“The Post” | Crítica

Otavio Almeida 31 de janeiro de 2018 0
“The Post” | Crítica

SPIELBERG E SEU RECADO A TRUMP, MACHISTAS E FALSOS JORNALISTAS

Por Otávio Almeida

Temos “A Montanha dos Sete Abutres”, de Billy Wilder, “Todos os Homens do Presidente”, de Alan J. Pakula, “Rede de Intrigas”, de Sidney Lumet, “O Informante”, de Michael Mann, “Boa Noite e Boa Sorte”, de George Clooney, e “Spotlight”, de Tom McCarthy, entre os grandes filmes sobre jornalismo. Sendo que o último dessa lista nobre veio para relembrar a essência perdida de uma profissão devorada sem dó nem piedade pela rapidez da internet e o surgimento de crianças mimadas, que preferem postar imediatamente em busca de views, likes e shares.

O mais recente exemplar merecedor de um lugar na lista citada acima é “The Post” (2017), que segue a ótica reverente de “Spotlight” a uma imprensa livre, imparcial, e que apura, mas incrementando outros paralelos com a atualidade, que olha cada vez mais com atenção para o papel da mulher na sociedade e no mercado de trabalho. E, claro, feito também para criticar o governo de Donald Trump nos EUA, um inimigo dos jornalistas de verdade, assim como Richard Nixon, devidamente retratado como vilão na trama de “The Post” ou “Como a Direção Magistral de Steven Spielberg Faz Toda a Diferença”.

Talvez seja o melhor filme do lendário cineasta americano em anos. Ele deixa tudo tão tenso, e filma tão bem, que acaba entregando o mais próximo que podemos sentir de um inesperado longa de ação e suspense. Isso quando estamos falando de um filme que se passa 90% dentro da redação do Washington Post e das casas dos protagonistas, interpretados com muita garra pelos monstros sagrados Tom Hanks e Meryl Streep.

AÇÃO E SUSPENSE ONDE MENOS SE ESPERA

O olhar de Spielberg é guiado pelo diretor de fotografia Janusz Kaminski – seu homem de confiança desde “A Lista de Schindler” –, e suas lentes se entrelaçam com amor tanto pela luz quanto pela escuridão, capturando o tom do filme através da dualidade entre o que é ético ou não, a sorte e o azar, e o “escrever certo por linhas tortas” para exaltar a corrida contra o tempo dos saudosos jornalistas investigativos, que também contavam com algumas pitadas de sorte. E Spielberg brinca com isso não somente nos diálogos afiados escritos por Liz Hannah e Josh Singer (vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original por “Spotlight”), mas também com os milagres que realiza com a câmera.

Numa cena, por exemplo, ele se concentra no reflexo tortuoso do jornalista num telefone público para que o público enxergue a verdadeira face do profissional, que é no fundo um ser humano como outro qualquer, entre o certo e o errado, mas sempre comprometido com seu trabalho e a verdade custe o que custar para o público. Sorte e azar se fazem presentes também na incrível cena em que o estagiário chega ao andar errado do New York Times e acaba descobrindo uma informação importante. A ação e o suspense devem ter feito parte do dia a dia de um jornalista do Washington Post nos anos 70, e a câmera de Spielberg ilustra essas sensações voando entre mesas e portas da redação, ou enchendo de expectativa os profissionais curiosos na hora em que abrem uma caixa, ou transformando uma ligação dividida por várias extensões numa cena nervosíssima, ou seguindo pastas e malas como se elas tivessem olhos, afinal são objetos que guardam conteúdo, informação; ou seja, tudo.

CINEMA CLÁSSICO EM SUA MELHOR FORMA

Ah, sim. Você quer saber do que se trata “The Post”? Diria que já é possível aprender muito sobre História, principalmente a americana, assistindo aos filmes de Steven Spielberg. Quem aqui não sabe que o cinema é apaixonado por História? Mas os melhores filmes revisitam o passado para compreender o presente. E “The Post” relembra como o Washington Post conseguiu e publicou os famosos “Papéis do Pentágono”, nome popular do documento top secret de milhares de páginas sobre o real envolvimento americano na Guerra do Vietnã, comprovando anos de mentiras de vários presidentes ao povo.

Quente, não? Mas sem um diretor tão abusado e criativo como Spielberg, “The Post” poderia ser apenas mais um, afinal, como vimos anteriormente, a lista de grandes filmes sobre jornalismo está bem extensa. Sem Spielberg, até mesmo o embate entre o editor Ben Bradlee (Tom Hanks) e a presidente do jornal, Katherine Graham (Meryl Streep), não seria novidade, assim como diversos pontos que já podem ser classificados como clichês.

Mas é o olhar estressante do cineasta que dá o tom, inclusive engrandecendo como se deve a luta da personagem de Meryl, e de todas as mulheres, em um mundo de homens. Há, aliás, uma cena que enche os olhos perto do fim, quando Meryl atravessa um corredor formado por mulheres, simbolizando o topo da jornada de uma personagem que entendeu ser ela (e não os homens ao redor) a responsável por um poderoso veículo de comunicação formador de opinião. Um momento que enaltece o quanto um filme é uma história essencialmente contada por meio de imagem, música e som, e como um gênio como Spielberg atrás das câmeras faz falta a muitos roteiros bons que caem em mãos menos ambiciosas. Como exemplo disso, por mais que eu prefira “Spotlight”, diria que o vencedor do Oscar de 2016 parece um ótimo filme para a TV perto de “The Post”, que é cinemão clássico em sua melhor forma.

Um último tópico: somente Spielberg teria coragem para revelar que “The Post” pode ser encarado como um prelúdio de “Todos os Homes do Presidente”. E um bom cinéfilo embarcaria fácil nessa sessão dupla.

VEJA O TRAILER:

The Post: A Guerra Secreta (The Post, 2017)
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Liz Hannah e Josh Singer
Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Bob Odenkirk, Carrie Coon, Sarah Paulson, Jesse Plemmons, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Tracy Letts, Michael Stuhlbarg, Alison Brie, Bradley Whitford, David Cross, Zach Woods
Duração: 1h56

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