“Lady Bird” | Crítica

Otavio Almeida 9 de janeiro de 2018 1
“Lady Bird” | Crítica

FILME TEEN TROCA SONHOS E NOSTALGIA PELA VISÃO MADURA DO FIM DA ADOLESCÊNCIA E INÍCIO DA VIDA ADULTA

Por Otávio Almeida

Por que o irresistível “Lady Bird” se destaca entre os filmes recentes sobre coming-of-age? Bom, não é somente a história de uma jovem de Sacramento que luta para sair da mesmice e correr atrás de um futuro bem longe dali e voltado para arte, cultura e tudo que ela não consegue enxergar na cidade onde nasceu (quem nunca?). Como você pode notar, até aqui, “Lady Bird”, que tem o nome artístico de sua protagonista, não oferece nada de novo. E como todo filme teen, a trama é movida a sonhos, alegrias, decepções, rebeldia, festas, bailes, bebidas, drogas, músicas, carros, cumplicidade e brigas com a melhor amiga, popularidade, sexo, romances adolescentes que parecem eternos, mas não vão a lugar nenhum, além da relação com a família protetora e antiquada.

Porém, neste último ponto, reside o verdadeiro coração do filme, que é a relação conturbada de Christine McPherson, a.k.a. Lady Bird (Saoirse Ronan), com sua mãe (Laurie Metcalf, uma força da natureza). E que tipo de espectador entre o público jovem – o alvo de Hollywood para esse estilo de filme –, quer ver uma história parecida com a sua vida onde o foco principal é… a rotina entre mãe e filha? Não me parece uma boa estratégia comercial, mas então teríamos uma comédia de risada fácil, como aquela fantasia com Jamie Lee Curtis e Lindsay Lohan trocando de corpos, não?

Que nada! Temos algo mais profundo aqui, e com humor sim, mas o papo real é bem sério. E o que faz a diferença é a honestidade com que cada ramificação de “Lady Bird” é tratada. Isso é possível porque vemos tudo do ponto de vista da diretora Greta Gerwig, a atriz de “Frances Ha”, que sempre vimos nas telas como uma mulher engraçada, inteligente, cheia de energia e carisma; agora transportando essas características para quem de fato está contando a história por trás das câmeras. Os olhos de Greta são os olhos de Lady Bird, a representação de seus 17 ou 18 anos interpretada com brilhantismo por Saoirse Ronan, essa jovem atriz, que já deu o que falar em filmes como Desejo e Reparação e Brooklyn, e, agora, entra para o grupo seleto das estrelas que merecem o status.

SINCERIDADE ACIMA DE TUDO

Há algo de peculiar neste filme que pode irritar o adolescente comum que vai ao cinema, afinal onde está o príncipe encantado para as meninas e onde estão os atrativos para os meninos? Greta Gerwig até enche seu filme de músicas pop, mas é o equilíbrio entre o amor e a libertação dos cuidados da mãe que levam “Lady Bird” adiante. Além disso há todo um carinho e cuidado da diretora e roteirista com ambientação agindo de forma orgânica ao retratar Sacramento e o início do século não com nostalgia ou raiva, afinal a cineasta já deixou os anseios da adolescência no passado, mas de maneira sincera e madura numa trama que se passa em 2002, ainda sob o trauma do 11 de setembro, e a crise econômica deixando o mundo de Lady Bird, essa garota que nasceu para voar e respirar arte, ainda mais feio e sem esperança. No entanto, a visão é otimista, inclusive no reconhecimento que pais também são pessoas reais com sonhos realizados e frustrados. Greta não ignora o que já passou e encara o passado como uma fase superada que a deixou pronta para virar a página e seguir seu próprio caminho.

Toda essa sinceridade e o ecossistema onde vive Lady Bird convergem em seu desejo de garantir sua própria independência. Sinceridade que pode ser sentida nas atuações do elenco, especialmente Saoirse e Laurie; sem falar que deve ter feito muita diferença o fato de o trio central do filme ser composto por mulheres. Provavelmente, um homem dirigindo “Lady Bird” não teria alcançado um resultado tão honesto e talvez deixasse a jornada da protagonista ceder ao que torna filmes sentimentais tão piegas, armadilha que toma conta, por exemplo, de “Extraordinário” (só para citar um filme do mesmo ano).

AMOR E ATENÇÃO: DOIS CAMINHOS, UM SIGNIFICADO

Há um diálogo perto do fim que é brilhante e simboliza a veracidade que Greta quer transmitir e, digamos, é o segredo da felicidade. A cena envolve a freira da escola e a protagonista numa discussão que compara amor e atenção, mas também ilustra a personalidade e a verdadeira vocação de Lady Bird. Acredite: você não esquecerá o significado das palavras da freira. E isso vale muito mais que reviravoltas de roteiros cheios de clichês para forçar o espectador a deixar algumas lágrimas escaparem.

Um diálogo que ainda encontra tradução na letra de “Hand in My Pocket”, uma das faixas da trilha sonora. Numa cena, Lady Bird diz ao pai (Tracy Letts) que Alanis Morissette escreveu a canção em apenas 10 minutos, um paralelo às dualidades da vida e aos dois caminhos que a personagem (e qualquer um de nós) precisa escolher. O mesmo serve para outra música que toca em dois momentos, “Crash Into Me”, do Dave Matthews Band, talvez com essa dualidade se dividindo entre o sonho e a realidade neste caso, embora queira dizer a mesma coisa. E isso é “Lady Bird”, um filme que pode ser uma música indie, daquelas que, dependendo do dia e do humor, passam sensações distintas cada vez que você pressiona play de novo e de novo.

VEJA O TRAILER:

Lady Bird (2017)
Direção e roteiro: Greta Gerwig
Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein, Odeya Rush, Lois Smith
Duração: 1h34

One Comment »

  1. Paulo Ricardo 11 de janeiro de 2018 às 10:12 AM -

    “Lady Bird” é uma maravilha.O elenco está perfeito,o roteiro e a direção de Greta Gerwig,que acerta em tudo.Ela merece uma nomeação ao Oscar de direção.Se houver justiça nesse mundo,é claro.

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