Crítica | Dunkirk

Otavio Almeida 31 de julho de 2017 2
Crítica | Dunkirk

CHRISTOPHER NOLAN ESCREVEU SEU NOME ENTRE OS GRANDES E NINGUÉM SERÁ CAPAZ DE APAGAR

Por Otávio Almeida

Cinema não é aula de História. A função do cinema é contar histórias através da junção entre imagem e som. Foi assim que os filmes nasceram; quando os únicos sons emitidos vinham da orquestra. Então, antes do primeiro ator falar em cena e os efeitos sonoros impressionarem plateias do mundo inteiro, o cinema era mudo e, basicamente, narrado com imagens e trilha sonora. Mais de 120 anos depois, Christopher Nolan, um dos cineastas mais poderosos de Hollywood, uniu o velho e o novo para filmar Dunkirk (2017).

Pelo título, lembramos de um dos eventos decisivos da Segunda Guerra Mundial em que os soldados aliados foram encurralados pelo exército alemão. Mas o que Nolan realmente pretende é exercitar suas habilidades como contador de histórias e entregar soluções narrativas geralmente não encontradas em filmes de guerra. Sobretudo, devido ao prestígio adquirido por produções consagradas como a trilogia O Cavaleiro das Trevas e A Origem, Nolan usa a máquina do cinemão para fazer o que bem entender. E, aqui, ele quer que Dunkirk tenha pouquíssimos diálogos; funcionando quase como um filme mudo, porém barulhento.

SERIA MUDO SE NÃO FOSSE ENSURDECEDOR

Explico: Dunkirk é um parente não muito distante de Gravidade, de Alfonso Cuarón, e Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller, filmes que agem inteiramente como terceiros atos da estrutura convencional de um roteiro; um longo clímax. Não há tempo, portanto, para muitas apresentações e desenvolvimentos de personagens quando um filme se pauta pela ação, correria e desespero em meio a imagens em grande escala. No caso de Dunkirk, um recorte de situação, o indivíduo vale nada diante do coletivo – o que inclui civis, meros mortais capazes de mudar o mundo com atitude e coragem -, justificando os vários rostos com um objetivo mútuo: entre os soldados, o de voltarem vivos para casa, e quantos aos civis, o de resgatá-los com vida.

É um recorte de situação porque há pouca explicação sobre o que houve nesse acontecimento famoso da Segunda Guerra. Se quiser saber mais, procure documentários, livros, aulas de História ou o Google. Nolan olha para um evento já em andamento através de terra, ar e mar em três distintas linhas temporais narradas em paralelo: a dos soldados que esperam o resgate na praia (sob o ponto de vista principal do personagem do estreante Fionn Whitehead), a de um barco civil que parte para ajudá-los (mais que tudo seguindo o personagem do grande Mark Rylance, o maior representante da poderosa mensagem de Nolan sobre quem pode salvar o mundo) e a de pilotos da Força Aérea Britânica tentando proteger os navios aliados durante o resgate (principalmente pelos olhos de Tom Hardy, que entrega a melhor performance de um ator usando máscara). É um recurso narrativo explorado em outros filmes por Nolan que nunca funcionou tão bem quanto em Dunkirk. Tem gente que vai se perder e precisará assistir de novo para entender, mas não se preocupe, porque isso faz parte da sinfonia do caos controlada pelo diretor.

Um caos construído para o espectador sentir um pouco do que é estar numa guerra entre imagens monumentais brilhantemente captadas pelo diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema, a trilha ensurdecedora e onipresente de Hans Zimmer – uma arma estratégica e devastadora de Nolan – e o que mais gostei: o inimigo invisível representado pelo medo, a tensão ininterrupta, a morte e a guerra por todos os cantos. Nem mesmo a palavra “nazista” é mencionada.

DIRETORES QUE SABEM USAR A TELA TODA

Dunkirk é o filme de Christopher Nolan que vai direto ao ponto e não há cena para tirar ou pôr. Você pode gostar ou não do diretor e achar que ele costuma dar um pouco mais de importância ao espetáculo que à história, inclusive nos filmes de orçamentos modestos, como Amnésia. Não coloco isso como demérito, porque é parte do show caprichar mais na forma que no conteúdo quando a indústria é comercial em sua essência. Mesmo quando o conteúdo é bom e vem de um contador de histórias nato como Nolan. Mas em Dunkirk, o cineasta equilibra bem as duas vertentes (história e espetáculo), como se uma não existisse sem a outra.

Mais que tudo, Christopher Nolan evoca a grandeza de mestres como John Ford e David Lean, que precisavam da tela toda para contar suas histórias com imagem e som. Apenas um recurso primordial, porém enclausurado no baú empoeirado da verdadeira sétima arte, que anda esquecida pelos cantos de um tempo que não volta mais. Hoje, cinema é um produto em que imagem e som geralmente se unem para fazer nada mais que firula. Não para agir como elementos naturais da narrativa. Bravo, Nolan. Obrigado por trazer de volta esse cinema. Não necessariamente saudosista. Mas seguindo os ensinamentos dos melhores para aperfeiçoá-los em nome do futuro dos filmes.

Se Batman: O Cavaleiro das Trevas escreveu o nome de Christopher Nolan entre os grandes diretores, Dunkirk veio para impedir que apaguem.

VEJA O TRAILER:

Dunkirk (2017)
Direção e roteiro:
 Christopher Nolan
Elenco: Fionn Whitehead, Damien Bonnard, Aneurin Barnard, Lee Armstrong, Barry Keoghan, Mark Rylance, Tom Hardy, Jack Lowden, James D’Arcy, Cillian Murphy,  Harry Styles, Kenneth Branagh
Duração: 106 minutos
Distribuição: Warner

2 Comentários »

  1. Vinícius 2 de agosto de 2017 às 1:32 AM -

    Essas soluções narrativas são bem questionáveis, Otávio. Acho que o filme não se completa e, diferentemente de “Mad Max”, banaliza toda a proposta de tensão ininterrupta… É inegável, porém, a busca de Nolan por um projeto de cinema. É, sim, pra ser visto em tela grande.

    PS: Vejo em Nolan muito mais de Lean do que de Ford. Para o bem e para o mal.

  2. Otavio Almeida 2 de agosto de 2017 às 3:05 PM -

    Visão interessante, Vinicius. Mas não concordo que banaliza ou dilui a tensão. É um exercício e até mesmo um “capricho”, que me deixou zureta quando notei que estava acontecendo. Na minha opinião, um recurso que une o estilo de Nolan, enriquece a trama e engrandece o espetáculo. Abs.

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