Filme deve ser visto no cinema ou em casa?

Otavio Almeida 31 de julho de 2017 1
Filme deve ser visto no cinema ou em casa?

Goste ou não de Dunkirk, mas reparou que as pessoas se encantam pelo IMAX e, por outro lado, não exaltam mais o 3D? Não somente em relação ao filme de Christopher Nolan. Mas quando comentam sobre um dos dois maiores aliados recentes dos filmes para tirar o público de casa (e da TV), o IMAX costuma ser a pauta.

Vamos voltar duas décadas, quando o formato ainda estava distante dos brasileiros. Provavelmente, mesmo assim, você ouvia dos mais velhos que filme deveria ser visto no cinema. Ao menos pela primeira vez – isso quando a palavra “imersão” não era comum em nosso vocabulário para classificar a experiência. Voltando mais uma década, Steven Spielberg não queria lançar E.T. – O Extraterrestre em VHS, porque defendia que não havia melhor maneira para embarcar em sua história que assistir seu filme no cinema. Cedeu anos depois, afinal é preciso se adaptar a novas tecnologias, ferramentas e soluções inéditas para resolver os negócios, porém mesmo fora de cartaz há algum tempo, uma geração inteira demorou um pouquinho para ver ou rever E.T. em casa.

Geração que cresceu vendo em casa filmes moldadores de caráter como Guerra nas Estrelas (quando tinha esse nome), O Império Contra-Ataca, O Retorno de Jedi, Os Caçadores da Arca Perdida, Indiana Jones e o Templo da Perdição, De Volta Para o Futuro, Os Goonies, Gremlins, Os Caça-Fantasmas, Os Garotos Perdidos, O Poderoso Chefão, Blade Runner, Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan, Os Eleitos, A Cor Púrpura, Amadeus, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Tubarão e, claro, E.T.

Então, minha pergunta é: essa geração gosta menos de cinema porque viu esses filmes em VHS na televisão de tubo?

Lógico que não. Mas a discussão voltou com tudo no lançamento de Dunkirk; papo que vem de tempos em tempos, quando sai um “filme evento” como Jurassic Park ou Avatar. Mas Christopher Nolan aproveitou os holofotes para cair em cima da Netflix, criticando seu modelo de negócio que não ajuda a movimentar o circuito. Atacou, porque é uma ameaça ao cinema como conhecemos hoje. O que Nolan e outros executivos deveriam fazer é procurar soluções que façam a sétima arte e o streaming agirem como parceiros.

Por enquanto, o braço não torce e a cabeça de Nolan é a de um diretor consagrado, que fez a trilogia O Cavaleiro das Trevas, A Origem, Interestelar e, agora, Dunkirk, que é, de fato, uma experiência incrível na telona – todos esses são. Ainda mais em IMAX. Mas o que o Nolan de Following e Amnésia, seus primeiros filmes, diria sobre a Netflix? Aquele ainda era um cineasta independente, lutando para levar sua obra às telas, independente do formato. Imagino que apoiaria, não?

A Netflix é perfeita para dar voz a cineastas e outros talentos que, dificilmente, teriam apoio total dos grandes estúdios para contar suas histórias como imaginadas originalmente. É perfeita para filmes que teriam bilheteria pequena nas salas de cinema em comparação à audiência que conseguem na TV. É o caso de Okja, um dos melhores filmes do ano.

Mas a Netflix tem suas ambições. Ou não bancaria um astro caro como Will Smith em seu primeiro “blockbuster”, Bright. É verdade que Smith não anda em um bom momento para sustentar o sucesso de uma superprodução, mas esse modelo de astro com nome no pôster maior que o título do filme não existe mais e ele foi um dos últimos dessa leva. Mesmo assim, um passo ousado da Netflix no mercado.

O que me faz acreditar que Hollywood precisa negociar. As pessoas verão Dunkirk e outros filmes gigantescos no cinema, porque se trata de um evento. E são produtos que pagam o investimento. Mas e quanto a filmes de orçamentos muito mais modestos como Moonlight e Manchester à Beira-Mar? Você iria ao cinema se eles estivessem na Netflix ou outro serviço de streaming? É importante lembrar que as locadoras foram extintas e talvez não dê para fugir da discussão por muito tempo. Quem faz o cinema acontecer, incluindo donos de complexos e salas menores precisam sentar e conversar o quanto antes sobre a melhor forma de ambos coexistirem pacificamente e se ajudando.

Por que? Você certamente conhece alguém que não se importa em ver filmes na TV enquanto outras pessoas conversam e andam ao redor. Ou que deixam a televisão ligada e se contentam apenas em ouvir os diálogos (dublados) ao mesmo tempo em que fazem outra atividade. “Assim posso entender a história”, dizem nossos parentes que têm esse hábito. Você também conhece aquela tia que espera para ver o filme em casa, não? Como não tem mais locadora, ela espera “passar na TV”, porque “cinema é cheio” ou “não permite que você vá ao banheiro durante o filme” sem apertar pause e blá blá blá. Esse público representa a maioria, mas também tem o perfil que não quer deixar de ir ao cinema e lembrar disso como parte de um passado romântico e com cheiro de pipoca.

Não adianta Nolan ser radical em seu discurso, porque o perigo de perder público para o cinema em casa é real e, talvez, mais imediato que imaginamos. Pode ser que o ritual de ir a uma sala escura para ver um filme numa tela imensa esteja com os dias contados, mas qualquer fase de transição precisa ser estudada, trabalhada aos poucos, com muito cuidado e devidamente pensada para continuar tratando bem o público, a parte que sustenta os negócios, se desconsiderar que gostamos de escolher o que ver e onde ver.

Então, o que fazer? Qual será o futuro dessa discussão? Netflix lançando um filme no cinema e, posteriormente, em streaming um ou dois meses depois? Sei que chegou a hora de falar sobre isso de uma vez por todas. Mas não como futebol em conversar de bar. Aliás, ver o time do coração na TV de casa afastou o público dos estádios? Não necessariamente. Por um breve momento houve uma crise, mas souberam sair dessa unindo o útil ao agradável (e lucrando). Por exemplo, parte do pay per view vai para o clube do assinante. Ou seja, dois mundos podem coexistir. Desde que planejem e ofereçam as melhores condições para quem paga a conta.

One Comment »

  1. Paulo Ricardo 2 de agosto de 2017 às 10:08 PM -

    Filme é pra ser visto na sala de cinema.Sempre.

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