Ao Mestre Milos Forman

Otavio Almeida 18 de abril de 2018 5
Ao Mestre Milos Forman

Os anos 70 em Hollywood foram marcados por um grande boom criativo. A indústria estava indo para o buraco até que George Lucas e Steven Spielberg reinventaram o conceito de diversão no cinema e o que viria a ser chamado de blockbuster. O lado financeiro havia encontrado uma solução, mas a explosão genial de criatividade também vista em Lucas e Spielberg foi complementada por outros nomes que se consagraram na época, como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Brian De Palma e Woody Allen entre alguns que haviam feito filmes excelentes na década anterior e entregaram como esperado no mesmo período. Neste caso, podemos citar Stanley Kubrick, Robert Altman e Sidney Lumet. Mas raramente colocamos o tcheco Milos Forman nessa lista.

Para corrigir essa injustiça, vamos relembrar que “O Baile dos Bombeiros” é tido como um dos melhores filmes tchecos de todos os tempos. Mas Forman se fez de fato no cinema americano. Foi nada mais, nada menos que o diretor de “Um Estranho no Ninho”, um símbolo da contracultura nos anos 70 e a primeira produção (a outra foi “O Silêncio dos Inocentes”) a conquistar os 5 Oscars principais: filme, direção, ator, atriz e roteiro (adaptado).

O clássico protagonizado por Jack Nicholson – talvez em seu papel mais famoso ao lado de “Chinatown” – apresentou ao mundo o que Milos Forman queria contar en seus filmes: o embate entre o indivíduo e as instituições.

E ninguém fez filmes sobre “estranhos no ninho” melhor que ele. Mozart (Tom Hulce) foi um deles em “Amadeus”, assim como Saliere (F. Murray Abraham), o verdadeiro protagonista do filme que rendeu a Milos Forman seu segundo Oscar. “Hair”, “O Mundo de Andy” e “O Povo Contra Larry Flynt”, um dos melhores filmes dos anos 90, também contavam histórias de estranhos no ninho provocando o american way of life, o puritanismo, os certinhos, a família branca, cristã, conservadora e de extrema direita.

Veja o caso de “O Povo Contra Larry Flynt”. Mais de 20 anos depois, as atitudes do personagem de Woody Harrelson continuam assustando muita gente. A sociedade ainda não aceita certos tabus e um homem “desprezível” e de “boca suja” não é exatamente o modelo que a elite com dinheiro para ir ao cinema quer seguir ou ver na luta por um bem maior – no caso deste filme, a liberdade de expressão. Mas para o inferno com o conservadorismo! E é disso que Milos Forman entende muito bem. Seus protagonistas enfrentam críticas e repressões de uma sociedade que ainda não alcançou a maturidade em matéria de raciocínio. No fim, o cinema de Forman também está falando de evolução política e social.

Forman foi grande, mas as pessoas geralmente lembram muito mais de seus filmes que do próprio realizador. Ok, normalmente é assim. Mas não costumamos dizer Forman como falamos Spielberg, Kubrick, Scorsese ou Coppola. Injusto, porque sua obra ecoa de maneira atemporal. “Um Estranho no Ninho” é de alma teatral e se passa praticamente em um cenário só, dentro de um hospício. Fez filmes situados em um determinado período histórico, como “Amadeus” e “O Povo Contra Larry Flynt”, para discutir seus temas favoritos que jamais se tornam ultrapassados ou falham no diálogo com novas gerações. E ao contrário da onda do cinema de hoje, os filmes de Forman não lembram apanhados de outros longas. Eles lembram filmes de Milos Forman.

Obra que influencia e gera comparações. “Milk”, que deu o segundo Oscar de Melhor Ator a Sean Penn em 2009, foi dirigido por Gus Van Sant, mas poderia muito bem ser um filme de Milos Forman. O roteiro de Dustin Lance Blank, que ganhou um Oscar, cairia como uma luva nas mãos do cineasta tcheco, mas Gus Van Sant extraiu das entranhas do texto provocador a essência de sua vocação para se manifestar como expoente da contracultura, como Forman gostava, e entregou na saga de Harvey Milk um de seus melhores filmes. Talvez o melhor.

Um detalhe curioso, mas importante a respeito da filmografia de Milos Forman, que nunca entenderei e não quero que ninguém me explique. Em “Um Estranho no Ninho”, Jack Nicholson arromba uma porta para testemunharmos o suicídio de um paciente. Em “O Povo Contra Larry Flynt”, Woody Harrelson entra desesperado no banheiro onde jaz outra vítima de suicídio. No início de “Amadeus”, empregados da casa de Salieri arrombam uma porta para ver o patrão cortando a própria garganta. Será que Milos Forman é atormentado por uma imagem de suicídio? Ou seria o fim da linha para aqueles que admiram, invejam ou, de vez em quando, odeiam os protagonistas do diretor e não conseguem acompanhá-los em vida? Pode não ser nada disso, mas certamente Forman é um dos maiores diretores estudiosos de artistas reais, seus seguidores, e o senso de crítica social em ambas as partes.

5 Comentários »

  1. Paulo Ricardo 18 de abril de 2018 às 8:27 PM -

    Lindo texto amigo! Eu sei o quanto você gostava dos filmes dele.Milos Forman para sempre eterno nos corações dos cinéfilos.

  2. Otávio Almeida 19 de abril de 2018 às 2:18 PM -

    Tks, my friend!

  3. Lima 21 de abril de 2018 às 10:59 AM -

    lindo texto este. o que espera do novo Von trier within matt dillon?

  4. Otavio Almeida 23 de abril de 2018 às 11:57 AM -

    Obrigado, Lima!
    Sobre o novo do Lars Von Trier, acho que irá corresponder às expectativas dos fãs. Tem tudo pra isso. Abs!

  5. Vinícius 7 de maio de 2018 às 9:53 AM -

    Forman quase sempre foi refinado na forma, Otávio, mas nem sempre no conteúdo. Acho “Amadeus” excelente (talvez seu melhor filme), mas continuo achando “Um Estranho no Ninho” superestimado, ainda que um bom filme.

    PS: muito boa sua observação no último parágrafo! Parabéns!

Deixe seu comentário »