“A Noite do Jogo” | Crítica

Otavio Almeida 15 de maio de 2018 2
“A Noite do Jogo” | Crítica

Filme resgata a comédia de grande estúdio para uma nova era e reafirma que não podemos viver sem ela

Por Otávio Almeida

Já reparou que não vemos mais tantas comédias como há alguns anos atrás? Entre umas e outras baladas cinematográficas, sempre tinha aquele descanso merecido para rir com Katie Hudson, Anne Hathaway e Matthew McConaughey, além de Sandra Bullock, Hugh Grant e Julia Roberts antes deles. Talvez esses filmes tenham abusado demais da fórmula, deixando o público cansado. Hollywood é assim. Mesmo quando acham algo original como “Se Beber, Não Case!”, a mina de ouro é explorada excessivamente em continuações ou imitações desnecessárias até não sobrar mais nada. É por isso que as comédias de grandes estúdios protagonizadas por atores famosos enfrentam uma fase de extinção.

Mas Hollywood também tenta se reciclar de tempos em tempos e um filme como “A Noite do Jogo” (Game Night, 2018), mesmo com seus prós e contras, precisa ser notado simplesmente porque precisamos de boas comédias na vida. E essa aqui tenta oferecer algo a mais, o que é louvável, embora derrape em poucos momentos, mas tenha o mérito de terminar com um saldo positivo.

Vamos começar pela maior força do filme: o casal principal interpretado por Rachel McAdams e Jason Bateman, que são eufóricos, carismáticos na medida certa; daqueles que adoramos ver na tela e nos identificamos rapidamente. Bateman e McAdams podem tentar qualquer gênero, porque são bons atores, mas não há como fugir do fato de que são exímios comediantes. Vi Bateman pela primeira vez na série “Arrested Development”, com seu jeito ponderado, porém exalando ironias e um olhar que dispensa palavras para se comunicar com o público. Ele nasceu pra isso. Da mesma forma que Rachel McAdams, que notei inicialmente como a melhor arma de “Meninas Malvadas” (depois do roteiro de Tina Fey). Juntos, eles são perfeitos em “A Noite do Jogo”; lembrando os bons tempos das comédias com Steve Martin, Goldie Hawn ou mesmo “Uma Noite de Aventuras”. O filme dirigido por Chris Columbus e estrelado por Elisabeth Shue, em 1987, de certa maneira deve ter influenciado a jornada noite adentro de Rachel McAdams, Jason Bateman, e todo seu elenco maravilhoso – com destaque para o mulherengo e cérebro de azeitona vivido por Billy Magnussem e, principalmente, o policial solitário do fantástico Jesse Plemons, que rouba todas as cenas em que aparece.

“A Noite do Jogo” é mais ou menos assim: Rachel McAdams e Jason Bateman vivem um casal viciado em jogos. A maior diversão é reunir amigos e brincar de mímicas, adivinhações e outras atividades ramificadas dessas ideias. Tanto que uma delas leva a uma aventura que mistura realidade e ficção, como uma versão cômica daquele filme pouco visto de David Fincher com Michael Douglas, “Vidas em Jogo”. Tudo bem que os mistérios não se seguram por muito tempo, mas o filme caminha imprevisível mais pelas reações dos atores que o roteiro em si. E isso já está de bom tamanho, porque algumas cenas arrancam risadas magníficas, como aquela em que Rachel tenta tirar uma bala do braço de Jason Bateman (o efeito sonoro emitido pelo brinquedinho enquanto ela faz o corte me fez chorar de rir). E, cara, tem uma piada com Denzel Washington que é impagável. Espere pra ver.

Melhor ainda: é um filme que não precisa se apoiar em piadas apelativas e batendo em minorias. Sim, “A Noite do Jogo” é resultado de um gênero que foi para a geladeira e, felizmente, retornou atualizado. Quem disse que não desbancar para o politicamente incorreto leva ao submundo coxinha? Esse filme prova que não. E se dá ao luxo de contar com uma ótima direção – coisa rara nesse tipo de filme –, que tem até mesmo um plano sequência muito bem orquestrado quando os personagens tentam capturar um “ovo”.

John Francis Daley e Jonathan Goldstein fizeram antes disso aquele reboot que ninguém viu de “Férias Frustradas”, mas mostram agora do que são capazes. Entregam cenas visualmente incríveis que muitas vezes emulam jogos, como a perspectiva em terceira pessoa ao posicionar as câmeras atrás de alguns personagens e a transformação de uma vizinhança inteira numa espécie de plataforma de game. Há um corte logo no começo que é brilhante, acompanhando a queda do casal ao chão que se torna um tabuleiro num passe de mágica da edição. Gostei também do uso de sintetizadores na trilha sonora, meio oitentista, a era dos arcades, a era de John Carpenter.

É verdade que o ato final exagera na dose, com a barreira entre o que é realidade e o que é ficção extrapolando os limites do bom senso quando tentamos ligar os pontos do roteiro de Mark Perez. Mas tudo bem, porque já estamos capturados pela trama e seus heróis. Além disso, assimilamos há tempos, e com prazer, a mensagem que diz que envelhecemos só quando queremos; conceito que se mistura com a escolha ousada nos dias de hoje de um elenco adulto, não adolescente. Isso quando a maioria que vai ao cinema consiste num público jovem. Enfim, “A Noite do Jogo” precisa de sua confiança para que Hollywood consolide a volta das grandes comédias. A tendência é que venham outras ainda melhores.

VEJA O TRAILER:

A Noite do Jogo (Game Night, 2018)
Direção: John Francis Daley e Jonathan Goldstein
Roteiro: Mark Perez
Elenco: Jason Bateman, Rachel McAdams, Jesse Plemons, Bruce Magnussem, Sarah Rogan, Lamorne Morris, Kylie Bunbury, Kyle Chandler, Jeffrey Wright, Michael C. Scott, Danny Huston
Duração: 1h50
Distribuição: Warner

2 Comentários »

  1. Paulo Ricardo 16 de maio de 2018 às 11:58 PM -

    A comédia que mais me divertiu esse ano.Jason Batman e Rachel McAdams estão ótimos,mas quem rouba o filme é Jesse Plemmons(desde daquele filme maravilhoso da Netflix que ele lida com problemas pessoais (leia-se pé na bunda) e o câncer da mãe.se não me engano o filme chamava “Other People”(ou algo assim)

  2. Otávio Almeida 18 de maio de 2018 às 2:32 PM -

    Não conhecia esses trabalhos do Jesse Plemons, Paulo. Vou dar uma olhada. Valeu! Abs

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