“Jogador Nº 1” | Crítica

Otavio Almeida 27 de março de 2018 0
“Jogador Nº 1” | Crítica

Finalmente as novas gerações entenderão o que Steven Spielberg significa para a minha

Por Otávio Almeida

Prepare-se para uma das viagens mais imersivas que você já teve no cinema. O espetacular “Jogador Nº 1” (Ready Player One, 2018) não é só o melhor filme sobre games ou o show audiovisual de cultura pop mais insano de todos os tempos. É, acima de qualquer coisa, a reafirmação de que o sinônimo definitivo de diversão no cinema atende pelo nome de Steven Spielberg.

Como cresci com seus filmes, do meu ponto de vista, ele é o grande contador de histórias da sétima arte. O cara que inventou o conceito de entretenimento em Hollywood. Ou, no mínimo, o redefiniu.

Antes de Spielberg (e seu amigo George Lucas), diversão nos filmes significava comédia, suspense de Alfred Hitchcock, faroeste, musical, épico romano ou bíblico e animação de Walt Disney. Goste ou não, ele estabeleceu uma escola que influenciou uma geração inteira de profissionais de todos os setores da indústria cinematográfica.

Mas ainda nos anos 80, entre uma diversão e outra, Spielberg tentava fazer “filmes sérios” com a mesma competência. Mesmo assim era criticado e acusado por muitos de ser uma criança no corpo de um adulto, como se sofresse de uma “Síndrome de Peter Pan”. Então, ironicamente, seus filmes mais sérios não eram levados a sério por Hollywood, embora tenham saído grandes obras dessas tentativas, como “A Cor Púrpura” e “Império do Sol”. No entanto, tudo mudou em 1993 com os Oscars de Melhor Filme e Melhor Direção com “A Lista de Schindler”. O popular Steven Spielberg foi tardiamente reconhecido pelos críticos e colegas da indústria, mas começou a se afastar das massas que conquistou e arrastou aos cinemas por duas décadas, inclusive com suas produções executivas como “De Volta Para o Futuro”, “Os Goonies” e “Gremlins”, que levaram o selo “Steven Spielberg Presents” no lugar do crédito para o estúdio (quem mais foi capaz disso sem cair no ridículo?).

SPIELBERG ADULTO VS SPIELBERG CRIANÇA

Até meados dos anos 90, Spielberg entendia crianças e adolescentes. Quando entrou no novo século, ele apenas cresceu junto com seu público. Por exemplo, lá se vão 25 anos desde que o diretor fez “Jurassic Park”, seu filme mais divertido, relevante e bem-sucedido para todas as idades. “As Aventuras de Tintim”, “Prenda-Me Se For Capaz” e “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” tentaram, mas foram trabalhos do Spielberg adulto fazendo filme de criança; alguém que não entende essa faixa etária atual. De “Jurassic Park” para cá, seus feitos mais significativos foram de gente grande, com “O Resgate do Soldado Ryan” como seu melhor filme. Spielberg passou a se dedicar à imagem de diretor sério e usou de sua influência na indústria para fazer filmes que poucos cineastas conseguem levar à frente com a liberdade criativa necessária, com “Munique”, “Lincoln” e “Ponte dos Espiões” entre eles. Steven Spielberg ganhou muito mais comparações a lendas como Stanley Kubrick e John Ford e bem menos em relação ao próprio Steven Spielberg. Mas isso muda com “Jogador Nº 1″. que une gostos e inspirações do jovem Spielberg com elementos que impactam crianças e adolescentes hoje em dia.

Em outras palavras, aqueles que nasceram após a segunda metade dos anos 90 finalmente entenderão o que Steven Spielberg significa para a minha geração. Enquanto filmes como “E.T.”, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, “Os Caçadores da Arca Perdida” e “Indiana Jones e o Templo da Perdição” mudaram a minha vida, “Jogador Nº 1” entrará facilmente para a memória afetiva dos novinhos que também veem cinema como a melhor diversão.


NÃO É SOBRE NOSTALGIA

Quando o livro de Ernest Cline foi lido por qualquer alma viva neste planeta, todas as possibilidades imaginadas de adaptação para o cinema traziam a figura de Steven Spielberg à mente como a primeira opção para dirigi-la. Lotado de referências aos filmes do cineasta nos anos 70 e, principalmente, 80, “Jogador Nº 1” se sairia bem com JJ Abrams, Robert Zemeckis, Peter Jackson, James Cameron, entre outros influenciados pela obra de Spielberg. Mas quando vemos o resultado final na tela, fica a certeza de que ninguém mais poderia ter assinado a direção.

A adaptação escrita por Zak Penn (“Os Vingadores”, “X-Men 2”) e o próprio Ernest Cline não é uma cópia fiel do livro, afinal quem conduz a história é Steven Spielberg, esse cara que entende muito bem as diferenças entre as linguagens. Sabe que cinema não é literatura e o importante é traduzir a magia das páginas para a tela.

“Jogador Nº 1” pode ser um festival de referências nerds sem precedentes, mas nenhuma delas trava a história para exigir a contemplação do fã. Elas são apenas adornos apoiando a intenção da narrativa em seguir adiante, sempre preocupada com os personagens principais, nunca com os efeitos visuais. E apesar de reunir tantos elementos, personagens pop que passam voando pela tela, e merecem rewind e pause no blu-ray, DVD ou streaming, além de uma trilha de Alan Silvestri que emula acordes que ele mesmo eternizou em “De Volta Para o Futuro”, o filme tem identidade própria, porque não é sobre nostalgia. Seu objetivo é evocar um dos temas favoritos de Spielberg: a família que escolhemos e aceitamos, o verdadeiro trunfo da caça ao tesouro de “Jogador Nº 1”. Ok, também é sobre pegar leve com as redes sociais, a internet, e curtir mais a realidade. Porém, Spielberg aceita o digital tanto para modernizar seu cinema quanto num reconhecimento de que a tecnologia veio para ficar em nossas vidas. É preciso apenas não exagerar. Ou viramos um James Halliday (Mark Rylance), que está lá para mostrar que esse seria o provável futuro do protagonista da história, Wade Watts (Tye Sheridan), e de todos nós.

O TIPO DE FILME QUE ELE NASCEU PRA FAZER

O filme apresenta um futuro distópico em que a maior economia do planeta gira em torno do OASIS, um mundo de realidade virtual em que podemos facilmente nos perder dentro de nossos avatares numa espécie turbinada de “Second Life”, que não está tão distante assim do cenário atual. Quem não trabalha com o OASIS, ou não é beneficiado diretamente por seus lucros, mora numa gigantesca favela de trailers (nada mais americano que isso).

Mas o criador do OASIS, James Halliday, morre. Não antes de programar uma caça ao tesouro que deixará o controle desse universo virtual para o vencedor. Então não importa muito adivinhar quem vai ganhar. A beleza de “Jogador Nº 1” é embarcar numa jornada conduzida por personagens que não enxergam diferenças dentro e fora do OASIS entre brancos, negros, mulheres, homens, orientais, ocidentais, heterossexuais e homossexuais.

Eu poderia escrever até amanhã sobre o mundo virtual criado por Ernest Cline e Steven Spielberg, que é impressionante numa escala jamais vista. Foram anos de aperfeiçoamento até chegar aqui, passando por “Tron”, as animações de Robert Zemeckis (“O Expresso Polar”, “A Lenda de Beowulf”) e “Avatar”. Não tenha dúvida: a finalização deixará você de queixo caído. Tanto que a primeira vez que saímos do OASIS e nos deparamos com o mundo real, o choque é grande; como se ele sim fosse falso. Mas, aos poucos, a inigualável habilidade narrativa de Spielberg torna possível a aceitação dos olhos humanos em cima das inúmeras transições entre o real e o virtual no meio de tanta correria.

Uma nota aos haters que já estão dizendo que a garotada de 2045 jamais curtiria Van Halen, Atari e “De Volta Para o Futuro”: não são os jovens jogadores do OASIS que adoram os anos 80, mas seu criador. E eles são seus fãs e especialistas em tudo que diz respeito às preferências pop de Halliday, entre filmes, música, quadrinhos e games.

Portanto, aperte o cinto, relaxe, curta a viagem e reconheça de imediato o mais novo clássico de Steven Spielberg. Aos 72 anos, o cineasta tem a disposição de um garoto (dentro e fora das telas, pois fez “The Post” praticamente no mesmo ano) e relembra que cinema pode ser divertido. Melhor que isso: desta vez, ele nos convida para a brincadeira. Ainda mais num momento em que os blockbusters que ele mesmo concebeu andam tão viciados em fórmulas consagradas, porém com um status um tanto genérico devido à repetição exacerbada ano após ano. Mas Spielberg voltou. E como o Peter Pan tão criticado no tipo de filme que ele nasceu para fazer. Graças a Deus.

VEJA O TRAILER:

Jogador Nº 1 (Ready Player One, 2018)
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Zak Penn e Ernest Cline
Elenco: Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendehlson, Mark Rylance, Simon Pegg, Lena Waithe, Win Morisaki, Philip Zao, T.J. Miller, Hannah John-Kamen, McKenna Grace, Kae Alexander, Letitia Wright, Ralph Ineson, Susan Lynch
Duração: 2h20
Distribuição: Warner

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