“Deadpool 2” | Crítica

Otavio Almeida 18 de maio de 2018 0
“Deadpool 2” | Crítica

Sem a mínima vergonha de admitir que é uma bagunça

Por Otávio Almeida

Não vou comentar de novo sobre como foi a jornada de Deadpool e Ryan Reynolds, feitos um para o outro, rumo ao sucesso em Hollywood (leia aqui a crítica do filme original de 2016). Até porque dispensa apresentações, sabemos quem é o personagem e é hora de partir para uma trama mais complexa e ousada, certo? Errado! Porque isso fica só na intenção quanto ao conteúdo. Já a forma é o que mais importa em “Deadpool 2”, que faz o 1 parecer minimalista.

São filmes exagerados, ok. Mas, cara, “Deadpool 2” é zoado de todas as maneiras que você pode imaginar. Passando pelas piadas (algumas ótimas), a ação, a violência e até mesmo a construção da história. A diferença em relação às bombas que denigrem a imagem do cinemão americano é que o filme não tem a mínima vergonha de admitir que é uma bagunça.

Por um momento, pensei que o objetivo era fazer uma crítica aos blockbusters vazios que apostam tudo na estética e frases de efeito. Mas acho que o roteiro de Rhett Reese, Paul Wernick e Ryan Reynolds (!), além da direção de David Leitch (John Wick, Atômica), não vai tão longe assim. Mesmo assim, pode ser uma manobra criativa para driblar e justificar a própria ruindade e, claro, tirar sarro disso. Exemplo: Deadpool vive falando que o roteiro de seu filme é fraco, então, ora, vira brincadeira e está tudo perdoado. Como a história sem pé nem cabeça.

“Deadpool 2” começa muito bem antes dos sensacionais créditos de abertura, mas falo deles mais adiante. Gente, acontece uma tragédia nesse início; uma hora dramática surpreendente para o tipo de filme que Deadpool nos acostumou. Mas, minutos depois, a consequência, o sofrimento, tudo é jogado no lixo, porque o personagem prefere continuar contando piadas. E é exatamente quando o filme não sabe bem o que fazer até meter Josh Brolin vindo do nada do futuro (!!) para matar um garoto mutante que vai detonar o mundo num belo dia. Nem pense em “O Exterminador do Futuro”, mas num recorte safado de “Looper”, de Rian Johnson, sem ao menos ter a decência de quebrar a quarta parede para fazer piada disso. Vamos lá, Deadpool, achou que eu não conseguiria notar?

Mas, continuando, as razões que levam o anti-herói a proteger o menino não convencem e estão lá apenas para amarrar cenas de ação bem divertidas, mas nunca intensas graças à ausência total de coerência nas motivações dos personagens. Sem contar que a ação existe para compensar os buracos na trama de um filme que pensa que roteiro é feito somente de diálogos (alguns muito bons, diga-se de passagem).

Então eu nem precisava dizer que “Deadpool 2” não corrige certas reclamações que fiz do primeiro. Temos mais uma vez um anti-herói vivendo uma estrutura de roteiro pensada para um herói e isso não pode, meus amigos. Não estamos vendo um filme de segunda chance, como “Guardiões da Galáxia”, que desenvolve a transformação de anti-herói em herói. “Deadpool” e “Deadpool 2″ eram para ser mais subversivos para combinar com a escatologia das cenas, palavrões e afins.  E dessa vez a desculpa para engolir o heroísmo é inaceitável. Não dá para comprar o carinho de Deadpool pelo guri como abraçamos seu amor pela namorada interpretada por Morena Baccarin no filme original. E temos mais uma vez Ryan Reynolds visivelmente se divertindo mais que os fãs. Porém, o frescor do longa de 2016 é substituído pela sensação incômoda de se ver forçado a rir da piada de um amigo legal para não deixá-lo sem graça.

Ok, sei que é impossível não rir algumas vezes. Mas, pelo menos, o primeiro filme sabia contar uma história, não? Ou será que o 2 é tão alienado que zerei o cérebro? Não, o negócio é zoado mesmo. Basta lembrar que o diretor David Leitch, que fez “John Wick” ao lado de Chad Stahelski, deixou o colega sozinho na sequência “John Wick: Um Novo Dia Para Matar”, que consegue ser ainda melhor tanto na ação quanto no roteiro, mesmo deixando óbvia a pretensão de ser bem maior que o anterior. Ou lembre-se de “Atômica”, também de David Leitch, que é muito mais estética, inclusive pela ênfase na beleza de Charlize Theron, que qualquer outra coisa.

Mas “Deadpool 2” não é um passatempo descartável, vai. Juro que você conseguirá rir bastante em certas partes, principalmente se tiver uma bela bagagem pop (não se preocupe, porque o filme faz a desnecessária questão de explicar as piadas). E Ryan Reynolds é um rapaz carismático demais para odiar. Também vale pela presença imponente de Josh Brolin como Cable, ainda que ele pareça deslocado e passando a impressão de que imaginou uma coisa para o filme e viu outra na tela. Quero destacar ainda a incrível Zazie Beetz, como Dominó, uma heroína que tem a sorte como poder, uma ideia patética, mas aplicada de forma genial.

O filme poderia ser melhor? Bom, pelo menos para quem exige um pouco mais de Hollywood, afinal os melhores momentos de um filme não podem ser os créditos iniciais, uma ponta divertidíssima de um ator famoso e as cenas pós-créditos. Mas é assim em “Deadpool 2”: a abertura brega estilo James Bond com a música da Celine Dion (Ashes) ao fundo é de rolar de rir, assim como a tal participação especial no estilo “piscou, perdeu”, e as cenas durante e não pós-créditos em que Ryan Reynolds acerta as contas com erros que cometeu em sua carreira.

Deadpool veio para ficar e é impossível imaginar outro ator no papel. Mas será que podemos esperar menos pose e mais atitude? Nós vamos ao cinema para gostar de algo como “Deadpool 2”. Mas como a Marvel Studios ensinou, zoeira tem limite e é necessário buscar um equilíbrio. Cinema pode ser escapista, mas da realidade, não do próprio filme.

VEJA O TRAILER:

Deadpool 2 (Deadpool 2, 2018)
Direção: David Leitch
Roteiro: Rhett Reese, Paul Wernick e Ryan Reynolds
Elenco: Ryan Reynolds, Josh Brolin, Zazie Beetz, Morena Baccarin, T.J. Miller, Brianna Hildebrand, Bill Skarsgard, Terry Crews, Rob Delaney, Julian Dennison, Leslie Uggams, Karan Soni, Stefan Kapicic
Duração: 1h59
Distribuição: Fox

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