“Me Chame Pelo Seu Nome” | Review

Otavio Almeida 19 de janeiro de 2018 0
“Me Chame Pelo Seu Nome” | Review

UMA BELA HISTÓRIA DE AMOR QUE SÓ PODERIA SER CONTADA NOS DIAS DE HOJE

POR OTÁVIO ALMEIDA

Você pode ser forte, frio, desligado, tímido, ou até mesmo romântico, embora esteja numa fase em que relacionamento não faz parte da sua lista de prioridades; seja qual for seu perfil ou estado de espírito, basta se apaixonar para o jogo virar. Pode ser pela pessoa mais óbvia ou alguém totalmente inesperado, mas cedo ou tarde acontece (e voltará a acontecer várias vezes) com todo mundo. É quando cedemos, mesmo lutando contra, e fazemos coisas loucas; algumas bem estúpidas por sinal. De uma hora para outra, somos movidos por uma coragem absurda que leva o mero mortal a agir e falar como um poeta outrora adormecido. E é muito bom descobrir esse lado mesmo que o desfecho venha com a rejeição nos acordando na melhor parte do sonho. Não percebemos isso quando tudo acaba, pois ficam apenas lágrimas, mas o tempo prova o quanto crescemos e nos preparamos para outras reviravoltas da vida.

Das duas, uma: ou você tem essa recordação ou ainda viverá uma experiência arrebatadora para o bem ou para o mal. E esse tipo de lembrança remete a “Me Chame Pelo Seu Nome” (Call Me By Your Name, 2017), que parece uma memória da época em que achávamos que tudo seria definitivo e não sentiríamos mais nada de especial na vida, além daquele momento mágico de uma juventude que não volta mais. Um filme de sensibilidade rara, que dificilmente será igualada este ano.

QUANDO O AMBIENTE AJUDA

Inspirado no livro homônimo de André Aciman, “Me Chame Pelo Seu Nome” escreve sobre o primeiro amor de Elio (a revelação Timothée Chalamet), um menino de 17 anos aproveitando o momento na casa dos pais em algum lugar do norte da Itália no ano de 1983. Para complicar ainda mais, falamos a respeito de um romance de verão, férias em um lugar paradisíaco, e o despertar de uma paixão incontrolável por alguém que você jamais viu antes. Quem nunca? No caso de Elio, o garoto recebe a visita de um estudante mais velho, Oliver (Armie Hammer), que ficará hospedado em sua casa durante seis semanas.

Elio tem uma namoradinha, mas rapidamente se encanta pelo rapaz numa amizade que se desdobra em paixão; paixão que comprova ser amor de verdade. E você não vai para uma Itália tão ensolarada somente para devorar livros e estudar. É como se o diretor italiano Luca Guadagnino utilizasse a arte que pulsa ao redor, assim como as belezas naturais do cenário, além daquelas construídas pelo Homem, como convites para um inevitável romance entre Elio e Oliver. É possível sentir o calor da região, o cheiro das plantas, o gosto da comida e os drinks. E os grandes diretores conseguem transmitir isso à plateia. Por exemplo, David Lean coloca o espectador na temperatura infernal do deserto em “Lawrence da Arábia” e o mesmo serve para Steven Spielberg, que faz a sala de cinema se transformar num campo de batalha com cheiro de fogo e morte em “O Resgate do Soldado Ryan”. É difícil fisgar a plateia pelos sentidos, mas Luca Guadagnino aproveita o ambiente para que os jovens não tenham escapatória dali e se entreguem um ao outro da mesma forma que o cinéfilo ao filme.

A ETERNA LUTA ENTRE RAZÃO E SENSIBILIDADE: SEGUIR OU REPRIMIR OS SENTIMENTOS?

Se o sentimento existe, por que alguém nesse mundo decidiria ignorá-lo? Inicialmente, como todos nós, Elio se faz essa pergunta. Não sabe se diz a Oliver o que realmente sente ou se esconde a verdade para evitar um sofrimento desnecessário. É claro que o ato de reprimir sentimentos ou impulsos gera sofrimento, embora as pessoas não estejam habituadas a aceitar isso quando estão na linha tênue entre se jogar ou não numa relação amorosa. É claro que Elio escolhe arriscar ou, então, não teríamos filme, e “Me Chame Pelo Seu Nome” não age somente como uma lembrança “daquele verão”, mas também como um estudo sobre o assunto discutido neste parágrafo.

O roteiro de James Ivory (cineasta responsável por “Retorno a Howards End” e “Vestígios do Dia”) provoca perguntas que todo mundo se fez ou fará algum dia: Se Elio jamais tivesse contado a verdade a Oliver, isso o pouparia de futuras dores ou mágoas? Seria o amor uma maldição? Teria sido melhor apenas manter a amizade? Ou será que ninguém precisa temer um momento especial mesmo sabendo que existe começo e fim para tudo?

Em “Me Chame Pelo Seu Nome”, você provavelmente lembrará do primeiro beijo, do primeiro amor, daquele relacionamento mal resolvido, mas também daquela pessoa a quem nunca contou o que realmente sentia por ela. Neste último ponto, será que foi melhor assim? Quais lembranças estariam agora com você se ambos tivessem sido sinceros?

AMAR SEM PRECONCEITOS

Esse é o poder do filme de Luca Guadagnino, que gruda em você e não sai mais, principalmente após a fala nos minutos finais do personagem de Michael Stuhlbarg, que interpreta o pai de Elio. Um monólogo que jamais será esquecido e fará sua cabeça girar em torno de memórias, amores jamais superados, responsabilidade afetiva e desejos não concretizados.

Porém, a maior qualidade de “Me Chame Pelo Seu Nome”, é fazer algo simples e bastante corajoso: temos aqui uma história de amor entre dois homens e, acredite, não há uma cena ou qualquer diálogo que sugira ou deixe evidente manifestações de preconceito.

Por que esse texto começa dizendo que isso é um romance que só poderia ser contado nos dias de hoje? Bom, trata-se de uma proposta que nunca entraria num filme de visibilidade tão grande no mercado cinematográfico antes dos sucessos de obras como “Brokeback Mountain” e “Moonlight”, que fizeram todos os públicos pensarem. Filmes que ajudaram todos nós a olhar em volta, entender como é o mundo de verdade e as pessoas que nele vivem com suas próprias escolhas no caminho para a felicidade. “Me Chame Pelo Seu Nome” vem na sequência de algumas histórias que já foram contadas e é a virada de página.

Não importa se Elio e Oliver são dois homens ou duas mulheres. Importa que eles sejam felizes enquanto o filme dura na tela. É o recado otimista de Luca Guadagnino, que carrega nas cores fortes para imaginar um mundo melhor e sem medo de amar.

VEJA O TRAILER:

Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name, 2017)
Direção: 
Luca Guadagnino
Roteiro: James Ivory
Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Victoire Du Bois, Vanda Capriolo e Antonio Rimoldi
Duração: 2h12

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