Crítica | mãe!

Otavio Almeida 21 de setembro de 2017 3
Crítica | mãe!

Ame ou odeie, mas você terá algo a dizer e nunca esquecerá o filme mais demente de Darren Aronofsky

Por Otávio Almeida

Certa vez, David Lynch disse que filmes não devem ser explicados, mas sentidos. Poucas vezes neste século a interpretação do diretor de Veludo Azul e Cidade dos Sonhos foi tão bem representada por outros filmes fora dos padrões hollywoodianos, sobretudo, bancados por um grande estúdio. E capazes de abalar plateias acostumadas a respostas fáceis, roteiros redondos e diversão com começo, meio e fim previsíveis em 90% dos casos. mãe! (mother!, 2017) tem a assinatura de um dos diretores mais elogiados da atualidade (Darren Aronofsky em um de seus trabalhos mais pessoais), a estrela do momento como protagonista (Jennifer Lawrence) e o selo de um dos maiores estúdios de cinema de todos os tempos (Paramount) distribuindo o filme não somente em circuitos alternativos, mas tomando de assalto o conforto dos multiplexes.

Esqueça os trailers e o receio de ver um novo O Bebê de Rosemary, embora a influência do clássico de Roman Polanksi esteja ali de alguma forma. Você pode amar ou odiar, mas tenha certeza de uma coisa: mãe! vai incomodar. No meio de tantos blockbusters, Aronofsky surge com um conto original que se passa 100% dentro de uma casa isolada no meio de um campo verde e florido onde vive um casal (Jennifer Lawrence e Javier Bardem). Ele é um escritor tentando criar seu novo poema, enquanto ela é uma… dona de casa, que faz todo o resto. De uma hora para outra, a rotina vira do avesso com a chegada de dois estranhos interpretados por Ed Harris e Michelle Pfeiffer. Pronto. A fagulha está acesa e dá início a desentendimentos e novas ideias que podem mudar o casamento dos anfitriões para sempre. Apesar do cenário teatral, não espere um Quem tem Medo de Virginia Woolf? nem uma DR de duas horas. Como explicar a você o que vem além disso sem entregar spoilers como gostam os fãs de Game of Thrones?

Bom, isso é apenas a superfície do filme, porque as intenções de Aronofsky são mais profundas do que deveriam. Podemos enxergar mãe! como uma grande metáfora. Primeiramente, em relação ao papel da mulher, sua situação em um mundo dominado por homens, o machismo imposto a elas, uma realidade em que tudo que o personagem de Javier Bardem faz é mais importante que as conquistas e atitudes da moça interpretada por Jennifer Lawrence – e como a soma de tudo isso destrói seu casamento aos poucos. Mas o “filme metáfora” segue em frente.

A crise conjugal é apenas um pretexto para Aronofsky orquestrar um caos cada vez mais crescente e insuportavelmente tenso até a meia hora final mais louca que você verá este ano em um filme. E durante essa viagem, teremos referências ao Gênesis e o apocalipse, Caim e Abel, Adão e Eva, Deus e o Diabo, a Mãe Natureza (como a mulher, ela é maltratada pelo Homem), as grandes guerras que destruíram e recriaram o mundo, o caos no princípio de tudo com personagens sem nome por não serem batizados. Enfim, digamos que casamento é algo muito complicado. Mas Aronofsky quer abraçar tudo e nada ao mesmo tempo. Tem o objetivo máximo de agarrar o espectador pela jugular e explodir sua cabeça numa sucessão de eventos insanos, como em um pesadelo que faz você acordar gritando e não permite tempo suficiente para reflexões.

Apesar dos temas, o diretor é ateu e, talvez, use mãe! como uma espécie de terapia para entender um mundo do qual ele não faz parte. E, da mesma forma que Aronofsky, a personagem de Jennifer Lawrence observa e interage com esse ambiente como se estivesse em um filme de terror, deslocada, assustada, tentando assimilar tanta informação enquanto a vida acelera diante de seus olhos. Com a câmera ora na altura do ombro, ora agindo como sua própria visão, afinal quase tudo que vemos em mãe! é o ponto de vista da protagonista, o diretor espreme a mente, a alma e o corpo de Jennifer Lawrence (e da plateia que se revira na cadeira) até ela explodir de tensão no clímax, assim como faz com a bailarina de Natalie Portman, em Cisne Negro, e Mickey Rourke, em O Lutador. Desta vez, pelo menos, digamos que podemos vislumbrar uma espécie de redenção brilhando escondida no meio da escuridão.

Mas nem mesmo os trabalhos anteriores de Darren Aronofsky prepararam você para essa descida ao inferno. Não há necessariamente um final surpresa estilo M. Night Shyamalan, isso não é Kubrick nem Lynch, portanto não venha com essas comparações, porque Aronofsky é Aronofsky. Goste ou não, um filme como mãe! é uma aposta ousada quando sabemos que um estúdio como a Paramount está por trás disso. Se fosse da Netflix, diríamos que o cinema não assume riscos como as produções originais do serviço de streaming. É, mais que qualquer coisa, uma obra para cutucar e extremamente relevante para a nossa época. Que eu saiba, vivemos tempos difíceis, não? E mãe! é reflexo disso. Você pode até criticar as escolhas de Aronofsky, seu festival de alegorias (totalmente justificado, porque compõe uma experiência sensorial) e o mix entre estéticas caprichadas e desleixadas em seu filme mais demente, mas não pode dizer que o cineasta não tem coragem. No fim, mãe! é um filme genial ou uma completa bobagem? Talvez nem tanto o céu nem o inferno, mas o tempo dirá. O importante agora é reconhecer o esforço de Aronofsky em testar seu público com um filme perturbador que justifica a exclamação no título.

Se todos os diretores consagrados se unissem para oferecer algo fora do mais do mesmo, teríamos mais esperança em relação ao futuro do cinema. E por que não também quanto à humanidade?

VEJA O TRAILER:

mãe! (mother!, 2017)
Direção e roteiro:
 Darren Aronofsky
Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Brian Gleeson, Domhnall Gleeson, Jovan Adepo, Amanda Chiu, Patricia Summersett, Eric Davis
Duração: 121 minutos
Distribuição: Paramount

3 Comentários »

  1. Paulo Ricardo 21 de setembro de 2017 às 2:15 PM -

    Estou correndo de spoilers antes de conferir o filme.Volto na sua crítica depois de conferir o filme(provavelmente amanhã).

  2. Tallita 25 de setembro de 2017 às 10:44 AM -

    Agora o filme ficou ainda mais interessante. Muitas metáforas que eu não havia prestado atenção. Acho que esse é o tipo de filme que vai e volta na cabeça trazendo respostas ao longo do tempo. Parabéns pela crítica. Excepcional.

  3. Otávio Almeida 25 de setembro de 2017 às 5:37 PM -

    PAULO: Já sei que gostou do filme. Talvez mais que eu hehe… Abs

    TALLITA: Muito obrigado, Tallita! Acho que esse filme ainda será muito discutido, elogiado e maltratado na mesma proporção. Mas Aronofsky está bem seguro quanto ao cinema que quer fazer e eu gosto quando um diretor consagrado como ele resolve provocar. Abs

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