“O Mecanismo” reacende debate sobre ficção vs realidade

Otavio Almeida 25 de março de 2018 1
“O Mecanismo” reacende debate sobre ficção vs realidade

Com “Tropa de Elite” e “Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro”, o diretor José Padilha é o responsável pelos melhores filmes brasileiros deste século ao lado de Fernando Meirelles, que assinou “Cidade de Deus”. Mas, talvez, os dois não tenham notado o quanto podem mudar o cinema nacional com o evidente domínio que possuem do ofício, além de suas eficientes habilidades mais que comprovadas como contadores de histórias e a coragem que demonstraram em seus projetos mais importantes para priorizar a sétima arte e não suas escolhas políticas. Só que é importante entender que até mesmo José Padilha e Fernando Meirelles não podem fazer muito pelo cinema daqui (a não ser que o investimento venha lá de fora como veremos a seguir).

Mas, antes, ao revisitar o cenário, vamos admitir que as obras audiovisuais no Brasil, incluindo cinema e TV, costumam sim analisar o país como ele é, com sua maioria pobre e sem privilégios como principal vítima de um sistema corrupto. Mas sabemos que tem dinheiro público no meio disso tudo (e mesmo assim pagamos um ingresso caro para ir ao cinema), não há o suporte de uma indústria aqui como os EUA têm Hollywood, então muitas produções suam e sangram a camisa para chegar às telas (grandes e pequenas). Isso quando não são apoiadas pela Globo, claro, e terminam diluídas em nome de favores políticos. Do contrário, um cineasta faz um filme por vida ou, no máximo, dois ou três devido à dificuldade de chegar ao resultado da equação entre levantar a grana para pagar tudo e todo mundo, equilibrar o orçamento com as filmagens, peitar interesses políticos, e garantir uma distribuição decente. A não ser que o diretor tenha nascido em berço de ouro, porque é quando ele decide se quer viajar pelo planeta, treinar natação fora do país, virar piloto de Fórmula 1, jogar tênis, fazer cinema, TV, ou tocar uma produtora que prefere lucrar com campanhas publicitárias.

Depois de Tropa 1 e 2, José Padilha despertou o interesse de Hollywood. Bom pra ele que pôde ganhar prestígio e dinheiro, mesmo sendo cobaia de produções abaixo de seu talento, mas que precisavam sair dos papéis engavetados dos estúdios, como o reboot esquecível de “RoboCop” e “7 Dias em Entebbe”.

Sua maior oportunidade, no entanto, foi se envolver com a produção de “Narcos”, além de dirigir alguns episódios da celebrada série da Netflix que começou com o amigo Wagner Moura como Pablo Escobar. Agora, Padilha está novamente envolvido com a Netflix, mas na criação de uma série brasileira (ao lado de Elena Soarez) que já está dando o que falar por causa de sua ousadia e reafirma para quem ainda não entendeu que tanto a TV quanto o cinema precisam de José Padilha.

Estou falando de “O Mecanismo”, que troca nomes reais (de pessoas e empresas) para ter o direito de sair do papel e desmembrar os bastidores da Lava-Jato, a maior operação anticorrupção do país. Esqueça aquele filme safado estrelado por globais e ex-globais, “Polícia Federal: A Lei é Para Todos”, que não se cansa de exaltar a operação e condenar um dos partidos que, na verdade, tem tanta culpa no cartório quanto o outro. Em “O Mecanismo“, Padilha não quer saber de passar a mão na cabeça de ninguém. Como nos dois “Tropa de Elite”, ele coloca o dedo na ferida, torce para doer ainda mais e impossibilitar a cicatrização.

Mas quando elogio a coragem de José Padilha, exalto seu ponto de vista como um diretor, produtor e roteirista que domina sua arte. Durante oito episódios, “O Mecanismo” não propaga fake news, mas uma aula de narrativa em decorrência de um exímio trabalho de direção, texto, montagem, fotografia, uso de trilha sonora e atuações, especialmente as de Selton Mello, Caroline Abras e Enrique Diaz. Antes de continuar é bom deixar claro: isso é ficção, não realidade; é série, não documentário.

“Todos os Homens do Presidente” saiu logo após o Watergate, “Apocalypse Now” e “Platoon” chegaram aos cinemas pouco tempo depois da Guerra do Vietnã e não importa se “JFK” acertou na mosca ou errou feio em suas teorias sobre o assassinato de John Kennedy. Vale o debate, a discussão sobre o que está acontecendo no mundo e, sobretudo, um cinema de primeira que dramatiza os fatos. Ou seja, até aqui, nenhuma novidade.

Acontece que agora é no Brasil. E em ano de eleição quando vivemos um período demasiadamente conturbado em que as posições não fogem do “ou você está comigo ou é meu inimigo”. Padilha e a Netflix sabiam que estavam cutucando a onça com vara curta. Ainda assim, trata-se de uma obra de ficção. O que mais incomoda quem toma dores políticas e não consegue enxergar que existe corrupção em todos os times é que as pessoas irão ver “O Mecanismo”, que é bom, diferente daquela porcaria chamada “Polícia Federal”, que todos já esqueceram. Mas não será a primeira nem a última vez que a arte se encarregará de se manifestar dentro de um período histórico. Seja para entender o momento, contar uma história comprovadamente tensa e dramática, ou somente para jogar lenha na fogueira.

”O Mecanismo” é série de TV, mas a intenção é a mesma. É mais uma chance para saber quem separa o joio do trigo e interpretará a série como… série. Seja você PSDB, PT ou, como eu, quer cadeia para todos. Ao invés de passar vergonha nas redes sociais dizendo que cancelará a assinatura da Netflix, que nem liga para isso, você pode apenas votar em seu candidato no mês de outubro. Que tal?

A série é o retorno do José Padilha de “Tropa de Elite”, que demorou muito para falar novamente sobre o Brasil, um país que precisa urgentemente de diretores talentosos que executem suas produções sem medo das grandes instituições e do próprio governo sujo que nunca vai mudar independente do partido que estiver no poder. “O Mecanismo” não ajudará a prender Fulano ou Beltrano, porque seu comprometimento é o de ser uma ótima série. E Padilha entregou isso.

Ele faz falta principalmente ao nosso cinema, mas não precisa carregar esse fardo, afinal não tem culpa em relação à falta de apoio aos filmes nacionais e aqui dependemos de incentivo fiscal para manter a regularidade da produção audiovisual. Padilha está atualmente em Los Angeles e é bom saber que o dinheiro investido em “O Mecanismo” é todo da Netflix, com distribuição garantida no mundo inteiro.

Mas não custa sonhar com novos filmes sobre o nosso país feitos por José Padilha, porque é onde reside sua verdadeira inspiração. Ainda que essas produções sejam bancadas pela Netflix, afinal é muito difícil levantar recursos para tocar um projeto aqui e, hoje, ele mesmo se considera um cineasta que não se vê mais obrigado a fazer longas no Brasil. Outro que precisa voltar o quanto antes, como dito lá em cima, é Fernando Meirelles. Porque o que eles fazem lá fora, outros também conseguem. Já aqui está difícil encontrar comparação.

Só uma reclamação: foi só comigo ou você também teve problemas para ouvir as falas dos personagens em “O Mecanismo”? Confesso que o áudio para mim estava longe do ideal e fui obrigado a colocar legendas para entender tudo.

One Comment »

  1. Paulo Ricardo 25 de março de 2018 às 10:03 PM -

    Não foi só contigo,também tive dificuldades com o áudio.Não gostei tanto da série quanto você,mas José Padilha é um autor que sempre merece nossa atenção.Inspirado ele é capa de entregar “Ônibus 174″ e “Tropa de Elite”,quando não está nos seus melhores dias ele faz o remake de “Robocop” e “O Mecanismo”

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