“Vingadores: Guerra Infinita” | Crítica

Otavio Almeida 26 de abril de 2018 3
“Vingadores: Guerra Infinita” | Crítica

Desesperador e ousado, filme dos Irmãos Russo é uma experiência única e extraordinária que mudará o Universo Marvel para sempre

Por Otávio Almeida

De vez em quando o cinema pode ser grandioso, gigantesco, espetacular. Geralmente, essa ambição é sentença de morte para muitas superproduções caríssimas, mas não desta vez. Os primeiros 10 anos da Marvel Studios chegam ao inevitável clímax em “Vingadores: Guerra Infinita” (Avengers: Infinity War, 2018). O filme reúne (quase) todos os heróis apresentados nos últimos 18 filmes desde “Homem de Ferro”, de 2008, contra o vilão mais poderoso desse universo, Thanos (Josh Brolin excelente).

São duas e horas e meia que passam voando e não dão a mínima para a tradicional estrutura em três atos. Digamos que nossos heróis estão em cena apenas para reagir a situações ininterruptas de perigo em diferentes núcleos liderados pelos principais nomes do elenco nessa primeira década de história: Homem de Ferro (Robert Downey Jr., mais uma vez dando um show), Capitão América (Chris Evans mais sisudo que habitualmente devido aos fatos ocorridos nos filmes anteriores) e Thor (Chris Hemsworth menos engraçado que em “Thor: Ragnarok”, resgatando um pouco da nobreza do personagem e talvez na melhor atuação de sua carreira).

Cada núcleo respeita tons e origens de diferentes filmes e personagens. Por exemplo, quando os diretores Anthony e Joe Russo mudam a ação de uma sequência tensa com Homem de Ferro e Doutor Estranho para acompanhar o que está acontecendo com os Guardiões da Galáxia, tudo fica mais leve e bem-humorado. É incrível que essa junção seja muito bem feita e um milagre como os cineastas – ao lado dos roteiristas Christopher Markus e Stephen McFelly, e os montadores Jeffrey Ford e Matthew Schmidt – conseguiram isso, além de dar voz e espaço para praticamente todos os personagens sem deixar o ritmo cair. Obviamente, uma produção dessa escala sempre sacrifica alguém com menos tempo em cena, mas acredito que isso será justificado em “Vingadores 4”.

Ainda sobre a estrutura, “Guerra Infinita” não enrola e é um turbilhão de emoções – você ri, chora, vibra, sente raiva, medo. E quando você pensa que os irmãos Russo pisarão no freio para refletir, deixar a plateia respirar e desenvolver personagens, surge do nada alguma ameaça e o pau come de forma intensa e desesperadora. Não que o filme seja 100% um longo terceiro ato como “Mad Max: Estrada da Fúria”, “Gravidade” e “Dunkirk”. Mas é tudo muito rápido. Há uma sensação de urgência no ar; um perigo, um medo que os Vingadores (e seus fãs) ainda não haviam experimentado. Antes, principalmente em “Vingadores: Era de Ultron”, eles sentiam que a parada seria resolvida a qualquer hora, como time de futebol de nariz empinado, que acredita que se ganha jogo só por causa da camisa. Nos filmes dos Vingadores, eles não se levavam a sério e brincavam o tempo todo em ação. Aqui, não. É como se esperassem pela morte inevitável, restando apenas resistir bravamente.

Porque Thanos é um titã maníaco, um conquistador que viaja de planeta a planeta buscando eliminar metade das populações em busca de um “equilíbrio” perfeito. E se juntar as seis Joias do Infinito, que tanto procura, ele será capaz de evaporar metade do Universo simplesmente estalando os dedos.

Quando “Vingadores: Guerra Infinita” começa, Thanos e sua guarda, a Ordem Negra, já está em cena e chutando a porta exatamente de onde terminou “Thor: Ragnarok” e provando que ninguém está seguro neste filme. Ainda tem o humor característico (nos momentos certos), mas é o desespero que toma conta da tela. E há tempos que não vejo um filme em que os vilões são tão ameaçadores e transmitem tal sensação de maneira honesta e imersiva. Sofremos pelos heróis em todas as entradas de Thanos em cena, assim como de cada integrante da Ordem Negra (um deles, age como um porta-voz do titã e gela a espinha do espectador falando com sua voz fina e calma).

Para não pegar o bonde andando, ajuda muito ter assistido a todos os filmes da saga até aqui, em especial “Thor: Ragnarok”, “Doutor Estranho” (saiba de uma vez por todas que ele não entrou na história por acaso), “Capitão América: Guerra Civil”, “Pantera Negra”, “Os Vingadores” (o primeiro) e os dois “Guardiões da Galáxia”. Não para entender a trama de “Guerra Infinita”, mas para entender certos recursos e soluções utilizadas por heróis e vilões. Não para deixar de lado qualquer cobrança dos irmãos Russo em desenvolver personagens; curiosamente uma reclamação nos filmes da Marvel que não costuma transformar seus personagens, porque suas personalidades permanecem as mesmas apesar de uma jornada de vitórias, derrotas, alegrias e tristezas. Agora não. Todos eles estão devidamente mudados, afinal ninguém consegue ser a mesma pessoa de 10 anos atrás. E isso está finalmente muito claro na tela. Mas o que é realmente importante em ver ou rever todos os filmes da série é a noção do que significa o verdadeiro protagonista de “Guerra Infinita”.

Sim, estamos falando de Thanos. O filme não é sobre os Vingadores, porque já vimos isso. É a jornada, o arco dramático, o plano de Thanos em busca das Joias do Infinito que interessa. Os Vingadores estão ali somente para atrasá-lo, embora representem o maior desafio que o vilão já enfrentou. É uma decisão narrativa ousada, mas muito bem-vinda nos filmes da Marvel e até mesmo nos blockbusters em geral. Depois de Thanos, esses filmes não serão os mesmos; dentro e fora da Marvel, porque o nível da barra de exigência para um vilão acaba de aumentar.

Ok, tudo será concluído em “Vingadores 4”, que estreia ano que vem, mas quem achava que o estúdio não assumia riscos (eu era um deles) ficará boquiaberto em muitas cenas. O produtor Kevin Feige e sua equipe estão confiantes demais no próprio produto e ninguém será capaz de pará-los. Nada, absolutamente nada preparou você para o que acontece neste filme, que é uma experiência cinematográfica única e extraordinária, especialmente em sua meia hora final. Antes, quando nos deparávamos com um gancho inesperado em um filme do meio de uma saga, “O Império Contra-Ataca” era sempre citado como comparação. Mas isso acabou. Prepare-se, porque de agora em diante esse filme será “Vingadores: Guerra Infinita”. Apenas segure firme na cadeira e traga de volta seu queixo esparramado no chão quando os créditos finais começarem a rolar.

VEJA O TRAILER:

Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War, 2018)
Direção: Anthony Russo e Joe Russo
Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely
Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Chris Hemsworth, Benedict Cumberbatch, Scarlett Johansson, Mark Ruffalo, Chadwick Boseman, Tom Holland, Benedict Wong, Don Cheadle, Sebastian Stan, Anthony Mackie, Josh Brolin, Tom Hiddleston, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Letitia Wright, Danai Gurira, Winston Duke, Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Pom Klementieff, Karen Gillan, Paul Rudd, Linda Cardellini, Bradley Cooper, Vin Diesel, Carrie Coon, Peter Dinklage, Terry Notary, Benicio del Toro, Gwyneth Paltrow
Duração: 2h29
Distribuição: Disney

3 Comentários »

  1. Vinícius 5 de maio de 2018 às 7:45 PM -

    O filme ser sobre Thanos é a grande sacada mesmo, Otávio. E há grandes cenas dos Russo, principalmente aquelas que se passam em ambientes mais fechados. Incrível como conseguiram.

  2. Otávio Almeida 11 de maio de 2018 às 11:43 PM -

    Interessante sua observação sobre cenas em ambientes mais fechados, Vinicius. Qual é a sua favorita?

  3. Vinícius 21 de maio de 2018 às 12:40 AM -

    As cenas envolvendo a Feiticeira Escarlate me chamaram mais atenção – as primeiras principalmente, Otávio. Talvez por ser uma personagem secundária, eles ousaram mais.

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