“Westworld” retorna no momento certo

Otavio Almeida 23 de abril de 2018 0
“Westworld” retorna no momento certo

Inspirado no filme de 1973 escrito e dirigido por Michael Crichton (também autor de Jurassic Park), “Westworld” virou série da HBO no ano passado, com o tratamento esperado para quem surgiu com a missão ingrata de tentar substituir “Game of Thrones”, que se aproxima do fim, e não só cumpriu as expectativas como jogou no esquecimento qualquer memória imediata sobre a versão para o cinema. Independentemente se vai substituir ou não “Game of Thrones” no imaginário coletivo, a série ganhou fãs e seu próprio espaço.

Com a chegada da segunda temporada do show escrito por Jonathan Nolan e Lisa Joy, podemos finalmente descobrir as consequências dos acontecimentos que marcaram o primeiro ano de um parque temático que une passado e futuro ao reconstruir um Velho Oeste onde caminham seres humanos e máquinas, como Dolores (Evan Rachel Wood), que começa passando a impressão de ser mais uma peça criada para manter a tradição dos westerns, como a donzela em perigo e alvo de prazer dos homens que costumam dominar a trama. Mas Dolores acaba dando o troco, mata o idealizador desse universo artificial, Robert Ford (Anthony Hopkins), e se tornao a líder de uma revolução feminista.

É o que dá o tom do novo ano, que pega carona na onda de denúncias de assédio sexual em Hollywood. O que tem tudo a ver com a série, afinal Dolores e outras androides sofreram muito nas mãos de homens que pagavam por “diversão” no parque. E é incrível que o terreno tenha sido preparado para desencadear a revolução da personagem justamente nesse período conturbado e extremamente necessário que vive a indústria do lado de cá da tela.

Lisa Joy e Jonathan Nolan sabiam para onde a série estava indo. Nada que “Ex-Machina”, de Alex Garland, não tenha feito antes. E o movimento feminista no cinema e na TV não é exclusividade de “Westworld”, mas certamente os acontecimentos recentes engradecem a nova temporada, a ansiedade dos fãs, assim como suas teorias.

Quem mais ganha na atual conjuntura é Evan Rachel Wood, que chamou a atenção do mundo com uma grande atuação em “Aos Treze”, mas jamais ganhou outra chance tão valiosa para brilhar quanto em “Westworld”. Agora, os olhos de personagens e espectadores estão voltados às suas reações e decisões. É como se Dolores passasse e todo mundo parasse para observar. Outra atriz do elenco que marcará seu nome na cultura pop é Thandie Newton, como Maeve, uma peça importantíssima no jogo. Mas essa parte da história, por enquanto, pertence muito mais a Dolores.

Ainda há muita coisa para acontecer, mas nenhum outro show da TV americana este ano tem uma oportunidade tão boa para aproveitar o momento, mostrar que tem algo a dizer sobre isso e chamar a responsabilidade para si. Ok, a segunda temporada de “Big Little Lies” também tem essa chance, mas o apelo da marca “Westworld” parece ser muito maior para atingir um público mais amplo. Sem falar que as melhores ficções científicas podem viajar no tempo e espaço, mas precisam dialogar com a realidade que vivemos.

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