2001 faz 50: Como Stanley Kubrick sonhou o futuro do cinema e da humanidade

Otavio Almeida 3 de abril de 2018 0
2001 faz 50: Como Stanley Kubrick sonhou o futuro do cinema e da humanidade

Cinco décadas de uma obra-prima que jamais será igualada ou superada

Por Otávio Almeida

Eu era menino quando vi “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Nenhum filme havia me desafiado tanto até aquele momento e sei que não estava pronto nem tinha a menor noção da grandeza de Stanley Kubrick e de sua ambição em relação ao quanto seu filme poderia ir longe. Levei 3 dias para terminar “2001” e encarei numa tacada só na 1ª revisão. Foi quando entendi que filmes não precisam ser entendidos, mas sentidos.

Foi um filme à frente do seu tempo para aquele garoto e permanece na vanguarda toda vez que revejo. É o filme que não dá para entender inteiramente que vira uma obra-prima insuperável quando tentam colocá-lo em pé de igualdade com todo e qualquer filme que confunde a cabeça do espectador com seus finais abertos e abstratos. Perto da maturidade e a genialidade de Stanley Kubrick no domínio de sua arte, o talentoso David Lynch parece um moleque brincando de cinema.

“2001” foi incomparável em 1968 e continua assim 50 anos depois. Poucos exemplares da ficção científica que desafiaram o espaço sideral não foram comparados a “2001”, com “Star Wars: Uma Nova Esperança” e “Alien: O Oitavo Passageiro” entre eles. Pelo simples fato de que miraram suas respectivas originalidades em alvos distintos, George Lucas com a fantasia e Ridley Scott com o terror. Por isso influenciaram e foram copiados provavelmente na mesma proporção. Também podemos citar “Star Trek” como outra execução que gerou escola, mas Gene Roddenberry criou uma série que foi para a TV antes do filme de Kubrick e ganhou as telas do cinema somente anos depois de “2001”.

De 1968 para cá, o clássico de Stanley Kubrick inspirou diversos contadores de histórias de diferentes mídias. No cinema, condenou a inevitáveis comparações qualquer filme que ousou levantar voo para o espaço e tentou fazer mistério ou filosofar sobre de onde viemos ou para onde vamos. Isso não quer dizer que todos esses filmes são ruins ou decepcionantes. Bom, alguns são, afinal a barra havia sido elevada bem lá no alto. Mas temos “Solaris”, o “2001” russo de Andrei Tarkovski, “Contato”, o “2001” de Robert Zemeckis, “Interestelar”, o “2001” de Christopher Nolan, entre tantos outros. Note que nenhum dos filmes citados tentou copiar a obra de Kubrick. Mas todos se inspiraram nela. Quando não pelo conteúdo, a comparação vinha através de um enquadramento ou pelo uso dos efeitos visuais ou da trilha sonora. Neste ponto, não devemos excluir a influência que teve em “Star Wars”, “Alien” e “Star Trek” ou em produções que focaram na realidade e deixaram de lado qualquer vislumbre do futuro e dúvidas existenciais, como “Apollo 13”, “Os Eleitos” e “Gravidade”. É como se Stanley Kubrick tivesse ido ao espaço antes de qualquer cineasta (não foi), ofuscando todos que foram lá pra cima em eras anteriores do cinema.

Não precisamos viajar tanto, porque “2001” influenciou em estilo e conteúdo filmes que contaram histórias passadas no planeta Terra, como “Matrix”, “A.I.: Inteligência Artificial”, “A Origem” ou qualquer produção com pouquíssimos diálogos e confiando a narrativa na junção entre imagem, música e som. Aliás, talvez seja o motivo pelo qual Hollywood não se interesse por filmes sobre homens das cavernas, tirando animações, “A Guerra do Fogo”, de Jean-Jacques Annaud, e aquela porcaria “10.000 ac”, de Roland Emmerich, afinal somente os primeiros minutos de “2001”, conhecidos como “A Aurora do Homem”, representam o filme definitivo sobre a Idade da Pedra.

Foi nesse cenário que Kubrick convidou o monolito negro para conhecer o Homem pela primeira vez. Uma introdução que é menos importante que a transição mais famosa já feita numa sala de montagem, emendando o frame do primata jogando para cima um osso que faz a linha do tempo pular para a conquista do espaço.

Mas o que diabos é o monolito negro? Seria um objeto extraterrestre ou um alienígena estudando a humanidade? Seria Deus? Ou um de seus emissários ou objetos mágicos julgando a nossa história exatamente nos momentos em que damos grandes saltos na evolução? No caso de “2001”, ultrapassamos nossas próprias barreiras com a descoberta não do fogo, mas da arma e, depois disso, o céu foi o limite. O passo seguinte consistiu numa viagem ao infinito e além dos lugares mais distantes e obscuros do universo. Mas o que tem lá? Para Kubrick, o desconhecido, afinal nunca estivemos tão longe. Para ele, seria como decifrar o que acontece quando morremos e, talvez, com o direito de renascer como uma estrela ou um ser evoluído. Quem sabe? E quando ao computador HAL 9000? Ele é mau? Ou apenas adquire “consciência” e se torna mais humano? Quem sabe?

Talvez Arthur C. Clarke, autor do livro que originou o filme. Ele também assinou o roteiro para Kubrick e afirmou que se alguém neste mundo garantir que entendeu “2001”, isso significaria o fracasso desses dois visionários.

Com um ritmo lento, respeitando as leis do espaço até onde o conhecemos, Kubrick quebrou as regras do cinema tradicional com uma produção que levanta perguntas e quase nenhuma resposta. Parece tão simples, não? Porque é uma das razões que garantem a vida eterna de “2001”, filme que permanece atual mesmo após cinco décadas. Existem outros pontos, claro, como o uso da música clássica, que jamais envelhece e sobrevive fora do filme levando à memória muito mais “2001” que a própria sinfonia. Repare como a música em “2001” é perfeita para acompanhar a lentidão dos movimentos de naves e pessoas em um filme praticamente mudo. Personagens entram e saem da tela e conversam entre si somente pelo fato que pessoas conversam. Ou, então, “2001” nem teria falas. Repare como o único personagem com discursos humanos é o computador HAL 9000.

Talvez Kubrick tenha feito o filme mais importante da história do cinema em que os efeitos visuais são mais importantes que atores/personagens. É a tecnologia de 1968, o que hoje entendemos mais que nunca como efeitos práticos e, por isso mesmo, não me perguntem como, mas os truques de “2001”, que renderam a Kubrick seu único Oscar, funcionam e convencem até hoje. Mas é parte do show, porque tudo nesse filme é um mistério indecifrável que o cinema ainda tenta igualar ou superar.

Talvez o segredo da nossa existência esteja em algum lugar dentro de “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Mas, certamente, o futuro do cinema foi vislumbrado quando o filme de Stanley Kubrick chegou às telas em abril de 1968.

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