“Círculo de Fogo: A Revolta” | Crítica

Otavio Almeida 23 de março de 2018 1
“Círculo de Fogo: A Revolta” | Crítica

Aprendemos da maneira mais estúpida como a troca de diretores pode fazer toda a diferença numa franquia

Por Otávio Almeida

Alguns filmes não nasceram para gerar franquia. Por exemplo, Guillermo del Toro destilou todo seu amor por monstros japoneses (os kaijus) e caprichou mais que deveria no divertidíssimo “Círculo de Fogo”, de 2013, que passa longe de ser apenas um festival de lutas épicas entre criatura colossais e robôs gigantescos. Mas só um visionário como ele seria capaz de entender que a brincadeira deveria ter parado quando as luzes do cinema acenderam, afinal o diretor não deixou um final aberto e se preocupou em concluir sua história. Embora sempre tenha dito que gostaria de ver mais filmes sobre sua criação – acredito que era o lado marketeiro do cineasta se manifestando –, del Toro preferiu fazer “A Forma da Água”, que não lhe rendeu 4 Oscars à toa, incluindo os de Melhor Filme e Melhor Direção, a se repetir dirigindo “Círculo de Fogo: A Revolta” (Pacific Rim: Uprising, 2018), que não deu em outra: é uma bomba de proporções bíblicas.

Tanto que os roteiristas Emily Carmichael, Kira Snyder, T.S. Nowlin e o próprio diretor Steven S. DeKnight (quem?) não sabem o que fazer com a história até pouco mais de uma hora de filme (!), quando arrumam uma desculpa tão esfarrapada quanto insólita (no pior sentido da palavra) para trazer os kaijus de volta. E quando eles aparecem na festa, o filme já está acabando e com a plateia morrendo de tédio. Nem Michael Bay trairia seus fãs assim.

Ora, quem paga para ver mais um “Círculo de Fogo” não espera encontrar mais da metade do filme dominada por conversas repletas de diálogos clichês, disputas de egos inflados de personagens desinteressantes, além de 10% de explicação + 0% de evolução no arco do novo protagonista da franquia, Jake (John Boyega), que não é qualquer personagem aqui; apenas o filho que ninguém sabia que existia de um dos heróis do original, Stacker Pentecost (o cancelador de apocalipses Idris Elba). Boyega tem carisma e você o conhece como o Finn de “Star Wars”, mas ele parece deslocado e se esforça para demonstrar marra quando fica nítido que a personagem mais bacana, e que merecia um tratamento mais caprichado do roteiro, é a menina Amara Namani (a ótima Cailee Spaeny), que rouba todas as cenas e é a melhor coisa do filme.

“Círculo de Fogo: A Revolta” também sofre cada vez que Scott Eastwood, o filho do mito, entra em cena com toda sua canastrice. Pior que ele é o modo como Steven S. DeKnight e os outros roteiristas tratam os personagens do filme anterior. Charlie Hunnam, que foi somente o cara principal de “Círculo de Fogo”, não é sequer mencionado; Rinko Kikuchi tem participação especial (de ruim) e sai de repente de cena da forma mais burra (cara, dava pra ter pousado o helicóptero quando rolava uma briga entre dois jaegers lá embaixo?); e Charlie Day deixa de ser um cientista excêntrico para assumir um novo papel que fica no meio do caminho entre o engraçadinho e o grotesco, algo digno de “Power Rangers”.

MATANDO TODO O AMOR IDEALIZADO POR GUILLERMO DEL TORO

Visualmente, os efeitos especiais de “Círculo de Fogo” não impressionam mais. E os caras ainda resolvem fazer tudo durante o dia ao contrário de Guillermo del Toro, que criou um espetáculo visual de encher os olhos ao explorar os mínimos detalhes do contraste do excesso de cores com a escuridão da noite. E a luz do dia deixa perceptível qualquer borrão ou falha dos efeitos visuais nessa continuação.

Sei que ainda há resistência em algumas almas, mas faz tempo que filmes de fantasia provaram que podem e devem ser levados a sério por seus realizadores. “Círculo de Fogo: A Revolta” é um dos maiores exemplos como o diretor faz toda a diferença. Eu poderia dizer que se você viu o primeiro, seu queixo nunca ficará no chão durante o segundo filme. No anterior, a escala do show foi engrandecida por Guillermo del Toro porque o diretor deixou claro seus sentimentos pelo material. Assim, transformou um filme de monstros e robôs gigantes em algo próximo do que podemos entender como obra de arte. Ao menos se compararmos com essa sequência dispensável, genérica e estúpida.

Porque ao retirar o coração implantado por del Toro, um filme dessa magnitude vira estupidez, certo? É só notar que o nome de John Boyega em “Star Wars” era Finn e, aqui, seu personagem se chama Jake. Será que era para a gente rir? Ou é apenas piada interna com “Hora de Aventura”?

VEJA O TRAILER:

Círculo de Fogo: A Revolta (Pacific Rim: Uprising, 2018)
Direção: Steven S. DeKnight
Roteiro: Steven S. DeKnight, Emily Carmichael, Kira Snyder e T.S. Nowlin
Elenco: John Boyega, Scott Eastwood, Cailee Spaeny, Burn Gorman, Charlie Day, Rinko Kikuchi, Tian Jing
Duração: 1h51
Distribuição: Universal

One Comment »

  1. Paulo Ricardo 24 de março de 2018 às 8:44 PM -

    Sua crítica me deixou MUITO desanimado.Parece que “Círculo de Fogo:A Revolta” é uma obra digna de qualquer episódio de “Transformers”.Vou conferir apenas porque amei o original de Guillermo Del Toro.

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