“Um Lugar Silencioso” | Crítica

Otavio Almeida 7 de abril de 2018 1
“Um Lugar Silencioso” | Crítica

Uma aula de equilíbrio entre o velho e o novo cinema conduzida por quem jamais esperamos ou cobramos tal responsabilidade

Por Otávio Almeida

Quem diria que John Krasinski, um ator mais conhecido por seu papel numa série de comédia (The Office), seria capaz de entregar um filme tão espetacular como diretor? Não, “Um Lugar Silencioso” (A Quiet Place, 2018) passa longe de ser comédia. É um filme de terror – e bastante assustador como raramente conseguem fazer atualmente –, realizado com amor e respeito não somente pelo gênero, mas principalmente pelas regras básicas da origem da sétima arte erguida através da harmonia entre imagem, som e trilha. Remete aos filmes mudos de mais de 100 anos atrás, mas executa essa inspiração em um equilíbrio perfeito com o que entendemos ser o cinema dos dias de hoje, mais comercial e direcionado a um público essencialmente jovem, que se distrai fácil e está atrás de um consumo rápido e prazeroso ao mesmo tempo.

Sim, “Um Lugar Silencioso” é uma aula de cinema e, como disse, vinda de alguém que jamais esperamos ou cobramos tal responsabilidade. Basicamente, basta você saber que é um filme que acompanha uma família tentando sobreviver num futuro em que a humanidade foi dizimada por criaturas que não sabemos de onde vieram e o que realmente são. Sabe-se apenas que elas são cegas e, por isso, guiadas pelo som. Mas estou adiantando o problema, porque o filme começa de forma sublime sem explicar nada verbalmente. É tudo muito visual desde que somos apresentados ao próprio John Krasinski ao lado de Emily Blunt e as crianças do casal buscando (em silêncio) suprimentos antes de voltar para casa. Conduzido por Krasinski, o excelente trabalho da diretora de fotografia Charlotte Bruus Christensen (Um Limite Entre Nós, A Garota no Trem, A Caça) capta os cenários, depois vultos nas sombras revelados posteriormente pela luz como membros da família citada, que não tenho certeza, porém fiquei com a impressão que eles nunca se chamam pelos nomes. Mas continuando sobre a abertura: nos minutos seguintes, descobrimos de maneira terrivelmente impactante o que assusta aquela gente e é o motivo de silêncio geral. É quando surge o título do filme na tela, assim como a certeza de que ninguém na tela está seguro e que temos somente nessa introdução uma aula de roteiro e direção tanto na evolução da narrativa quanto na apresentação de personagens e o desenvolvimento crescente do suspense.

“Um Lugar Silencioso” remete ao velho cinema, porque confia na inteligência da plateia, no silêncio, nas imagens, nas linguagens de sinais expressadas pelos atores e a sensação de que o som pode surgir aqui e ali a qualquer momento. Ora num volume baixíssimo, dando a incômoda impressão de que na verdade não ouvimos nada e foi coisa da nossa imaginação, ora num repentino estouro em volume máximo para impactar e provar o quanto o som é importante num filme, embora Krasinski queira mostrar também como essa importância tem o mesmo peso em relação à ausência de palavras e efeitos sonoros. E é na linha tênue que separa o silêncio e o som que reside a beleza e o horror de “Um Lugar Silencioso” como espetáculo. Sem falas, Krasinski consegue quebrar um vício atual e contar sua história sem diálogos expositivos, voltando a atenção do espectador para as imagens que falam por si. Repare como em poucos segundos o filme explica o que precisamos saber sobre os monstros usando apenas recortes de jornais, além de fotos, anotações e impressões presas na parede. Note como Krasinski é objetivo e sutil ao revelar que a personagem de Emily Blunt está grávida. Note como os olhares dos atores de um elenco incrível dizem muito mais que palavras. Mais do que isso, note como Krasinski pode ser econômico e não precisa se repetir para dar o recado, sendo que um belo exemplo está na cena final.

Também é um filme que remete ao cinema de hoje, pois atrasa, mas não evita cacoetes modernos, como o som explodindo na hora do susto; mas aqui com uma justificativa plausível, porque funciona como solução para enfatizar a quebra do silêncio. Além disso, “Um Lugar Silencioso” é entretenimento rápido e satisfaz a fome de fast food do público, mas sem menosprezá-lo. Vai direto ao ponto, com uma duração de 1h30 e não dá a mínima chance do espectador mais apressado ou com déficit de atenção reclamar. Mesmo com a escassez de diálogos, a tensão é construída de forma crescente, ininterrupta e insuportável.  Ou seja, são poucos os momentos em que podemos respirar entre as várias cenas nervosas. Algumas delas alcançam o medonho, como naquela em que Emily Blunt (em uma de suas melhores atuações) tira o bebê do “berço” e seu movimento é acompanhado pela criatura emergindo lentamente da água.

Assim como o velho e o novo, o som e a ausência dele, “Um Lugar Silencioso” ainda é um filme de linhas tênues quando lembramos que John Krasinski se fez pela comédia e aqui se consagra pelo terror. Arrancar risadas e provocar medo são polos opostos, porém acredito que quem tem talento para gerar uma das duas reações consegue perfeitamente realizar a outra. Prova disso é o que o comediante Jordan Peele fez em “Corra!”, o melhor filme de terror de 2017, que lhe rendeu o Oscar de roteiro original, e é o que Krasinski faz em “Um Lugar Silencioso”, que não será superado por qualquer exemplar do gênero em 2018.

Mais quatro pontos: Krasinski disse que “Tubarão”, de Steven Spielberg, foi uma de suas inspirações para fazer este filme. Ele tem razão e acerta ao deixar claro que inspirar não é copiar, porque não lembramos do clássico de 1975 em momento algum enquanto assistimos a “Um Lugar Silencioso”. Krasinski se refere ao clima, ao tom, à sensação de medo e à utilização de som e música para orquestrar suas intenções.

Outra coisa: assim como sua personagem, a ótima jovem atriz Millicent Simmonds, que faz a filha de Krasinski e Blunt, é deficiente auditiva. Sua presença é importantíssima para provar que Hollywood deve desatar todos os nós dos temas “representatividade” e “inclusão”.

O penúltimo: “Um Lugar Silencioso” é produzido por Michael Bay e é, desde já, e de longe, o melhor filme envolvendo seu nome. Mas não acho que é preciso exaltá-lo, exceto pelo fato do longa graças a Deus não ter nenhum de seus vícios porque, provavelmente, limitou-se a garantir liberdade para Krasinski trabalhar.

O último ponto: é um filme sobre família, sacrifícios por quem amamos de verdade e como nenhum detalhe de um trabalho em grupo é em vão. Mas, acima de tudo, em um paralelo com a nossa realidade, “Um Lugar Silencioso” também é relevante, porque quando temos políticos como Donald Trump, Michel Temer, Jair Bolsonaro, além de uma polícia que mata seus cidadãos, principalmente negros e pobres, ficar em silêncio é uma opção segura. Você vive, mas não inteiramente. Porém, corre o risco de ser repreendido, execrado, humilhado e até morto ao fazer barulho e gritar suas reais opiniões num mundo cada vez mais radical, polarizado e dominado pelo medo, onde manter a boca fechada pode não matar ninguém, mas também não ajuda a mudar nada.

VEJA O TRAILER:

Um Lugar Silencioso (A Quiet Place, 2018)
Direção: John Krasinski
Roteiro: John Krasinski, Bryan Woods, Scott Beck
Elenco: Emily Blunt, John Krasinski. Noah Jupe, Millicent Simmonds, Cade Woodward
Duração: 1h30
Distribuição: Paramount

One Comment »

  1. Ariel Lucca 7 de abril de 2018 às 10:38 PM -

    Fantástica crítica! Estou curioso para ver esse filme e fiquei ainda mais agora com os seus elogios!

Deixe seu comentário »