O sucesso que “Pantera Negra” merece

Otavio Almeida 7 de abril de 2018 0
O sucesso que “Pantera Negra” merece

Diziam que a Marvel Studios estava sempre de brincadeira (o Hollywoodiano foi um deles), e que o chefão Kevin Feige e sua equipe não levavam seus filmes e os próprios fãs a sério. Não ousavam, jamais saiam do território seguro, diluindo situações criadas para o drama em alívios cômicos. Como se dissessem ao público: “ei, isso é só diversão”.

Foi preciso percorrer uma longa estrada de 10 anos, aprender com os próprios erros, ouvir a voz do povo e entender que filme de entretenimento também pode ser importante pela relevância com a época em que vivemos. A verdade é que nunca se falou tanto em representatividade no cinema e 1) Ou a Marvel virou a chave ou 2) Provou que realmente tinha um plano até “Pantera Negra”, filme sobre o grande herói negro da editora, mas que nunca foi tão popular quanto o Homem-Aranha. Ok, eram outros tempos, afinal a maioria branca entre os leitores não deixaria a Marvel lucrar se o Pantera Negra tivesse sido pensado como o maior astro dos Vingadores.

Hoje as coisas estão diferentes. O estúdio ficou tão confiante, tão seguro de seu produto após 10 anos que entregou a direção de “Pantera Negra” a um cineasta negro; simplesmente um dos diretores mais talentosos que surgiram na década. Além disso, Ryan Coogler, que assinou anteriormente “Fruitvale Station” e “Creed”, teve a liberdade criativa que a Marvel não cedia aos seus diretores. Lembram da crise com Edgar Wright e “Homem-Formiga”?

Um pouco antes de Coogler, Taika Waititi, um mestre da comédia atual, não precisou mudar para se adaptar a “Thor: Ragnarok”. Foi a Marvel que se adaptou ao seu estilo. O mesmo serve para “Pantera Negra” e os filmes dos irmãos Anthony e Joe Russo (Capitão América: Soldado Invernal, Capitão América: Guerra Civil e, possivelmente, Vingadores: Guerra Infinita).

Coogler fez de “Pantera Negra” o que ninguém esperava: uma obra relevante. Cumpre seu papel dentro do universo estabelecido pelo estúdio, entrega a diversão que o público-alvo sempre procura, tem suas piadas, mas consegue injetar aquela carga dramática que os filmes da Marvel tanto precisavam. Sobretudo, mostra que diversidade é importante, discute o sofrimento das minorias e bate no racismo não de forma militante, mas equilibrando na balança e analisando dois caminhos: as diferenças entre a vontade de se vingar dos brancos vs a chance dar o exemplo em nome de um mundo melhor (leia mais sobre isso na crítica do Hollywoodiano). E existe forma mais inteligente de contra-atacar que dando o exemplo principalmente às crianças que dominarão o mundo em breve?

Eu disse isso tudo para reafirmar que “Pantera Negra” é um raro filme que merece o sucesso que está fazendo. Não somente na aprovação de público e crítica. Mas por quebrar recordes: acabou de superar a bilheteria de “Titanic” nos EUA, ficando atrás apenas de “Star Wars: O Despertar da Força” e “Avatar”. Recordes que envolvem a derrubada de muros pelo fato de ser o primeiro filme a passar em exibição pública na Arábia Saudita, depois de uma proibição fechar as salas de cinema por 35 anos no país. Recordes que podem parar no Oscar 2019, tornando-se o primeiro longa de super-herói indicado à estatueta de Melhor Filme, como prevê Christopher Nolan, diretor nada mais, nada menos do melhor filme do gênero, “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, única produção baseada em quadrinhos a ganhar um dos Oscars principais – no caso, o de Melhor Ator Coadjuvante para Heath Ledger, embora “O Cavaleiro das Trevas” não tenha emplacado indicações como Melhor Filme e Melhor Direção. Este ano, “Logan” conseguiu uma indicação a Melhor Roteiro Adaptado.

E “Pantera Negra” ainda continuará em evidência, porque deve seguir em cartaz mesmo com a estreia de “Vingadores: Guerra Infinita”, que por sua vez conta com a presença do personagem. O filme de Ryan Coogler também será lançado em breve nos formatos Blu-ray, DVD e streaming assessorado por uma provável e forte campanha da Disney nos próximos meses para o buzz das principais premiações de Hollywood, que começam a acender o fogo no segundo semestre. Como “Pantera Negra” ensina, nada é impossível, vivemos novos tempos e essa é a hora de mudar, inclusive a percepção da Academia quanto aos filmes do gênero.

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