As mulheres que viraram o jogo em Cannes

Otavio Almeida 14 de maio de 2018 0
As mulheres que viraram o jogo em Cannes

Talvez o Festival de Cannes não seja mais o mesmo depois desta semana. E que bom que essa hora finalmente chegou, porque se não mudar de uma vez por todas, a cobrança será insuportável.

No último sábado (12), a presidente do júri de Cannes, Cate Blanchett, e a diretora Agnès Varda, lideraram um grupo de 82 mulheres que protestou nos degraus que levam ao Théâtre Debussy. Organizado pela associação “50/50 by 2020”, que luta pela igualdade de gênero no cinema francês, a atitude foi uma alusão às dificuldades que as mulheres encontram para seguir adiante nas diversas áreas do cinema.

Juntar 82 manifestantes não foi obra do acaso. O número está relacionado à quantidade de filmes dirigidos por mulheres selecionados para disputar a Palma de Ouro até hoje, sendo que desde o início do festival tivemos mais de 1600 produções comandadas por homens na competição principal.

O protesto aconteceu pouco antes da exibição de “Les Filles du Soleil”, da cineasta francesa Eva Husson, um dos três trabalhos de diretoras no meio dos 21 filmes tentando a Palma de Ouro este ano. Na ocasião, Cate Blanchett leu o seguinte comunicado ao lado de Agnès Varda e atrizes como Kristen Stewart, Jane Fonda, Salma Hayek e Marion Cotillard , além de outras diretoras como Patty Jenkins e Ava DuVernay: “Mulheres não são minoria no mundo, mas nossa indústria diz o contrário. Como mulheres, cada uma de nós enfrenta desafios próprios e únicos, mas estamos juntas nesses degraus para simbolizar nossa determinação e compromisso com o progresso. Somos roteiristas, produtoras, diretoras, atrizes, diretoras de fotografia, agentes, montadoras, distribuidoras, agentes de vendas e todas nós estamos envolvidas com as artes cinematográficas. E estamos em solidariedade com mulheres de todas as indústrias”.

Não acabou assim, porque o grupo ainda pediu nesta segunda (14) ao diretor artístico do festival, Thierry Frémaux, para assinar um documento que compromete Cannes a incluir e apoiar mais diretoras nas próximas edições.

“A França é o país da Europa com o maior número de diretoras, mas os índices podem e devem aumentar. Apesar de sermos muitas e unidas, estamos num contexto no qual os homens ainda organizam festivais como Cannes. Temos só três diretoras brigando pela Palma de Ouro, contra 18 diretores. Essa disparidade não pode continuar. Ela transparece na competição e na seleção”, disse Agnès Varda.

Na última semana, outro grande nome dessa luta em Hollywood jogou suas cartas na mesa. Jessica Chastain é uma das atrizes mais ativas e engajadas de sua geração quando o assunto é empoderamento feminino em Hollywood. E uma das mais talentosas. Quando todas essas qualidades caminham em perfeita harmonia, Jessica mostra que ainda pode fazer muito pelo cinema e suas colegas que trabalham em diversos setores que levam essa indústria adiante. Ela está por trás da ideia de “355”, filme de espionagem com um elenco liderado por cinco mulheres de diferentes nacionalidades: além da própria Jessica Chastain, temos Marion Cotillard, Penelope Cruz, Fan Bingbing e Lupita Nyong’o.

O título “355″ surgiu de uma pesquisa que Jessica fez com agentes da CIA enquanto rodava “A Hora Mais Escura”, de Kathryn Bigelow: Agente 355 foi o codinome de uma das primeiras espiãs da Revolução Americana.

Testemunhamos protestos inteligentes munidos de ideias impactantes quando o mundo do cinema estava de olho em Cannes. E que aconteceram bem no intervalo entre as estreias de superproduções em Hollywood, como “Vingadores: Guerra Infinita”, “Deadpool 2” e “Han Solo”, fazendo com que, assim, todas as atenções da mídia e de fãs de cinema estivessem completamente voltadas para o festival. É mais um passo rumo a mudanças necessárias não somente em Cannes, mas no cinema em geral. E, quem sabe, em todos os setores.

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