Os Irmãos Russo: existe vida fora da Marvel?

Otavio Almeida 25 de abril de 2018 1
Os Irmãos Russo: existe vida fora da Marvel?

Não faz muito tempo que os irmãos Anthony e Joe Russo dirigiam episódios de séries divertidíssimas da TV, como “Arrested Development” e “Community”. Eles tiveram algumas chances no cinema durante a década passada com “Tudo por um Segredo”, de 2002, estrelado por William H. Macy, George Clooney e Sam Rockwell, e “Dois é Bom, Três é Demais”, lançado em 2006 com Owen Wilson, Kate Hudson e Matt Dillon no elenco. Mas vamos admitir que são comédias sem a mesma graça e zero de carisma em relação aos consagrados trabalhos dos diretores na televisão.

As coisas começaram a mudar com o inesperado convite da Marvel para a direção de “Capitão América: Soldado Invernal”, de 2014. Surpreendente porque o estúdio era acusado até então de podar a liberdade criativa de seus diretores e estávamos exatamente na época em que Marvel e Edgar Wright se desentenderam na produção de “Homem-Formiga”. Mas há males que vêm para o bem. Todos refletiram, Wright saiu e fez o excelente “Baby Driver”, o pouco conhecido James Gunn entregou “Guardiões da Galáxia” com a sua cara, enquanto Anthony e Joe Russo mostraram que são diretores que entendem e priorizam o tom do roteiro que têm em mãos. Fizeram de “Capitão América: Soldado Invernal” o filme mais ousado do estúdio até aquele momento. Com uma montagem e uma fotografia nervosas e uma tensão insuportável no ar deixando a impressão que as coisas podem dar errado a qualquer minuto para o herói interpretado por Chris Evans, o filme de espionagem disfarçado de adaptação de história em quadrinhos sobrevive como um dos três melhores do estúdio até aqui. Ou seja, desde que seus diretores cumpram o plano estabelecido pela Marvel para a série do início ao fim, ao que parece eles podem ficar à vontade para trabalhar tom e estilo. É só observar os resultados de “Thor: Ragnarok” e “Pantera Negra”, que têm as personalidades de seus diretores (Taika Waititi e Ryan Coogler).

Foi nesse momento positivo que Anthony e Joe Russo entraram pela porta da frente de Hollywood. Continuaram com essa pegada em “Capitão América: Guerra Civil”, que é praticamente um filme dos Vingadores e habilitou a dupla para comandar a produção mais ambiciosa do estúdio, “Vingadores: Guerra Infinita”, o ápice (junto com “Vingadores 4”, que estreia ano que vem) da primeira década da Marvel no cinema.

Se continuarem assim, provavelmente entrarão em breve para a lista dos 10 diretores mais lucrativos da indústria, afinal alguns deles estão lá (veja aqui) graças a franquias que enchem os cofres dos estúdios. É o caso de Michael Bay com “Transformers”, Peter Jackson com “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit”, e David Yates com “Harry Potter” e “Animais Fantásticos”. No entanto, nenhum cineasta citado neste parágrafo pode ser classificado como autor.

Yates e Jackson estabeleceram padrões que serão difíceis de superar para essas séries. Da mesma forma que os irmãos Russo, que convenceram a Marvel a trocar Joss Whedon por eles para lidar com os Vingadores. Mas será que eles dariam certo fora dos domínios do estúdio (ou da Disney, que detém os direitos da Marvel)?

David Yates se arriscou em “A Lenda de Tarzan” logo após terminar “Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2” e não deu muito certo. Peter Jackson arrebentou no remake definitivo de “King Kong”, mas falhou em “Um Olhar do Paraíso”, a adaptação do livro “Uma Vida Interrompida”, somente para retornar ao universo de J.R.R. Tolkien e transformar o livro “O Hobbit” em três filmes que dividiram opiniões, porém renderam muito, muito dinheiro. Mesmo assim, Yates e Jackson não tentaram mais trabalhar em projetos originais, algo que ainda acontece com Anthony e Joe Russo.

Sabemos que um diretor não tem a obrigação de ser autor, mas a de dominar suas habilidades como eficientes contadores de histórias. Então, por enquanto, eles estão indo bem e pensando somente na conclusão da saga em “Guerra Infinita” e “Vingadores 4”.

Ainda descobriremos se os irmãos continuarão dentro de casa por um bom tempo ou se pegarão suas mochilas para partir em busca de novas aventuras que definam suas assinaturas como cineastas. Grana e apoio da indústria eles terão de sobra para arriscar.

One Comment »

  1. Vinícius 5 de maio de 2018 às 8:45 PM -

    Tem diretores que só funcionam assim, Otávio, sob a tutela de um grande estúdio. Do pessoal que dirigiu pra Marvel, eu citaria Jon Favreau e Joe Johnston como dois bons nomes nesse sentido. Além dos Russo, que pra mim dirigiram o ainda melhor filme da Marvel até aqui: “O Soldado Invernal”.

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