“Cargo” | Crítica

Otavio Almeida 21 de maio de 2018 0
“Cargo” | Crítica

O filme de zumbi mais intimista e bonitinho que você já viu

Por Otávio Almeida

Está faltando aquele filme de zumbi para dar uma sacudida nesse estilo tão amado desde que George A. Romero o popularizou com “A Noite dos Mortos-Vivos”. Tivemos boas tentativas como o longa coreano “Invasão Zumbi”, o britânico “Todo Mundo Quase Morto”, e o americano “Zumbilândia”, mas nenhuma contribuição neste século foi tão relevante para a cultura pop quanto o game “The Last of Us”. A série “The Walking Dead”? Cansou, não?

Dirigido por Ben Howling e Yolanda Ramke, com base no curta homônimo da dupla (assista aqui), “Cargo” (2017) é outra surpresa agradável, mas ainda não foi dessa vez que o cinema entregou um filmaço de zumbis que será lembrado por décadas.

Basicamente é a situação insólita de um pai desesperado em um cenário insólito. Martin Freeman interpreta Andy, que perambula pelo outback devastado pelo tão sonhado apocalipse zumbi.

Basta você saber que Andy fará de tudo para proteger sua bebê antes que ele mesmo vire mais um morto vivo. Se eu fosse você não assistiria nem mesmo ao trailer, porque a narrativa é muito bem construída, com a devida paciência, camada por camada, até que o espectador entenda o verdadeiro plot. Por exemplo, eu chamei “Cargo” carinhosamente de “filme de zumbi” e isso já é spoiler, porque Ben Howling e Yolanda Ramke insinuam uma ameaça que jamais dá as caras nos primeiros vinte e poucos minutos. Um desavisado quanto à sinopse pode levar um belo susto (para o bem ou para o mal) quando descobrir no que se meteu ao notar o primeiro zumbi em cena. Então, peço desculpas, mas a melhor forma de ver um filme é não saber absolutamente nada sobre ele, uma coisa dificílima nos dias de hoje. E “Cargo” é um exemplo perfeito dessa tese.

Mesmo assim, não diria que é um ótimo filme. A sensação de que falta algo é o ar que respiramos do início ao fim; o que fica ainda mais evidente quando sabemos que a ideia saiu de um curta-metragem de sete minutos. Mas “Cargo” não deixa de ser um bom filme e um exercício interessante de narrativa muito bem-vindo numa era em que o cinema privilegia cada vez mais cortes rápidos e um fiapo de história – fiapo no pior sentido, porque uma trama pode ser simples, mas muito bem contada, como é a de “Cargo”. O problema é que filme com zumbi precisa ser bem mais tenso, não? E esse aqui é provavelmente o mais bonito que você verá na vida. Tente segurar uma lágrima no final se for capaz. Não estou acusando “Cargo” de buscar emoções apelativas, afinal ela vem do nosso fácil envolvimento com a situação do protagonista e toda a surpreendente questão social desenvolvida com louvor ao longo do filme; méritos dos diretores e do grande Martin Freeman.

Entendo que a proposta era sair do mais do mesmo. E sei que tem um susto aqui, outro ali, além de um pouco de tensão. Mas faltou aquele nervoso gostoso, não? É louvável a intenção de fazer algo diferente, precisamos de mentes criativas trabalhando nisso, como Yolanda Ramke e Ben Howling, que merecem novas chances, e tenho certeza de que ainda nos darão muitas alegrias. Mas não sei bem se a saída é fazer filme de zumbi num deserto ensolarado e sem quase carne alguma pelo caminho para eles comerem.

VEJA O TRAILER (Ou não):

Cargo (2017)
Direção: Ben Howling e Yolanda Ramke
Roteiro: Yolanda Ramke
Elenco: Martin Freeman, Simone Landers, Anthony hayes, Susie Porter, Caren Pistorius
Duração: 1h45
Distribuição: Netflix

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