“Com Amor, Simon” | Crítica

Otavio Almeida 10 de abril de 2018 0
“Com Amor, Simon” | Crítica

Se John Hughes estivesse vivo, ele faria um filme assim ou, no mínimo, o aprovaria

Por Otávio Almeida

Três boas verdades podem ficar com você ao término de “Com Amor, Simon” (Love, Simon, 2018): 1) o cinema pode e deve contar qualquer história e sobre qualquer pessoa, 2) finalmente um filme americano mainstream com um protagonista assumidamente gay, e 3) John Hughes era um gênio e faz muita falta.

Com filmes como “Clube dos Cinco” e “Curtindo a Vida Adoidado”, Hughes criou um gênero involuntário no início dos anos 80. Pela primeira vez, Hollywood olhava com leveza, e também sinceridade, para adolescentes e seus problemas, desejos, amores e diversões dentro e fora da escola. Convidou espectadores de todas as idades para a brincadeira na mesma proporção em que pedia para adultos entenderem seus filhos e como qualidades e defeitos passam de geração para geração. Se o saudoso Hughes estivesse vivo nesses dias de hoje, em que nunca se discutiu tanto a questão da representatividade, ele certamente faria um filme semelhante a “Com Amor, Simon”. Ou, no mínimo, o aprovaria com louvor.

Mas como toda fórmula, Hollywood desgastou os ensinamentos do bom e velho John Hughes e comédias românticas sobre e com adolescentes ficaram cada vez mais vazias, idiotas e entregues a soluções apelativas tanto para fazer rir quanto gerar lágrimas. Felizmente, alguém aparece volta e meia para resgatar a essência do que fez um tipo de filme tão adorado e popular. E isso serve para qualquer gênero.

No caso do diretor Greg Berlanti, que é um aluno aplicado do professor John Hughes, afinal está por trás de séries como “Dawson’s Creek” e “Riverdale”, ele se recupera da última incursão cinematográfica (a bomba “Juntos Pelo Acaso”) ao relembrar como se faz, mantendo vivo e dando fôlego renovado ao espírito de “Gatinhas e Gatões” e “A Garota de Rosa Shocking” (esse aqui uma produção de Hughes), além de longas daquela época influenciados pela obra do lendário diretor, como “Digam o que Quiserem” e, principalmente, “Admiradora Secreta”, que tem muito de “Com Amor, Simon” (substituindo as velhas cartas pela comunicação via e-mail).

Mas são apenas inspirações, porque “Com Amor, Simon” tem identidade própria e não copia estruturas de roteiros de filmes que já vimos tantas vezes. Baseado no livro “Simon vs A Agenda Homo Sapiens”, de Becky Albertalli, o filme acompanha o adolescente Simon Spier (Nick Robinson, de “Jurassic World”) tentando decidir se assume ou não sua homossexualidade.

Esqueça a cena inicial que quase joga no lixo o discurso do protagonista sobre ser igual a qualquer um de nós. Embora ele esteja falando de outra coisa, Berlanti ilustra esse pensamento enquanto mostra o garoto ganhando um carrão do pai no jardim de uma casa gigantesca. Ok, John Hughes também retratava jovens de classe média alta para cima, mas “Com Amor, Simon” é um filme de uma época diferente e seus realizadores deveriam saber que inclusão envolve situação financeira.

Foi um péssimo jeito de abrir um bom filme, mas tudo bem, porque Berlanti dá sequência ao discurso demonstrando momentos do dia a dia de fácil identificação tanto para os jovens de hoje quanto para quem já viveu os anos dourados. Tirando esse lapso, “Com Amor, Simon” é simpático até a última cena com todos os prós e exageros desse estilo de filme, incluindo nesse pacote uma bela trilha pop que gruda como chiclete para honrar o legado, embora jamais seja um longa nostálgico. Muito pelo contrário, porque pode ser filho legítimo de John Hughes, mas com plena consciência de que está nas primeiras décadas do século 21.

Algumas pessoas reclamam que “Com Amor, Simon” deveria ser mais subversivo e menos politicamente correto. Mas quem determinou a regra que filmes sobre “saída do armário” precisam chocar? Por que não podem contar várias histórias diferentes, inclusive aquelas que tradicionalmente o cinema fingia que mulheres e homens jamais se apaixonam e vivem românticos contos de fadas com pessoas do mesmo sexo? Ora, quem disse que não pode ser convencional? Não queremos dizer aos nossos filhos que somos todos iguais? Não é essa a proposta de um filme comercial como este? O importante é que exista uma variedade de filmes como “Brokeback Mountain”, “Moonlight”, “Me Chame Pelo Seu Nome” e, sim, “Com Amor, Simon”. Estamos evoluindo mostrando e aceitando que qualquer roteiro e gênero de filme podem trabalhar a representatividade. Às vezes teremos grandes filmes, outros ruins e aqueles que se contentam em compartilhar simpatia e deixar um sorriso no rosto. Mesmo que vire futuramente uma deliciosa “Sessão da Tarde” para mentes mais esclarecidas. Falo da atração global ou qualquer reunião entre amigos e parentes na frente da TV durante uma tarde chuvosa. Se “Com Amor, Simon” chegar lá, terá cumprido seu papel muito bem.

VEJA O TRAILER:

Com Amor, Simon (Love, Simon, 2018)
Direção: Greg Berlanti
Roteiro: Elizabeth Berger e Isaac Aptaker (baseado no livro de Becky Albertalli)
Elenco: Nick Robinson, Jennifer Garner, Josh Duhamel, Katherine Langford, Alexandra Shipp, Logan Miller, Keiynan Lonsdale, Jorge Lendeborg Jr., Talitha Eliana Bateman
Duração: 1h50
Distribuição: Fox

Deixe seu comentário »