máquina hollywoodiana consolidarem o casamento perfeito.

A Marvel não entendeu e deixou o diretor fora de Homem Formiga, projeto em que Wright dedicou muitos anos de sua vida só para levar um pé na bunda. Mas se o resultado disso é Baby Driver, um clássico instantâneo que atualiza o conceito de filme cool, espero que Edgar Wright embarque sempre em aventuras onde possa explorar todo seu potencial.

VEJA O TRAILER:

Em Ritmo de Fuga (Baby Driver, 2017)
Direção e roteiro: Edgar Wright
Elenco: Ansel Elgort, Kevin Spacey, Lily James, Eiza González, Jon Hamm, Jamie Foxx, Jon Bernthal, Flea, Lanny Joon, CJ Jones
Duração: 113 minutos
Distribuidora: Sony

One Comment »

  1. Paulo Ricardo 30 de julho de 2017 às 12:58 PM -

    Estou completamente apaixonado por esse filme.Se não for nomeado ao Oscar de Roteiro Original,Montagem,Edição de Som e Mixagem de Som eu desisto do Oscar.

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