Crítica | Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Otavio Almeida 7 de julho de 2017 0
Crítica | Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Marvel trata muito bem seu herói, consolida o ator perfeito no papel, mas não precisava se preocupar tanto com os Vingadores

Por Otávio Almeida

Após pagar mico em Homem-Aranha 3 e O Espetacular Homem-Aranha 1 e 2, o amigo da vizinhança retorna à Marvel em Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017), com os prós e contras disso, além do ator perfeito no papel principal (sorry, Tobey Maguire) e um tratamento decente que honra o legado do personagem em suas melhores aventuras no cinema (Homem-Aranha 1 e 2) e nos quadrinhos.

Vamos aos prós do aracnídeo entrar para o universo cinematográfico da Marvel: espere respeito máximo ao herói, inclusive com a trama acompanhando sua jornada desde os tempos de escola sem atores velhos fingindo adolescência, como em Barrados no Baile. Nada de caracterização emo, dancinhas ridículas ou mistérios irrelevantes sobre os pais de Peter Parker. Também não vemos pela enésima vez a picada da aranha e a morte do Tio Ben (quem conhece a história sabe do que estou falando). Mas espere o humor do Aranha como apresentado nos quadrinhos. Espere algo da fase de Miles Morales (o substituto de Parker nas HQs) no ar, assim como uma leveza que andava ausente nos últimos filmes. E qualquer adaptação identificada pelos fãs serve às necessidades do roteiro, então não se preocupe quanto a isso. Fique feliz em saber que o tom cômico empregado pela Marvel em todos os seus filmes nunca funcionou tão bem quanto em De Volta ao Lar, provavelmente porque… o Homem-Aranha é isso aí, gente.

E temos em Tom Holland o intérprete ideal para o plano dar certo. Depois do teaser em Capitão América: Guerra Civil, o novo Homem-Aranha volta a Nova York sendo observado de perto por Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr), que age como o mentor, a figura paterna de Peter Parker. Mas, calma, ele é coadjuvante e o filme pertence a Holland, que se passa muito bem por adolescente e empresta a ingenuidade que o Aranha precisa na fase de sua vida em que ele está se descobrindo, como qualquer garoto de sua idade. Finalmente, Peter Parker é um menino no cinema. E devidamente adaptado para os dias de hoje, atuando até mesmo como YouTuber. Ele ainda não sabe bem o que fazer com seus poderes, de sua vida, e é incrível ver o Homem-Aranha vulnerável, inseguro não por causa de perdas e outros traumas, mas pelo simples fato de que Parker é jovem e vive experiências inéditas. Não exatamente olhar para cima num subúrbio e não encontrar prédios gigantes para pendurar sua teia (isso ficou muito engraçado). Mas o ineditismo está ligado ao confinamento de Parker numa Nova York mais sufocante, sem as habituais tomadas clichês da cidade, e tentando impedir crimes que policiais gordos seriam capazes de resolver. Inclua no pacote a tarefa de falar com garotas, a dedicação ao melhor amigo, lidar com bullyings, enfrentar a tensão na hora de conhecer o “sogrão” da menina que ele gosta e a dificuldade de conciliar a vida de herói com os horários das aulas em cenas que trazem o melhor de um filme que se inspira no trabalho de John Hughes – há até uma rápida referência a Curtindo a Vida Adoidado.

Isso até surgir uma ameaça à sua altura, afinal não podemos esquecer que é um filme sobre o Homem-Aranha. Após o clímax de Os Vingadores, que detonou a cidade graças a um conflito dos heróis com alienígenas, uma equipe liderada por Adrian Toomes (Michael Keaton) tenta limpar a sujeira, mas é demitida por um time enviado por Stark para cuidar da bagunça. Não antes de “pegarem emprestado” algumas bugigangas dos alienígenas e provarem que não é obrigatório trabalhar na NASA para fazer testes com esses brinquedos. É a origem do Abutre, clássico rival do Aranha nos quadrinhos, e Keaton consegue ser ameaçador na mesma proporção que demonstra compaixão, o que torna os atos de Toomes, pelo menos, compreensíveis. Mas é um vilão de verdade; algo que a Marvel costuma ter dificuldade para entregar. Ajuda muito contar com um ator como Michael Keaton – preste atenção na melhor cena do filme, que não envolve efeitos visuais; apenas uma conversa com Tom Holland dentro de um carro.

Esses foram os prós, mas agora falaremos sobre os contras. Não, não me refiro ao desperdício de Marisa Tomei em cena, como uma Tia May mais jovem e infelizmente limitada a alvo de piadinhas machistas (é verdade, tem isso). Nem às cenas de ação pouco inspiradas, com exceção de uma escalada do aracnídeo no Monumento de Washington. Falo do Homem-Aranha voltar para a Marvel com o bonde andando. Lembra quando escrevi lá em cima que não podemos esquecer que filme estamos vendo? Devido às circunstâncias, tudo bem que Peter Parker seja fã dos Vingadores e queira entrar para o time o quanto antes. Só não precisava deixar o filme mais preocupado com o que virá a seguir quando deveria ser, antes de qualquer coisa, um longa sobre o herói mais popular da Marvel, que daria conta de uma aventura solo. Em certos momentos, a sensação é que abandonamos a imersão na aventura do Aranha para lembrar que “ah, claro, os Vingadores estão logo ali”. Prova disso é que deixam até o clímax com o Abutre menos importante que a definição do futuro do protagonista junto a equipe.

Mas não dá para esperar mais quando a já manjada fórmula da Marvel faz tanto sucesso. Diretor pau mandado, piadas boas, trajetórias redondinhas e risco zero. Não é ruim, apenas mais do mesmo; decisões que diluem, inclusive, o envolvimento com o filme, que poderia ter mais emoção (seja ela qual for), por exemplo, como há na tal cena do carro entre Michael Keaton e Tom Holland.

Talvez, com os absurdos cometidos nos anos anteriores com o herói, a situação tenha exigido a solução mais caseira possível (o que está no subtítulo). Mas agora que encontraram o melhor ator para ser o Homem-Aranha que sempre sonhamos, falta um filme que vá além do OK. E quando Sam Raimi lançou Homem-Aranha 1 e 2, o cinema não vivia esse tsunami de super-heróis. Hoje é preciso muito mais que um filme correto e divertido para se destacar.

VEJA O TRAILER:

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017)
Direção:
 Jon Watts
Roteiro: Jonathan Goldstein, John Francis Daley, Jon Watts, Christopher Ford e Chris McKenna e Erik Sommers
Elenco: Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Marisa Tomei, Jon Favreau, Laura Harrier, Zendaya, Donald Glover, Jacob Batalon, Tony Revolori, Bokeem Woodbine, Michael Mando e Gwyneth Paltrow
Duração: 133 minutos
Distribuição: Sony

Deixe seu comentário »