“Pantera Negra” | Crítica

Otavio Almeida 10 de março de 2018 0
“Pantera Negra” | Crítica

O FILME MAIS IMPORTANTE DA MARVEL

Por Otávio Almeida

Os filmes da Marvel são todos iguais? Chegou a hora de rever sua opinião agora que existe “Pantera Negra” (Black Panther, 2018). Não é apenas mais um dentro da tradicional fórmula do estúdio. É um filme relevante para o nosso tempo e os próximos anos que virão, afinal entretenimento pode ser sim coisa séria. E se a Marvel quiser, esse pode ser o ponto de virada para os filmes seguintes – de forma estabelecida, padronizada por um dos diretores mais promissores da atualidade.

Ryan Coogler, que nunca fez um filme ruim (“Fruitvale Station” e “Creed” estão aí para confirmar), une com maestria o melhor da máquina de Hollywood com questões importantes para refletir (e agir) em nome de um mundo que queremos ver. Em pauta, temos preconceito, radicalismo, violência e opressão contra minorias; como usar recursos naturais e financeiros com sabedoria para erradicar tudo isso – temas que dificilmente seriam os tópicos mais importantes de um filme do gênero, que consegue ser ao mesmo tempo divertido, reflexivo e engajador em relação às causas que deseja discutir e sua inegável posição como produto feito para lucrar. Nenhuma vertente aberta por Ryan Coogler é diluída em função da outra. Tudo é muito bem equlibrado.

Aliás parece que a Marvel ouviu/leu as críticas e, finalmente, entendeu o quanto a visão do diretor é essencial. Algo que já começou no filme anterior do estúdio, “Thor: Ragnarok”, que é a cara de seu realizador engraçadinho Taika Waititi. Em “Pantera Negra” Coogler está no controle total de seu ofício como contador de histórias e regente de uma orquestra montada com um orçamento gigantesco, transformando um produto de venda fácil em um conto bastante pessoal e capaz de se comunicar com milhões de pessoas.

O RESULTADO DE UMA LONGA LUTA

Falando em termos de cinemão comercial; ou seja, produções que realmente levam o público aos cinemas, esse movimento ganhou força lá atrás com a Ripley de Sigourney Weaver, em “Aliens: O Resgate”, e o Axel Foley de Eddie Murphy, em “Um Tira da Pesada”. Mas, infelizmente, a proposta foi ignorada com o tempo. Agora, temos um cenário sólido, graças a filmes de imenso apelo popular e produzidos um atrás do outro, como “Jogos Vorazes”, passando por “Mad Max: Estrada da Fúria”, “O Despertar da Força”, “Os Últimos Jedi” e “Atômica”. Foi tudo tão rápido que preconceituosos ou bolsomitos nem tiveram folga para assimilar. Quando finalmente entenderam, o plano de Hollywood já estava bem adiantado, com “Mulher-Maravilha” (da concorrente DC) e “Pantera Negra” como resultados dessa luta, que continua e não pode ser ignorada.

Mas não pense que o filme de Ryan Coogler é textão de Facebook. A mensagem é assimilada de maneira instantânea, porque usa o blockbuster como meio. E a mensagem não seria compreendida se “Pantera Negra” não fosse um filme espetacular.

O ESPETÁCULO ENGRANDECIDO PELA RELEVÂNCIA

E o que entendemos como espetáculo? Por um bom tempo, a Marvel achou que bastava ter ação, personagens carismáticos e muita, muita piada. Ok, estou reduzindo de forma preguiçosa o trabalho incrível e muito bem planejado de 10 anos do estúdio desde que “Homem de Ferro” tomou os cinemas de assalto. Mas é nesse filme estrelado por Robert Downey Jr que quero chegar.

Hoje, o mesmo “Homem de Ferro” não funcionaria. Ora, temos um bilionário que vende armas de destruição em massa a quem pagar mais, trata mal as mulheres e, voilà, ganha uma segunda chance. Ele até desiste de lucrar com a indústria armamentista, mas segue arrogante com muita e desprezível com as mulheres. Então, como amar o Tony Stark de 2008 vendo o filme hoje pela primeira vez? Difícil, não? Basta reparar como o personagem continua divertido, excêntrico, e não mais arrogante, porém com atitudes devidamente atualizadas para uma década mais tarde. Não me diga que ele apenas amadureceu, porque estamos falando de Tony Stark, certo?

E esse é o padrão que tem em “Pantera Negra” seu representante máximo. Propondo um novo mundo que podemos construir juntos com o cinema, que está ciente de sua responsabilidade como influenciador. Uma vez relevante para os dias atuais, o filme de Ryan Coogler se torna mais envolvente, abrangente e, eu acrescentaria, universal. Assim, o espetáculo que tem ação, correria, explosões, uma trilha excepcional, incluindo as músicas de Kendrick Lamar, além de lutas, heróis, vilões e efeitos visuais; tudo isso ganha em dramaticidade.

Sem falar que Ryan Coogler se apoia na estrutura do roteiro de “O Rei Leão” para contar sobre a ascensão do príncipe T’Challa (o grande Chadwick Boseman) ao trono da fictícia Wakanda, que, na verdade, é uma metáfora para o continente africano e o ponto de partida para a saga histórica de muita gente que continua por lá e também se espalhou pelo planeta com muito suor, sangue, sofrimento, esperança e luta. E ficamos muito tranquilos quando a base de um filme é “O Rei Leão” (não se preocupe, porque não é exatamente o mesmo roteiro).

Coogler tem tempo para pontuar tópicos importantes para a sociedade. O que o continente africano faria com o mundo se tivesse os recursos de Wakanda? Temos dois personagens no filme que representam muita gente e se dividem em duas frentes: ajudar os oprimidos ou massacrar os opressores? Eis a questão. Isso também serve para outros contextos que podem ser facilmente associados às falhas e grosserias do governo Trump ou qualquer outro regido por idiotas mundo afora. Ryan Coogler conta a história de T’Challa, mas dá a mesma importância (ou talvez até mais) às mulheres que o cercam. Temos quatro personagens femininas riquíssimas e todas muito bem desenvolvidas na trama – uma delas é cientista, um papel que geralmente cabe aos homens. Ela chega até em certo momento a ser uma espécie de Q, o especiaista em gadgets que mostra a James Bond os brinquedinhos que ele usará em sua missão.

Mas Coogler também tem tempo para ser artista. Não estou falando da pancadaria que é filmada sem cortes em determinado momento no primeiro ato do filme. Nem vou entrar muito em detalhes para não dar spoilers, mas atenção para duas cenas de luta sensacionais entre dois oponentes. Repare que a primeira delas é realizada logo após o nascer do sol, o que dá certa vantagem a T’Challa, enquando a segunda, com o pôr-do-sol como cenário, torna-se obviamente muito mais dramática.

O diretor também quebra algumas regras. Principalmente em relação ao vilão da história, que tem motivações reais e tão compreensíveis que chegam a influenciar positivamente o herói em sua jornada.

A fórmula da Marvel está lá? Sem dúvida. Mas finalmente evolui personagens (e não “corrige” um ou outro, como foi o caso de Stark), deixando para trás um velho cacoete do estúdio que é manter inalterável qualquer traço da personalidade de cada herói desde seus primeiros filmes até este momento de suas trajetórias.

E poucas vezes o cinema de entretenimento aplicou seus vícios de forma tão habilidosa dentro de um contexto forte e em total sintonia com a nossa realidade do modo como faz “Pantera Negra”. O cinema não precisa ser sempre, mas pode ser divertido. Mas o escapismo não pode fugir demais do mundo em que vivemos. Coogler mostrou a importância disso e elevou o nível não somente para a concorrência, mas para os filmes da Marvel que estão a caminho.

VEJA O TRAILER:

Pantera Negra (Black Panther, 2018)
Direção: Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler e Joe Robert Cole
Elenco: Chadwick Boseman, Lupita Nyong’o, Michael B. Jordan, Danai Gurira, Martin Freeman, Andy Serkis, Daniel Kaluuya, Letitia Wright, Sterling K. Brown, Forest Whitaker, Angela Basset, Winston Duke
Duração: 2h14

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