“Viva: A Vida é Uma Festa” | Review

Otavio Almeida 12 de janeiro de 2018 1
“Viva: A Vida é Uma Festa” | Review

MAIS UM CLÁSSICO INSTANTÂNEO DA PIXAR

Por Otávio Almeida

Uma animação sobre espíritos, esqueletos, vida após a morte, traição e assassinato remete a mais um belo pesadelo de Tim Burton, não? Mas “Viva: A Vida é Uma Festa” (Coco, 2017) não saiu da mente do responsável por “Noiva Cadáver” e “O Estranho Mundo de Jack” nem mesmo de outro excepcional contador de histórias mórbidas como Guillermo Del Toro. Trata-se surpreendentemente de um filhote da Pixar, que não se aventurou por um território sombrio à toa e entregou mais um clássico instantâneo.

Calma, passa longe de ser uma animação macabra capaz de estragar as noites de sono do público infantil. É, sim, sobre espiritismo, perder pessoas que amamos e como superar a dor. Mas, sobretudo, valoriza a família, com mais alegria, cores e músicas que você pode imaginar em um filme que fala a respeito de morte, afinal leva o selo Disney de qualidade e, por incrível que pareça, a mistura dá muito certo.

A PIXAR NÃO OLHA SOMENTE PARA OS AMERICANOS

E o mais importante é como os gênios da Pixar retratam a cultura e algumas crenças mexicanas com uma riqueza de detalhes, respeito e (por que não?) admiração sem precedentes em Hollywood. Não há sequer um personagem americano como fio condutor para uma plateia estranhamente desacostumada com outros costumes e, acredite, isso é ótimo.

Com direção de Lee Unkrich (“Toy Story 3”) e o estreante Adrian Molina, “Viva: A Vida é Uma Festa” imagina a história do menino Miguel (voz de Anthony Gonzalez), que cultiva o sonho de se tornar um músico de sucesso no futuro. O problema é que ele nasceu numa família que proíbe música. Não quero contar muito, porque o filme é cheio de reviravoltas, mas basta você saber que Miguel embarcará numa viagem fantástica pelo mundo espiritual em pleno Dia de Los Muertos. Lá, ele parte em busca da bênção do maior cantor que o México já conheceu, Ernesto de la Cruz (voz de Benjamin Bratt), e só assim poderá retornar ao mundo dos vivos. E ele precisa correr contra o tempo, porque vai desaparecendo aos poucos no melhor estilo Marty McFly em “De Volta Para o Futuro”. A diferença é que Miguel começa a se transformar num esqueleto. Ou seja, UM CADÁVER!

Calma de novo, porque como eu disse lá em cima, não é nada sombrio, porque “Viva: A Vida é Uma Festa” foge de tons exageradamente escuros e carrega nas cores interiores dos personagens e, claro, exteriores, incluindo os cenários. Por exemplo, Miguel e seu sidekick Hector (voz de Gael García Bernal), o amigo que faz no mundo dos mortos, é uma dupla carismática para o cinema nunca esquecer.

Falando em exteriores, tudo que interage com os personagens – tanto no mundo real quanto no além da vida – é capaz de convencer nossos sentidos de forma perfeitamente aceitável graças à imersão total em mais um universo criativo desenvolvido pela Pixar. Não deixamos de acreditar nem mesmo quando o surreal toma conta dos olhos do espectador durante a viagem pelo mundo dos mortos. Ok, sabemos que muita gente realmente crê em vida após a morte, mas o filme tem apelo suficiente para conquistar até mesmo os mais céticos com uma obra de fantasia que veio para ficar no imaginário coletivo, seja você mexicano ou de qualquer outro lugar maravilhoso do planeta.

CINEMA PODE SER MAIS ESPETÁCULO QUE ROTEIRO

Cinema também é espetáculo e a Pixar leva essa lição com muita seriedade em “Viva: A Vida é Uma Festa”, que tem um roteiro cheio de surpresas (cuidado com os spoilers), mas alguns adultos dirão que muitas delas são previsíveis. Só não esqueça que estamos vendo uma animação censura livre estrelada por mortos.

Então, pegue leve, olhe para o lado e repare que crianças representam um público- com coragem de sobra para encarar uma história tão incomum para essa faixa etária. E se as reviravoltas do roteiro não foram concebidas para os espectadores mais velhos, a grande aposta da Pixar não é o começo nem o fim, mas a jornada. E ela é divertidíssima, memorável e emocionante, principalmente em seu ato final.

A MÚSICA COMO LINGUAGEM UNIVERSAL E ESPIRITUAL

É quando quero ver o adulto crítico de clichês e adivinhão de roteiros segurar as lágrimas no cinema. Estamos falando do diretor que entregou aquele final inesquecível de “Toy Story 3” que todo mundo chora em cada revisão. Não é diferente em “Viva: A Vida é Uma Festa”. Como em seu trabalho anterior, Lee Unkrich carrega numa emoção longe de ser fácil.

Pelo contrário, ela é genuína porque dialoga com o que todos passam. Se não com palavras, a comunicação que mais une vivos e mortos aqui é a música, uma linguagem universal e, quem diria, espiritual. São canções em sua essência, traduzindo sentimentos verdadeiros, porque mais uma vez, o diretor está interessado no adeus e o desapego. Não com brinquedos desta vez, mas com pessoas que amamos. Um final que enche qualquer um de otimismo ao pregar que devemos ser felizes e aproveitar cada segundo sem aquela velha preocupação com a morte, porque o lado de lá também pode ser legal pra caramba.

VEJA O TRAILER:

Viva: A Vida é uma Festa (Coco, 2017)
Direção: Lee Unkrich, Adrian Molina
Roteiro: Lee Unkrich, Adrian Molina, Jason Katz, Matthew Aldrich
Elenco: Anthony Gonzales, Gael García Bernal, Benjamin Bratt, Alanna Ubach, Renee Victor, Jaime Camil, Alfonso Arau
Duração: 1h50

One Comment »

  1. Paulo Ricardo 12 de janeiro de 2018 às 9:23 PM -

    Na minha cidade ainda não estreou(deve ocorrer na semana que vem).Quero conferir!

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